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A Meta (ex-Facebook) quer dominar o metaverso: vale a pena ser sócio dele nessa aposta?

O planeta depende dos serviços de Mark Zuckerberg para funcionar. E ele quer mais: lançou um plano bilionário para a criação de um metaverso. Só que investidores não se animaram com o projeto, e as ações continuam baratas.

Por Tássia Kastner Atualizado em 13 jan 2022, 15h05 - Publicado em 14 jan 2022, 07h02

Em outubro do ano passado, um terço da população mundial viveu seis horas de apagão. Negócios pararam, smartphones e computadores de 2,8 bilhões de pessoas fizeram um silêncio sepulcral. Mas não foi um blackout tradicional, desses que deixam cidades à luz de velas. No dia 4 daquele mês, todos os serviços do Facebook – a rede social homônima, o Instagram, o WhatsApp – saíram do ar.

Nem precisava, mas foi como encravar na pedra o fato de que o planeta depende dos sistemas de Mark Zuckerberg para respirar. Isso gera à empresa de Zuck um faturamento de US$ 28 bilhões por trimestre só com anúncios – 25% mais que a receita da Petrobras em período equivalente.

E ele quer mais. Menos de um mês após o incidente, a empresa mudou seu nome para Meta. Durante o anúncio, Zuckerberg pregou que o futuro da internet será o metaverso, esse tal espaço virtual 3D ainda um tanto utópico em que poderemos todos interagir não uns com os outros, mas uns com os avatares dos outros. Teremos roupas virtuais – talvez de grife – e conversaremos com colegas de trabalho não pelo Zoom, mas num cafezinho virtual, como se estivéssemos lado a lado.

A ideia de um metaverso não é nova. O nome foi criado em 1992 por Neal Stephenson, em um livro de ficção científica chamado Snow Crash. De alguma maneira, ele já vem sendo implementado por empresas de games há um bom tempo. Em 2003, quando não existiam Facebook e nem iPhone, surgiu o Second Life, o primeiro jogo em que se usavam avatares para levar uma vida paralela digital. E o conceito segue firme. Em 2021, a cantora Ariana Grande fez um show dentro do jogo Fortnite.

Para o Facebook – ops, Meta –, a falta de pioneirismo é um mero detalhe. Afinal, a rede social não foi a primeira em nenhuma das áreas em que atua. Antes de usarmos o Facebook, passeamos pelo Orkut. Antes do WhatsApp, houve MSN e ICQ. Ao mudar o nome da empresa, porém, Zuckerberg indica a investidores e ao mundo que pretende algo maior agora. Quer que a Meta seja sinônimo da própria internet, tal como BomBril e palha de aço, numa espécie de monopólio da comunicação virtual.

Só que a trajetória da companhia não deve ser tão fácil. Órgãos reguladores mundo afora estão de marcação cerrada, e mesmo a opinião pública parece menos tolerante ao jeito Meta de fazer negócios – quebrando a privacidade de usuários e ignorando os eventuais danos que isso traga à sociedade. Para completar, a Apple fechou o cerco à maneira como a rede social coleta dados nos iPhones.
Nesse cenário, que veremos mais a fundo adiante, vale a pena ter ações da Meta?

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Pé no freio

Quando o Facebook anunciou a mudança de nome e o investimento em um metaverso, no final de outubro do ano passado, bancos passaram a ajustar para baixo suas projeções de preço-alvo para as ações da companhia. Zuckerberg tinha afirmado que sua empresa desembolsaria pelo menos US$ 10 bilhões só em 2021 para desenvolver esse ambiente virtual. Em 2022, pela primeira vez em cinco anos a empresa deve diminuir o bolo de dinheiro que guarda em caixa. O investimento vai tanto para o software onde as pessoas vão se encontrar quanto para os equipamentos necessários para estar nesse ambiente, como óculos de realidade virtual e sensores de movimento.

Lá atrás, em 2014, o Facebook comprou por US$ 2 bilhões a Oculus, uma empresa desenvolvedora desses gadgets, mas até aqui não conseguiu criar um mercado real para a tecnologia. Afinal, os trambolhos imersivos estão mais para um produto de nicho gamer do que para algo de massa (a começar pelo preço, a partir de R$ 3.000 no Brasil).

Duas pessoas olham para imagens de um projeto exibidas digitalmente em 3D
Simulação de como funcionaria o metaverso na vida real. Meta/Reprodução

No ano passado, foi a vez do lançamento do Ray-Ban Stories, óculos de sol que poderiam gravar vídeos com áudio e fazer fotos da perspectiva do usuário da rede social, para compartilhamento instantâneo – algo que a Snap (do Snapchat) havia tentado em 2016. É dinheiro que já saiu do caixa, mas ainda não gerou resultados estratosféricos, como investidores geralmente esperam da companhia.

