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Big techs Brasil: um raio-x das empresas mais inovadoras da bolsa

Em menos de dois anos, a bolsa ganhou 15 companhias de tecnologia – setor que, por definição, traz oportunidades fora da curva. Veja as mais promissoras.

Por Tássia Kastner | Ilustração: Gustavo Pedrosa | Design: Laís Zanocco | Edição: Alexandre Versignassi Atualizado em 15 out 2021, 15h33 - Publicado em 15 out 2021, 07h54

Se investidores de Wall Street escrevessem enciclopédias, a Tesla ilustraria o verbete “empresas de tecnologia”. Quando a companhia de Elon Musk entrou para o S&P 500, no final de 2020, suas ações acumulavam uma alta de mais de 700% no ano, e um investidor que comprasse o papel naquele momento precisaria esperar 1.300 anos para que o investimento se pagasse. Já quem abre o home broker hoje e digita TSLA espera menos, mas ainda longos 400 anos por isso.

Quem manda nesse cálculo é o P/L, um indicador que divide o preço de todas as ações da empresa pelo lucro que ela gera no ano. Na média do S&P 500, o P/L é de 30; no Ibovespa, menos de 10. Um indicador de 400, então, parece maluco em comparação com a média. E é. Normal, então, esperar um ajuste para o mundo real. Vale a  matemática: ou o preço da ação precisa recuar ou o lucro deve subir. A Tesla ficou com a segunda opção. A ação da empresa não caiu. O milagre veio do denominador, o “L”: uma disparada de quase 1.000% no lucro da empresa apenas no segundo trimestre de 2021.

A Tesla, por ser uma montadora, não é exatamente o que convencionamos chamar de empresa de tecnologia. Não tem problema. O mercado financeiro costuma colocar na caixinha “tech” empresas com potencial de multiplicar seus lucros, seja porque criaram um mercado novo (carros elétricos, iPhones ou um jeito de pesquisar qualquer coisa no mundo)  ou então porque quase não têm concorrentes (oi, Facebook). O caminho para isso é a inovação, daí o tech. Se der certo, o lucro sobe tanto que a ação deixa de custar uma fortuna e passa a trazer chances de ganhos reais ainda nesta encarnação (o ganho real, real mesmo, só viria se a empresa começasse a distribuir seus lucros na forma de dividendos, o que a Tesla não deve fazer tão cedo; mas tudo bem: quando o P/L deixa de ser lunático, significa que o negócio está sólido).

Esse tipo de aposta era igual terremoto e tornado – coisa de gringo. Não mais. Agora é possível encontrar empresas tech não só em Wall Street, mas também ali no centro de São Paulo, sede da B3. Das 72 empresas que estrearam na bolsa de 2020 para cá, 15 entraram na caixinha de tecnologia. Antes disso, existiam três ações do tipo entre as mais de 300 companhias com ações na B3: Totvs e Positivo, ambas na bolsa desde 2006, mais a Sinqia (de 2013).

Se a Faria Lima definisse setores de empresas, a conta seria bem mais flexível. Só que a tarefa, ao menos pró-forma, é da B3. Para a bolsa brasileira, o setor depende da principal fonte de receita da companhia. Se a origem é tech, check. Mas se ela vende carros, não, ainda que sejam elétricos.

Do ponto de vista de mercado, o Inter, um banco, é uma “big tech”: oferece alguma inovação (é um site de banco com marketplace) e tem um P/L surrealista, de quase 4.000. Para a B3, porém, o Inter é tão banco quanto o Bradescão.

Formalmente, então, a bolsa brasileira tem 18 empresas tech, três delas já robustas o bastante para figurar no Ibovespa, a elite da bolsa: Totvs, Locaweb e Méliuz.

Juntas, essas três empresas respondem por 1,4% do índice, um grão de areia perto dos 27,6% do S&P 500 – só a Apple, a maior empresa americana, responde por 6,2%. Mas é só o começo, claro.

