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Bored Apes: os NFTs que movimentaram mais de US$ 1 bilhão

Conheça a história de como NFTs de caricaturas de macaco transformaram um desempregado viciado em jogo e um escritor desconhecido em multimilionários do mundo das artes.

Por Alexandre Versignassi | Arte: Leandro Lassmar | Design: Caroline Aranha Atualizado em 15 jun 2022, 11h45 - Publicado em 11 mar 2022, 06h19

Em 2020, leiloaram “Homem Órfão Sem Chapéu”, um retrato que Vincent van Gogh fez em 1882, por US$ 460 mil. No dia em que este texto era escrito, Bored Ape #3671, uma entre 10 mil caricaturas de macaco produzidas por ilustradores anônimos, era arrematada por um pouco mais: US$ 506 mil.

Bored Ape #3671 consiste no desenho de um chimpanzé (ape) com cara de entediado (bored) e uma peruca ruiva. No mesmo dia, fechou-se também a venda do #5180, basicamente a imagem do mesmo macaco, mas com chapéu de cowboy, por US$ 319 mil. Outras seis variantes do símio emburrado, com ornamentos ligeiramente distintos, ainda trocariam de dono nesse 15 de fevereiro de 2021, a um preço médio de US$ 341 mil.

E até que estava barato. Menos de um mês antes, em 20 de janeiro, Neymar pagou US$ 569 mil pelo macaco #5269, uma versão do símio com raios laser emanando dos olhos, e mais US$ 480 mil pelo #6633, no qual o personagem aparece com pelo rosa e fazendo uma bola de chiclete.

O da bola de chiclete estampa o perfil de Ney no Twitter. O #599 decora o de Jimmy Fallon, o comediante americano, que pagou US$ 224 mil por seu Bored Ape em novembro do ano passado. Como o noticiário e os canais de finanças nas redes vêm martelando nos últimos meses, o que não falta são celebridades planetárias que pagaram valores equivalente ao de um apartamento de alto padrão por algum dos 10 mil Bored Apes: Eminem, Gwyneth Paltrow, Paris Hilton, Snoop Dogg, Shaquille O’Neal, Stephen Curry… and counting.

Quem olha de primeira tende a achar que a coisa começou com um clube de endinheirados. Que os desenhos de macaco servem de passaporte para um mundo secreto de luxo e luxúria exclusivo para quem acende charuto queimando nota de US$ 100 e não sai na rua sem um batalhão de seguranças egressos das Forças de Defesa de Israel.

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Leandro Lassmar/VOCÊ S/A

Mas não. Tudo começou com dois sujeitos banais: Wylie Aronow, 35, um desempregado viciado em jogo, e Greg Solano, 32, um escritor desconhecido – seu único livro é World of Warcraft: Cinematic Art, feito em parceria com um dos autores do game.

Eles se conheceram há 10 anos num bar de Miami, cidade natal dos dois. Leitores vorazes de ficção, passaram a se encontrar para discutir Hemingway, Bukowski, Salinger. Até que, em 2017, apareceu outro assunto nas conversas, ainda mais instigante: cripto.

2017 foi um ano memorável na saga das criptomoedas. O Bitcoin (BTC) subiu 2.000%; o Ethereum (ETH), 12.000% – o bastante para transformar R$ 5 mil em 100 mil, no caso do BTC, e R$ 5 mil em R$ 600 mil, para quem apostou no ETH.

Aronow, que disse numa entrevista recente à Rolling Stone já ter sido o tipo de cara que, no cassino, “arrebenta de ganhar na mesa de cartas e gasta tudo nos caça-níqueis a caminho do estacionamento”, não era exatamente alguém que deixaria aquela onda de valorização das criptos passar batido. Começou a colocar dinheiro na coisa, e levou o amigo junto. Aronow passaria os anos seguintes sem ocupação fixa, só no day trade. Solano, além de operar cripto em casa, vivia de produzir críticas literárias.

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Mas eles queriam mais. Entenderam que o mundo cripto poderia trazer alguma oportunidade de ouro. Talvez eles pudessem criar uma nova moeda do zero que passasse a valer zilhões da noite para o dia (como aconteceu com dezenas de criptos). Talvez uma rede de blockchain revolucionária, capaz de mudar a história da humanidade…

O problema: “Não somos caras de tecnologia”, diria Aronow mais tarde. “A gente não teria como programar blockchain nem que a gente quisesse. Trabalhamos com criatividade, certo?”

Pois é. Como é que dois caras analfabetos em tecnologia poderiam entrar nessa? Solano veio com a resposta. No início de 2021, mandou uma DM para o amigo: “Cara, vamos fazer uma NFT!”.

Aronow retornou com uma pergunta: “O que é uma NFT?”

NFT é um objeto digital (uma imagem, um vídeo, um texto) com certificado de propriedade. A “escritura” da coisa fica registrada numa rede de blockchain (em 99% dos casos, a rede do Ethereum).