O mercado financeiro vê a iniciativa como um plano de longo prazo, que consumirá caixa no presente e deve minar a rentabilidade da Meta por algum tempo. “O metaverso é um evento transformacional para a companhia, aumentando as oportunidades de mercado, mas também elevando os riscos de destruição de capital”, escreveram os analistas do Bank of America.

Se der certo, a empresa colocará 1 bilhão de usuários dentro de sua versão de metaverso em uma década, o que dá um terço da base atual de clientes. As projeções foram feitas por Zuckerberg. Caso isso aconteça, a Meta seria dona de um ambiente eletrônico com 1 bilhão de consumidores, gente que poderia comprar roupas e imóveis virtuais lá dentro, e o que mais inventarem, enchendo os bolsos da Meta.

Mas, até lá, quem manda é a cautela. O JP Morgan reduziu o preço-alvo da ação de US$ 450 para US$ 390 ao final de 2022. O Credit Suisse ceifou a estimativa de US$ 500 para US$ 430, enquanto o Goldman
Sachs manteve sua recomendação de compra em US$ 445, sem revisar o preço-alvo. Isso quer dizer que o mercado financeiro trabalha com uma projeção de valorização da companhia entre 13% e 30% neste ano.

“Nós classificaríamos, por enquanto, o metaverso como uma área de investimento para além do curto e médio prazo, com baixa visibilidade na dinâmica da indústria e na forma de monetização”, disseram os analistas do Goldman Sachs. Ainda assim, o banco acrescentou que a transição da internet 2.0 (do jeito que a gente conhece hoje) para a 3.0 (com realidade virtual e descentralização – veja mais a partir da página 28) é uma questão de “quando” acontecerá, e não de “se” ela ocorrerá.

Enquanto o quando não chega, o Facebook precisa lidar com outros problemas.

Ele sabia

A empresa sabia que ajudava a propagar discursos de ódio. Sabia que a rede favorece a desinformação e a propagação de fake news. Sabia que o Instagram faz mal para a saúde mental de adolescentes. E escolheu não fazer nada com isso. Esse é o teor das denúncias de Francis Haugen, uma ex-funcionária do Facebook que vazou documentos sigilosos da companhia mostrando a negligência da empresa com as falhas de sua rede. O caso revelado primeiro pelo The Wall Street Journal ficou conhecido como Facebook Files, e as denúncias de Haugen levaram a uma nova rodada de escrutínio sobre a empresa de Mark Zuckerberg no Congresso americano.

O escândalo mais célebre do Facebook é de 2018, quando se soube que a Cambridge Analítica, uma agência que presta assessoria a campanhas políticas no mundo todo, pagou para acessar dados de 50 milhões de usuários da rede social e usou as informações para direcionar propaganda política. Quando episódios como esses vêm à tona, ressurgem as ameaças de uma intervenção regulatória na empresa. A mais dura propõe a cisão das empresas de Zuckerberg, para que a companhia não tenha esse virtual monopólio da comunicação global. Até aqui, são só ameaças – e investidores já têm menos medo.

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“Nós ainda vemos baixa probabilidade de uma ampla regulação que impacte as tendências de modelos de negócio. Dito isso, alertamos que um mix de escrutínios regulatórios está empurrando a indústria para uma ênfase maior em investimentos orgânicos”, escreveram os analistas do Goldman Sachs.

Zuckerberg, de perfil. Ele veste terno e está sentado em frente a um microfone.
Mark Zuckerberg em depoimento ao Congresso americano. NurPhoto/Getty Images

O Facebook adquiriu sua escala mastodôntica não porque a rede social azul cresceu sozinha, mas sim porque ele comprou concorrentes cruciais: o Instagram (US$ 2 bilhões, em 2012) e WhatsApp (US$ 22 bilhões em 2014). Aí, quando o FB virou uma rede social de tiozões, a migração foi para o Insta. Mas aqui mora o problema real da empresa de Zuckerberg: está mais difícil continuar a crescer de maneira orgânica, e hoje é mais difícil comprar concorrentes. Exemplo: a chinesa ByteDance, dona do TikTok, está avaliada em meio trilhão de dólares.

E o app das dancinhas é uma bela pedra no sapato de Zuck. Um dos documentos vazados pelo Facebook Files mostrou que o Instagram não consegue o mesmo engajamento entre os jovens quando comparado ao TikTok, isso apesar de todo o investimento na ferramenta Reels – de vídeos curtos, à imagem e semelhança do concorrente.