Conheça as big techs brasileiras, e veja quais são as oportunidades que elas oferecem aos investidores.

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Seu site é por minha conta

Quando a Locaweb fez seu IPO, em fevereiro do ano passado, ela tinha um plano: usar o dinheiro para passar o rodo no mercado. Ou seja: sair comprando startups promissoras. Adquirir empresas prontas, afinal, é o jeito mais rápido de crescer, de oferecer novos serviços – ou algum concorrente fará isso.

Antes da entrada na bolsa, a Locaweb já era líder em hospedagem de sites e oferecia serviços de e-commerce para pequenos negócios. Tinha resultados sólidos e dava lucro. Em resumo: não era uma startup com modelo de negócio a ser testado. Ainda assim, estava sob risco. Ela não tinha mais tantas oportunidades de crescimento.

Isso muda com as aquisições. Desde o IPO, já foram 12 empresas, e a companhia tem um leque de mais de 70 negócios que poderão ser comprados. Aí não se trata mais de “apenas um site”. Um pequeno empresário que contrata a Locaweb para montar seu e-commerce usa junto o sistema de pagamentos – que funciona como a maquininha de cartão –, emissão de notas fiscais, entrega e ainda pode contratar gestão de redes sociais e email marketing, por exemplo. O presidente da empresa, Fernando Cirne, diz que o objetivo é que pequenos negócios tenham tantas ferramentas de venda online quanto os grandes.

A estratégia da Locaweb não podia ser mais big tech. O Facebook, afinal, comprou o WhatsApp e o Instagram para ter todo tipo de público de redes sociais. A Apple não quer vender só iPhone, mas também assinatura da iCloud. A Amazon não é só e-commerce e Alexa. O negócio mais lucrativo da empresa de Jeff Bezos é a AWS, o serviço de computação na nuvem. Trata-se de um ecossistema de serviços. É algo que a Locaweb está, à sua maneira, copiando.

A verdade é que o sucesso do IPO contou com um empurrãozinho da pandemia. Logo depois da estreia na B3, em fevereiro de 2020, a demanda pelos serviços de e-commerce decolou. Nisso, a Locaweb conseguiu lucros cada vez mais robustos para mostrar ao mercado, algo pouco usual para empresas novatas na bolsa.

Investidores retribuíram: as ações da companhia sobem 400% desde o IPO, o maior retorno acumulado por uma empresa que abriu capital de lá para cá. E trata-se de um dos exemplares Tesla da bolsa brasileira: o P/L está em 1.300. Mesmo assim, boa parte dos analistas  recomenda comprar o papel.

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Laís Zanocco/VOCÊ S/A

A XP diz que a ação da empresa, hoje ao redor de R$ 22, pode terminar o ano em R$ 32. O Itaú BBA aponta preço-alvo a R$ 33,10, também com recomendação de compra. Isso dá uma alta de nada desprezíveis 45% a 50%. Numa das raras análises conservadoras para as ações tech brasileiras, o Bank of America tem recomendação apenas “neutra” (não comprar nem vender). Mesmo assim, o preço-alvo é de R$ 29 (+32%).

Enrico, do Itaú BBA, chama o segmento da Locaweb de “digital commerce” – setor no qual o banco aposta firme.

Existem outras empresas na bolsa brasileira especializadas nisso, caso da Infracommerce. A companhia, que estreou em maio deste ano, presta serviço a grandes marcas. Ela é, por exemplo, quem controla todo o e-commerce da Nike, desde a compra até a entrega do produto. Também administra a loja online da 3M, muito demandada quando todo mundo ficou desesperado atrás de máscaras PFF2, diga-se.

