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Combo de incertezas em Brasília leva dólar a R$ 5,25

Novo Bolsa Família sem valor definido, manobra em precatórios e até ameaça com desfile de blindados entram na conta de investidores. 

Por Tássia Kastner 9 ago 2021, 18h37

Parece surreal, mas um desfile de blindados em Brasília tem a ver com seu dinheiro. O presidente Jair Bolsonaro convocou militares para um “flash mob” no dia em que deputados vão decidir sobre a ideia surreal de volta do voto impresso. Não foi exatamente por isso que o dólar subiu nesta segunda, mas é dessa barafunda política que depende a economia. Aí já viu.

Além desse assunto com ares de Coreia do Norte, Brasília se ocupou hoje também do novo texto do Bolsa Família e da PEC que tentará mudar a regra de pagamento dos precatórios, considerada uma espécie de pedalada.

O ponto mais importante sobre o Bolsa Família é que ele veio sem valor – ficou para a votação da lei orçamentária do próximo ano, que será discutida no Congresso. Mas o desejo do presidente  Jair Bolsonaro todo mundo já sabe: um pagamento de R$ 400, que dobraria o valor médio pago atualmente às famílias carentes. 

De antemão, especialistas  em contas públicas dizem que não há espaço no orçamento para isso. E o governo tentou dizer que estava tudo sob controle, que o tal Auxílio Brasil (o novo nome que deram para o Bolsa Família) ficaria dentro do teto de gastos. O mercado acreditou, tanto que o dólar chegou a cair durante o dia. Na mínima, ele bateu em R$ 5,2148. Na máxima, quase R$ 5,30. Fechou “no meio”, R$ 5,2473 (+0,21%).

O problema é que o governo quer abrir espaço nas contas parcelando precatórios, dívidas que a União tem com pessoas e que é obrigada a pagar. Junto com a MP que muda o Bolsa Família, o governo entregou ao Congresso a tal PEC (Proposta de Emenda à Constituição) para postergar os pagamentos de precatórios.

O assunto vinha sendo ventilado desde a semana passada. O que não se sabia, e assustou o mercado, foi o seguinte: o texto prevê que as dívidas passem a ser corrigidas pela Selic. Uma parte delas já é assim hoje, mas outra, ligada a pagamentos da Previdência e salários de servidores, era ajustada pela inflação + juro da poupança. Com a inflação acima de 8% e a Selic ainda em 5,25%, o mercado financeiro entendeu que o governo está tentando, de novo, dar um jeitinho de reduzir os valores que é obrigado a pagar em busca de mais dinheiro para o programa de assistência social.

Se fosse só isso, talvez desse para a Faria Lima relevar. Mas, segundo a Folha, medidas para tentar turbinar a popularidade de Bolsonaro já demandaram R$ 67 bilhões. E falta mais de um ano para a próxima eleição.

Blindados

Só que enquanto o mercado financeiro faz contas com o pouco de informação que tem sobre novos gastos, o governo tem outras prioridades. Anunciou para amanhã o tal do desfile de blindados em Brasília, que deve parar em frente ao Planalto. Só que ali do lado, não custa lembrar, fica o Congresso. Claro que não é coincidência, mas sim um arroubo autoritário. 

O presidente da Câmara, Arthur Lira, colocou na pauta de amanhã, às 15h, a proposta de governista de volta do voto impresso. Isso apesar de a Comissão Especial ter rejeitado o tema, o que deveria ser suficiente para encerrar o assunto.

Se até a Faria Lima começou a expressar insatisfação com o cenário político, imagina investidores estrangeiros. Aí o Ibovespa pode até tentar subir, mas perde fôlego. Hoje o índice ganhou 0,17%, a 123.019,38 pontos. O volume de negócios rondou os R$ 25 bilhões – abaixo da média diária do ano, que é de R$ 34 bilhões.

Expectativa

A altinha do dia foi para a conta das expectativas. Com tanta incerteza em Brasília, investidores se jogaram em ações de empresas que estão prestes a soltar o balanço do segundo trimestre – e podem, nas apostas deles, vir com resultados acima do projetado pelo consenso do mercado.

É o caso dos frigoríficos e também do BTG Pactual, que soltam dados nesta semana. Na ponta inferior do índice, destaque para a Eletrobras, que depende de um governo funcional para o andamento da tal proposta de privatização.

Vírus

E isso enquanto o mundo se assusta com a nova onda de Covid causada pela variante delta. O medo de que medidas de isolamento voltem a ser adotadas fez com o petróleo cedesse mais de 3%. E as bolsas americanas fecharam sem direção definida. 

Quer dizer. Não está fácil fazer planos em nenhum lugar do mundo. Até amanhã.

MAIORES ALTAS

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Minerva +4%

BTG Pactual +3,92%

Suzano +3,81%

Ultrapar +3,80%

Marfrig +3,66%

MAIORES QUEDAS

JHSF -2,20%

Eletrobras -1,89%

Lojas Americanas -1,79%

CVC -1,70%

YDUQS -1,65%

Ibovespa: +0,17%, a 123.019,38 pontos

Nova York

Dow Jones: -0,31%, a  35.100,60 pontos

S&P 500: -0,09%, a 4.432,41 pontos

Nasdaq: +0,16%, a 14.860,18 pontos

Dólar: +0,21%, a R$ 5,2473

Petróleo

Brent -2,35%, a US$ 69,04

WTI: -2,64%, a US$ 66,48

Minério de ferro: sem cotação nesta segunda

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