Trata-se de uma derivação do conceito de criptomoeda. Uma cripto é uma linha de código com certificado de propriedade. Se você tem uma fração de BTC, o que você possui é uma linha de código registrada na rede (na blockchain) do Bitcoin. Se você possui uma fração de ETH, é dono de uma linha de código na blockchain do Ethereum. Essa linha fica guardada na sua carteira digital pessoal. Se você quiser comprar o meu carro com seus ETHs, e eu topar, você transfere essas criptos para a minha carteira pessoal, e negócio fechado.

Mas a rede do Ethereum tem um plus (que a do Bitcoin não possui). Ela não serve só para administrar uma criptomoeda. Você também pode pegar, tipo, a foto que você tirou de uma girafa no zoológico, e subir lá.

Pra quê? Vamos ver. Dentro da blockchain do Ethereum, a sua foto da girafa vai ser etiquetada com uma linha de código única, inalterável – como se ela mesma fosse uma criptomoeda. No mundo de quem mexe com esse troço, a etiquetagem mostra para todo mundo que você é o dono da imagem. Ela se torna um “ Token” (objeto digital) “ NãoFungível” (insubstituível). “NFT” na sigla em inglês.

Note bem: nada disso significa que a foto da girafa fica “incopiável”. Se ela estiver na internet, qualquer um vai poder dar Ctrl+C/Ctrl+V à vontade, salvar no celular, repostar no Insta… O “não-fungível” só se aplica mesmo à escritura de propriedade da foto lá na blockchain do Ethereum. Ela fica ligada à sua carteira digital, e a mais nenhuma. Se eu quiser ser o novo “dono” da foto, vou ter que te mandar uma mensagem e pedir para você transferir a escritura para minha carteira.

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Caso você ache que alguém no mundo vai ter interesse em se tornar dono da sua foto de girafa nesse esquema, você pode registrá-la em algum “marketplace de NFTs” – o maior deles é o OpenSea – e esperar até que alguém faça uma oferta.

Fica a pergunta óbvia: alguém vai ter interesse em se tornar proprietário de uma imagem, com todo o respeito, estúpida? Quando mandou sua DM para Aronow, Solano tinha certeza de que sim. Não faltaria demanda.

A coleção mais antiga de imagens a ser vendida na forma de NFTs foi a Curio Cards, que subiu para a rede do Ethereum em maio de 2017. São 30 imagens aleatórias (uma maçã, uma reprodução da Mona Lisa; um logo da Heineken com a palavra “Bitcoin” no lugar…). Mas ninguém reparou.

Em junho do mesmo ano, veio a primeira a fazer barulho: a CryptoPunks, uma coleção de 10 mil rostos pixelizados, propositalmente toscos (feitos para ficar com cara de personagem de videogame do início dos anos 1980). A graça ali é que os punks foram montados via inteligência artificial, que combina características pré-programadas (penteados, acessórios, cores de pele) para criar faces diferentes.

Matt Hall e John Watkinson, os engenheiros de software que criaram a coisa, transformaram as imagens em NFT e distribuíram de graça – ficaram com mil para eles. A diferença é que essa chamou a atenção. Não faltou gente no mundo cripto a fim de ter um punk para chamar de seu. Criou-se então um mercado em torno da compra e venda de punks. E eles passaram a valorizar como se fossem criptomoedas, em questão de meses, havia quem comprasse unidades com características mais raras por US$ 10 mil.

Ainda em 2017, veio o segundo fenômeno nessa linha: os CryptoKitties, com imagens de gatinhos. Mesmo assim, o comércio de NFTs ainda era algo restrito aos entusiastas mais radicais de cripto. O que abriu mesmo os olhos de Solano foi outra coleção, lançada só em janeiro de 2021: as Hashmasks. São 16 mil imagens de máscaras expressionistas (estilo Picasso). Elas foram postas a venda a US$ 130 cada uma. Três dias depois, algumas delas trocavam de mãos por mais de US$ 100 mil cada. Em questão de uma semana, o comércio das máscaras já tinha movimentado US$ 9 milhões na OpenSea. “Depois das Hashmasks a gente percebeu quão bacanas as NFTs podem ser.”

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Leandro Lassmar/VOCÊ S/A

Então chamaram mais dois amigos para ajudar, contrataram ilustradores e decidiram criar seu próprio projeto, que misturava um pouco do CryptoPunks (produzir 10 mil rostos parecidos, mas sem que nenhum repetisse exatamente os mesmos acessórios), do CryptoKitties (imagens fofas) e do Hashmasks (algo com o mínimo de pegada artística).

Mas por que macacos entediados? Seguinte: em alguns círculos gringos, a gíria para o ato de colocar alguma soma bem grande de dinheiro em criptomoeda é “ape in” – no sentido de “fazer uma macacada”. Por derivação, um bored ape seria alguém que ganhou dinheiro forte com cripto e agora vive aquela vida entediada dos milionários que não têm muito o que conquistar.