O Itaú tem recomendação de compra para a ação, com preço-alvo de R$ 27,90 (+65%). O lance é que, desde o IPO, as ações empacaram. Nem a aquisição de uma concorrente, por R$ 1,2 bilhão, foi o suficiente para fazer a ação deslanchar. Um dos motivos é o medo de que grandes negócios decidam migrar seus e-commerces para “dentro de casa”, de modo a reduzir custos de terceirização, e dispensem os serviços da Infracommerce. Já os pequenos, servidos pela Locaweb, teriam menos condições de abdicar dos serviços de uma empresa de TI.

Para além do e-commerce, empresas precisam de softwares para o funcionamento geral, assim como seu computador precisa do Windows e o iPhone, do iOS. Do contrário, o caixa do supermercado seria fechado ao fim do dia com anotações em um caderno, e o auge da modernidade seria ter um contracheque saído direto das agulhas de impressoras matriciais.

Os serviços de software para empresas são o coração da Totvs, a maior big tech brasileira em valor de mercado, na faixa dos R$ 20 bilhões. Ao longo da década de 2010, a empresa já havia comprado concorrentes, tanto que foi responsável pelo “sumiço” de duas techs da bolsa – a Bematech e a Datasul. Em 2021, mais uma vez ela precisa ir às compras antes de ser engolida por concorrentes novatos.

No final de setembro, a companhia levantou R$ 1,4 bilhão em uma nova oferta de ações (follow-on) para aquisições. Ela também vai na linha da formação de um ecossistema de serviços, inclusive financeiros – a Totvs faz empréstimos para empresas agora. Virou banco também.

Por sinal, essa é praticamente a regra do mercado: quem vende software hoje tende a ter uma fintech dentro de casa para chamar de sua – é o caso lá do sistema de pagamentos da Locaweb, por exemplo.

“Essas empresas precisam agregar 100% dos serviços. Quanto mais você oferece ao cliente, maior o custo que ele tem para sair, então você fideliza”, diz Danielle Lopes, analista de ações da Nord Research.

A XP tem recomendação de compra para a Totvs, com preço-alvo de R$ 48 (+30,5%) no final de 2022; o Itaú, a R$ 43,40 (+18%) ao final deste ano. Uma outra coisa diferencia a Totvs da Locaweb. O P/L da empresa já é de “tech grande”, que tem potencial de crescimento, mas não meteórico: 60 vezes, num patamar semelhante ao da Amazon.

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Pechincha online

Um outro negócio ligado a e-commerces foi parar na estratosfera da bolsa: o Méliuz. A empresa conhecida pelo cashback subiu mais de 300% na B3 desde o IPO, uma explosão que elevou seu P/L a 1.000. Só que ela não vende softwares.

O Méliuz é basicamente uma vitrine de anúncios. Varejistas pagam à empresa para anunciar produtos, enquanto consumidores acessam a plataforma em busca de barganhas. Quem compra por lá ganha um trocado de volta, e essa recompensa garante que eles sempre voltem. Trivial demais para justificar o preço lunático das ações? Sim. É o que têm dito até os bancos que recomendam a compra do papel. E o Méliuz também sabe disso, tanto que usa os quase R$ 700 milhões levantados no IPO para ser mais do que um site de cashback.

Primeiro veio, claro, um serviço financeiro: um cartão de crédito em parceria com o banco Pan. Depois, a oferta de serviços, como recarga para celular e seguros. Para o próximo ano, o plano é tirar o parceiro da jogada e ser a fintech que emite o próprio cartão.

Mesmo assim, não se trata de uma tarefa trivial. A XP publicou um extenso relatório em que detalha o potencial e os riscos para a companhia: a concorrência entre sites de compras, como Americanas, Amazon, Magazine Luiza e Mercado Livre, faz com que todos queiram estar no Méliuz em busca de mais clientes. Por outro lado, todos eles têm seus próprios programas de fidelização – em algum momento, um grande poderia se irritar, cortando anúncios e limando uma parte importante da receita do Méliuz, diz a corretora. Em suma: basta uma Amazon da vida criar seu próprio marketplace de cashback que ela não precisará mais do Méliuz.