“Há diversos valores além do entretenimento que tornam o TikTok mais atraente do que o Reels, incluindo melhor relevância [sic] e experiência mais profunda de engajamento. A principal vantagem deles [TikTok] é um relacionamento mais próximo entre criadores e espectadores, e a capacidade de descobrir novos conteúdos relevantes”, diz um trecho do resumo revelado pelo site Núcleo.

Os analistas do JP Morgan acreditam, porém, que a rede conseguirá contornar o problema. “Estamos confiantes com o Reels, que já é a maior fonte de crescimento no engajamento. O Facebook acredita que ele poderá se tornar mais importante que o Stories ao longo do tempo.”

Se falhar, porém, a rede arrisca perder a atenção dos usuários – e receita com publicidade. Há um outro risco apontado por analistas: com o tamanho que alcançou hoje, é difícil continuar crescendo na mesma proporção.

quadro com lucro do FB por trimestre.

Frenemies

A companhia sofre ainda com a ameaça da Apple. A empresa comandada por Tim Cook impôs regras mais restritas para que aplicativos rastreiem usuários do iOS. Na prática, a coleta de dados depende do consentimento da pessoa, e, sem a autorização, fica mais difícil para quem vende publicidade direcionada, como a Meta. A mudança passou a valer em 2021 e ganhou uma escala maior com a nova versão do sistema operacional dos iPhones.

Em relatório recente, a empresa estimou que a receita de outubro a dezembro ficaria entre US$ 31,5 bilhões e US$ 34 bilhões, e que essa previsão não muito exata refletia em parte as incertezas em relação à nova política de privacidade da Apple.

Analistas apontam ainda um outro tema crucial: os planos da Meta de ganhar dinheiro com o WhatsApp. Desde que pagou US$ 22 bilhões pelo aplicativo de mensagens, a Meta vem tentando descobrir como ganhar dinheiro com o serviço. O jeito óbvio seria vender anúncios, mas isso colocaria em xeque a confiança de usuários no sigilo das conversas – elas são criptografadas, uma iniciativa da empresa justamente para reduzir o temor de que Zuckerberg brinque de Big Brother.

Depois veio o plano de assinatura, que também fracassou. Mas os primeiros passos começaram a aparecer. No pilar de anúncios, o WhatsApp permite que pequenos negócios transformem o catálogo de produtos e serviços que está no app de mensagens em anúncios no Instagram e no Facebook. Não existem estatísticas de quanto o serviço rende hoje.

O segundo pilar é dos pagamentos pelo WhatsApp – por enquanto disponível apenas na Índia e no Brasil. O FB levou quase um ano para conseguir autorização do Banco Central para a oferta do serviço por aqui, diga-se – uma medida protetiva da autoridade monetária. Havia o receio de que o sistema pudesse canibalizar o Pix, que estava em fase de desenvolvimento, e de um eventual monopólio da big tech sobre o sistema de pagamentos no país, dada a capilaridade do Whats aqui.

Também não é possível saber qual tem sido a adesão ao serviço e nem a receita que ele gera de fato. O ponto é que analistas consideram o crescimento da receita com o WhatsApp crucial para que o faturamento da Meta continue ascendente no curto prazo, enquanto o metaverso não vem.

E eles esperam com o pé atrás. Dentre as empresas chamadas de FAANGs (Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google), o FB é a mais barata. Quem diz isso é aquele indicador que divide o preço das ações pelo lucro da empresa no último ano, o P/L, que mostra quantos anos levaria para recuperar o valor investido na companhia. O do Facebook está em 25, atrás de Google (28), Apple (32), Netflix (55) e Amazon (66). Na média, o P/L do S&P 500 ronda os 26.

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Empresas de tecnologia historicamente têm P/Ls mais altos. Isso porque empresas do setor costumam consumir o lucro gerado na expansão do negócio, em uma expectativa de que eles serão ainda maiores no futuro. Esse é o motivo pelo qual elas tampouco pagam dividendos a seus acionistas.

Se o investidor enxerga menos espaço para a empresa continuar crescendo, tem menos disposição a pagar caro pela ação. Se ele teme riscos regulatórios, como as intervenções que assombram a companhia após tantas denúncias de leniência com erros, também é um motivo para ter um pé atrás com os papéis. A ação da Meta, no fim, entrou em um limbo. Ela gera receitas sólidas de uma empresa estabelecida – e investidores não parecem dispostos a pagar caro pela aposta no tal do metaverso. Talvez seja um sinal de que o mercado financeiro não esteja tão convicto de que a Meta será sinônimo de metaverso.

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