Criaram também uma história por trás da coleção. Os macacos fariam parte do Bored Ape Yatch Club, um lugar onde criptomilionários se reuniriam para espantar o tédio – e que só existe como uma imagem no site da coleção, o boredapeyachtclub.com (um bar rústico num pântano; referência ao estado natal de Solano e Aronow, a Flórida).

O timing para fazer algo assim era perfeito. Enquanto os ilustradores contratados faziam os macacos, em março de 2021, a Christies resolveu testar o apelo das NFTs. A casa de leilões britânica colocou à venda a “obra” The First 5000 Days – na verdade, uma coleção de 5 mil desenhos que um ilustrador, Mark Winkelmann, tinha feito para sua página do Instagram; uma para cada um dos primeiros 5 mil dias de Mark na rede social.

E vendeu bem. Muito bem. Vignesh Sundaresan, um empreendedor indiano que fez fortuna com cripto, comprou a coleção digital por US$ 69,3 milhões. Foi a terceira obra mais cara de um artista vivo já vendida num leilão.

Um mês depois disso, Solano e Aronow tinham terminado de produzir seus 10 mil Bored Apes, e colocaram à venda no Open Sea a 0,08 ETH (US$ 200 na época). O comércio de NFTs é quase sempre nessa criptomoeda porque isso automatiza as trocas de propriedade dentro da blockchain do Ethereum. Fica registrado para sempre lá dentro que você comprou o item tal no dia tal, e quanto pagou por ele, sem que o sistema bancário tenha se envolvido na negociação. Essa é a grande graça do mundo cripto como um todo, aliás – aquilo que faz tanta gente defender que um dia todos os registros de propriedade (e moedas) estarão dentro de alguma blockchain.

De volta aos apes. “Na primeira semana, as coisas foram devagar. Fizemos uns US$ 60 mil. Mas aí, da noite para o dia, a coisa explodiu, disse Aronow à Rolling Stone. A gente pensou “Fuck, agora é real”. De fato: os caras venderam tudo. Levantaram US$ 2 milhões de cara.

Era só o começo, porém. Imaginando que se formaria um mercado secundário, ou seja, que choveria gente fazendo ofertas para os compradores originais dos macacos, a dupla estipulou uma taxa: 2,5% de cada transação iria para a mão deles.

Foi justamente o que aconteceu. Em junho de 2021, a cotação dos Bored Apes no mercado secundário já chegava a US$ 20 mil. Em julho, US$ 100 mil. Foi aí que celebridades começaram a ficar de olho nesse mercado. Não exatamente para ganhar dinheiro, mas para gastar dinheiro.

Sim, pois ter um NFT famoso agora era tão importante para alguns membros do topo da pirâmide quanto contar com um relógio Richard Mille Double Tourbillon de US$ 500 mil no pulso.

Mesmo se tivesse de pagar bem mais de US$ 500 mil. Em outubro a Sotheby’s, outra casa britânica por onde circulam Picassos e Van Goghs, fechou a venda do macaco #8817 por US$ 3,4 milhões. Motivo, de acordo com os leiloeiros: “É que só 1% dos Bored Apes têm pelo dourado…”.

No início de 2022, menos de um ano após sua criação, os 10 mil Bored Apes já tinham movimentado US$ 1,1 bilhão entre vendas e revendas. US$ 27,5 milhões (2,5%) tinham ido para os bolsos de Solano e Aronow, que hoje se apresentam como sócios de uma empresa dedicada à criação de NFTs, a Yuga Labs. Uma de suas jogadas foi lançar outra coleção, a Mutant Ape Yacht Club, com 18 mil versões zumbis dos símios. Levantaram US$ 96 milhões em uma hora.

Não foram só os macacos. Com o mercado de arte pirado por NFTs, qualquer coisa que trouxesse essas três letras e contasse com alguma fama ganhou status de Mona Lisa. A começar pelos CriptoPunks. Em fevereiro de 2022, um empresário israelense arrematou o punk #5822 por US$ 23 milhões.

Faz sentido? Quem defende esse tipo de coisa como “investimento” diz que possuir um NFT desejado equivale a ter um Van Gogh na parede. Não tem preço. Ok. A discussão estética a gente pode deixar com os críticos de arte. Mas a financeira dá para resumir aqui. Bored Apes, CryptoPunks e cia são aberrações estatísticas. Gente disposta a pagar caro por arte, seja a arte que for, é um recurso escasso. Nem Theo Van Gogh, o marchand que tentava vender os quadros do irmão Vincent para galerias de arte, conseguiu acesso a esse público enquanto estava vivo. E olha que a coleção de “NFTs” que ele tinha nas mãos não era de se jogar fora

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