Bancos também poderiam se cansar da competição, com a entrada do Méliuz nos serviços financeiros. E o primeiro revés já aconteceu.

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Antes de ser dispensado, o Pan anunciou a compra da Mosaico, outra nova tech da bolsa, e  que concorre diretamente com o Méliuz. A Mosaico é dona de sites de comparação de preços, como o Buscapé e Zoom, e dava seus primeiros passos no cashback. O problema é que, desde o IPO, tombava 70% na bolsa.

A Genial Investimentos diz que houve frustração de expectativas com a Mosaico, apesar de manter a recomendação de compra da ação, de R$ 11, com potencial de chegar a R$ 13. “Esperávamos um movimento maior em relação a fusões e aquisições, para inclusão de novas features em suas plataformas”, escreveram os analistas da corretora.

Já o Itaú mantinha, ainda em agosto, recomendação de compra da ação com preço-alvo de R$ 39. Por outro lado, ressaltava que o modelo de negócio dos sites de comparação de preços estaria em xeque, já que o Google tem se aprimorado nessa função.

Para o Méliuz, quem manda é o otimismo. As apostas para as ações continuavam elevadíssimas, com recomendações de compra e preço-alvo de R$ 9 e R$ 13 ao fim do ano, o que significaria uma valorização de mais de 100%.

Mas, assim como aconteceu com a Mosaico, o Méliuz pode não ter uma vida independente por muito tempo. A XP especula que o Méliuz será comprado. Um dos candidatos seria o Nubank. O interesse do banco roxo seria o mesmo do Pan: trazer um marketplace para dentro do app, algo que já foi feito por outros bancos digitais. No fim, é uma amostra de que, hoje, ninguém no mundo tech é tão grande que não possa ser alvo de assédio do mercado.

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Quem vende produto

O mundo tech da B3 ganhou empresas que até começaram na internet, mas precisam de coisas bastante concretas para gerar receita: móveis. É o caso de Mobly e Westwing. E isso significa gerenciar estoques e redes logísticas complexas de entrega, tal qual uma Tok&Stok ou Casas Bahia da vida.

Aí, na mesma velocidade com que embarcaram nos IPOs tech, investidores desembarcaram das ações dessas empresas. Se deram conta de que tratava-se de um negócio menos digital e mais físico, com possibilidades menores de crescimento. As ações das empresas tombam quase 70%.

A Westwing é um exemplo extremo: os donos do negócio aproveitaram a estreia na bolsa para sair da operação. Se nem o fundador acredita no lucro futuro da empresa, fica difícil para o pequeno investidor conseguir vislumbrar ganhos.

“Por que o fundo [controlador] abrirá mão de quase todas as suas ações se a companhia, nas palavras do prospecto, ‘está inserida em um mercado que mal começou a crescer’? Parece que o controlador está aproveitando a injeção de ânimo da pandemia no e-commerce e simplesmente desistiu do sonho de vender lindos móveis online”, escreveu Danielle Lopes, da Nord, no relatório em que recomenda a clientes não entrarem na oferta pública.

Hoje a XP não pode comentar as ações da Westwing por restrição de compliance. Esse tipo de indicação existe quando a corretora participa de alguma negociação envolvendo a empresa, com acesso a informações privilegiadas. Os relatórios anteriores à restrição, porém, mostravam analistas otimistas com o negócio. Um mês depois do IPO, a XP apontava preço-alvo de R$ 17. Na última atualização do relatório, no começo de agosto, a indicação de compra ainda era mantida. A Westwing valia R$ 4,33 em setembro, e especula-se que os executivos procuram um sócio de varejo offline. Bye-bye, tech?

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Meu celular, minha vida

Há cerca de um mês, a Apple lançava sua nova linha de iPhones. É assim todos os anos, há pelo menos uma década: as atenções do mundo se voltam às inovações da companhia. Se forem poucas, como foi o caso neste ano, isso será debatido exaustivamente.

Neste ano, houve um pequeno alinhamento astral com o Brasil. No mesmo dia do lançamento dos iPhones 13, a Multilaser atualizou sua linha de smartphones. O foco é o preço, coisa de R$ 1.000 para um aparelho mediano.

Ao lado da Positivo, da Intelbras e da ainda mais novata Desktop, a Multilaser ocupa o lugar de empresa de produtos tecnológicos na segmentação da bolsa brasileira. O lance é que a Faria Lima também não considera essas empresas como tech de fato, já que elas não são grandes desenvolvedoras de novas tecnologias. Em XP, Itaú, e BTG Pactual, por exemplo, quem analisa essas companhias são os especialistas da área de varejo.

O caso da Multilaser é o mais impressionante porque se trata de uma fabricante com mais de 30 marcas e 5 mil produtos no portfólio. É financeiramente impossível ter uma área de pesquisa e desenvolvimento robusta para garantir produtos inovadores em todas as linhas. Especialmente quando se produz de telefone a oxímetro, passando por patinetes, caixinhas de som e lâmpadas inteligentes. O fato é que uma parte importante desses produtos vai ser vendida na seção tech de qualquer site ou loja física, daí a B3 considerá-la como tech de fato.

Desde a estreia na bolsa, as ações da Multilaser acumulam queda de 40%. Para a XP, isso não é problema. É solução – para quem quer comprar ações de uma empresa promissora a preços baixos. A corretora afirma que a companhia tem um sólido posicionamento de mercado; lança produtos constantemente, tem uma ampla estrutura de produção e distribuição e, de quebra, está barata. O potencial para a companhia, de acordo com a XP, é alcançar os R$ 15 por ação, o que daria uma valorização de mais de 100% hoje. O P/L estimado é de 13,6 – hoje está em 6, abaixo da média do Ibovespa.

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É como o mercado precifica o segmento. A Positivo é da primeira leva tech da bolsa e tem uma história semelhante. Menos diversa que a Multilaser, produz computadores e celulares, além de produtos para casa conectada (tipo lâmpadas inteligentes). O esforço mais recente é para criar serviços de aluguel de computadores para empresas, uma maneira de garantir receita recorrente, em vez de depender exclusivamente das vendas.

XP e BTG Pactual recomendam a compra da ação com preço-alvo a R$ 16 e R$ 15, respectivamente, 50% acima dos atuais R$ 10. As duas instituições apontam, porém, riscos substanciais. O primeiro é que a Positivo tira 25% de sua receita da venda para o governo. Com o orçamento público cada vez mais limitado, existe risco de desaceleração da empresa. Não só. O dólar alto e a pandemia encareceram os preços dos componentes de computadores e outros hardwares – um risco, por sinal, que também assombra a Multilaser.

Nesse setor, quem vai melhor é a Intelbras, uma fabricante de equipamentos de segurança condominial, sistemas de interfone e que tais. Desde o IPO, as ações da empresa praticamente dobraram, e ela conta com um P/L camarada, de 20, ou seja, lucra bem. Hoje tem como diferencial a venda de placas solares – um mercado que, com ou sem apagão, não vai deixar de crescer tão cedo.

Mesmo assim, uma aposta na Intelbras não é necessariamente um tiro certo. O Itaú BBA recomendava compra para a companhia em julho, com preço-alvo de R$ 28,10 para o fim do ano. Hoje, a companhia já está cotada a R$ 30.

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É culpa da crise?

Dessas 17 novas ações tech, 11 acumulam queda desde o IPO. É verdade que nem o Ibovespa tem se segurado no positivo neste ano, mas a baixa de 7,5% do índice é bem mais sutil que os tombos de quase 70% de alguns negócios. O fato é que  o vento favorável aos IPOs mudou de direção muito rapidamente.

Empresas novas são como crianças em fase de crescimento: precisam de muita energia. Para empresas, o dinheiro é o combustível. E, assim como a gasolina, esse combustível está cada vez mais caro.

A disparada da inflação deve colocar a Selic em pelo menos 8,25% até o final do ano, e mantê-la num patamar alto por um bom tempo. Isso eleva o custo do crédito, fazendo o mercado rever o potencial de ganhos para empresas – que costumam precisar de empréstimos.

Quem dá lucros generosos sofre menos, porque pode reaplicar o resultado positivo no negócio. Isso ajuda a explicar por que a Locaweb e a Totvs, empresas consolidadas, se seguram em alta, enquanto Mobly e Mosaico, mais dependentes de crédito, caem. “Essas empresas uma hora vão ter que trabalhar com menos dinheiro daqui para a frente”, diz Enrico Trotta, analista de Tecnologia do Itaú BBA.

ETF de Big Tech Brasil

Enquanto isso, investidores vão etiquetando outras companhias como tech – independentemente do que a B3 ache ou deixe de achar. Uma delas é a ClearSale, que vende software antifraude para comércio eletrônico. A B3 classificou a empresa como serviço financeiro. Desde a estreia, no começo de agosto, a companhia tomba 20%, mas ainda sustenta um expressivo P/L de 102. Junto com ela, o mercado considera tech mais uma leva de instituições financeiras, como as maquininhas de cartão Stone e PagSeguro, ambas listadas nos Estados Unidos.

É aquilo: PagSeguro e Stone são mais do que operadoras de maquininhas. Também são bancos, já que emprestam dinheiro – uma inovação que amplia para o infinito o potencial de crescimento das duas. Nada impede que virem bancos de grande porte um dia.

Nesse universo “tech flex” brasileiro, outras duas sempre serão lembradas: Magazine Luiza e banco Inter, ambas com P/L gigantescos.

Depois da revolução no próprio negócio, capaz de fazer o e-commerce responder por metade das suas receitas, a Magalu comprou duas dezenas de empresas para turbinar o aplicativo da companhia e escalar as vendas. A estratégia é ter um superapp ao estilo chinês: vender todo e qualquer produto ou serviço que você imaginar.

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Laís Zanocco/VOCÊ S/A

O mercado comprou que esse é o futuro. A Magalu é a décima maior empresa do país na bolsa, avaliada em mais de R$ 90 bilhões. Investidores acham pouco, tanto que o P/L da empresa ainda ronda em 120, isso depois de um ajuste de expectativas. As ações da empresa têm queda de 40% neste ano. Isso significa que elas custam o dobro da Amazon (P/L de 60) – o P/L, afinal, é o preço real de uma ação, independentemente de seu valor de face.

É o mesmo fenômeno do Inter. O banco digital já oferece até delivery de comida no aplicativo da instituição, e também tem de loja online a serviços de telefonia. Quem compra papéis do banco, tropeça em um P/L de quase quatro milênios: 3.887, o que torna BIDI11 a ação mais cara do Ibovespa.

Ações de Inter, Magalu, Stone e PagSeguro estão no primeiro ETF de empresas tech brasileiras, o TECB11. O fundo, criado pela fintech Magnetis, estreou no início de outubro. A composição é a seguinte: 45% de ações de e-commerce, 44% de serviços financeiros e 11% de software, hardware e dados.

Novidades à parte, o fato é que a onda tech não tem nada de nova. Dois anos depois de inventar o telefone, Alexander Graham Bell foi buscar dinheiro na bolsa. Abriu o capital de sua Bell Telephone Company em 1877. E ela continua lá, hoje com o nome de AT&T. Sem a bolsa, grandes inovações teriam mais dificuldade de encontrar um lugar ao sol. E, sem as inovações, a própria bolsa não teria grandes razões para existir. O mercado financeiro, afinal, não é só sobre fazer dinheiro. É sobre construir o futuro da humanidade.

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