A contabilidade criativa voltou? Ibov acha que sim e cai 2,4%

'Pedalada' em precatório para financiar Renda Cidadã criou foto perfeita de dia de pânico (ou fúria)

O teto (de gastos) ficou suspenso no ar, como em um desenho animado, depois que a casa e a confiança do investidor desmoronaram nesta segunda-feira (28). O mercado financeiro, que já andava com um pé atrás por causa dos flertes do governo Jair Bolsonaro com o aumento de gastos, agora afastou o outro e fugiu em busca de proteção. Espero sinceramente, caro leitor, que você não tenha aberto o aplicativo da corretora para ver o impacto nos investimentos, porque o estrago foi grande.

Depois de ter enterrado o plano de transformar o Bolsa Família em Renda Brasil, Bolsonaro ressuscitou o projeto com o nome de Renda Cidadã. O problema nunca foi o nome, mas de onde o governo vai tirar dinheiro para financiar o aumento da distribuição de renda em um cenário de aperto fiscal, crise econômica e teto de gastos que limita endividamento público.

No Renda Brasil, a equipe econômica de Paulo Guedes pretendia congelar aposentadorias e acabar com o abono salarial. Bolsonaro afirmou que era tirar do pobre para dar ao paupérrimo e o plano foi sepultado. Mas daquele jeito político, claro, já que a distribuição do auxílio emergencial de R$ 600, além de fundamental para as famílias que perderam renda na pandemia, deu uma forcinha para resgatar a popularidade do presidente.

Então surgiu o Renda Cidadã. Nele, a ideia é adiar pagamentos de precatórios (dívidas que o governo tem, foi condenado a pagar, mas que estão numa interminável fila que faz o cidadão esperar anos para receber o dinheiro). Uma segunda porção dos recursos para financiar programa viria de uso de dinheiro do Fundeb (o fundo usado para financiar a educação básica), que está fora do teto de gastos.

Rogério Xavier, gestor do SPX, sintetizou o sentimento do mercado com o plano.

“Inacreditável, mas a contabilidade criativa voltou!!!!”, escreveu em sua conta no Twitter.

A contabilidade criativa e as pedaladas fiscais foram o motivo jurídico para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. O parecer de que houve pedalada, é bom lembrar, veio do Tribunal de Contas da União (TCU) — guarde essa informação, leitor.

Aí veio o governo de Michel Temer, e um dos instrumentos criados para limitar o crescimento dos gastos públicos e recuperar a confiança do investidor foi o teto de gastos. O teto impede que as despesas públicas cresçam, de um ano para o outro, acima da inflação.

Essa política fiscal já era alvo de alguns economistas antes mesmo da adoção, por ser considerada inviável a longo prazo. A pandemia acelerou o processo de ruína do teto, com o justificado aumento de gastos públicos, e mais especialistas estudam alternativas que mantenham o controle das contas públicas de forma sustentável.

A exceção é, claro, o mercado financeiro, que conta com essa política fiscal rígida para supostamente manter a dívida pública sob controle, juros baixos e a atração de investidores estrangeiros. Bom, a pandemia já está levando a dívida a perto de 100% do PIB, os juros estão em 2% ao ano e a inflação segue abaixo do piso da meta estabelecida pelo Banco Central e investidores estrangeiros tiraram volume recorde de recursos do Brasil.

Durante o pronunciamento, Bolsonaro e demais políticos até tentaram enfatizar que o programa estava sendo feito dentro do teto de gastos. O problema é que não convenceu muita gente.

O ministro do TCU (olha ele aqui) Bruno Dantas também avaliou de forma crítica o anúncio do governo. Em uma sequência de três postagens no Twitter, chamou o uso do dinheiro do Fundeb para o Renda Cidadã de tergiversar. Sobre precatórios, foi ainda mais duro.

“Sobre usar dinheiro de precatórios, também parece truque para esconder fuga do teto de gastos: reduz a despesa primária de forma artificial porque a dívida não desaparece, apenas é rolada para o ano seguinte. Em vez do teto estimular economia de dinheiro, estimulou a criatividade.”

Também foi o que pensou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. À XP, ele disse considerar “inadmissível a possibilidade de financiar o programa desta maneira” e que a medida seria semelhante a um calote.

Resumo: pegou mal. E nem o sinal positivo, da proposta de reforma tributária, veio. O governo teima com a volta da CPMF (ou, como dissemos na sexta, chame como quiser) e ainda não há qualquer acordo ou sinalização de que o projeto vá passar. Aí a reforma entrou no dia da marmota da ‘semana que vem’.

O Ibov despencou para 2,41%, no menor patamar desde junho (94.666 pontos), o dólar disparou para R$ 5,64 e só não subiu mais porque o Banco Central interviu no mercado, e os juros futuros bateram no limite máximo de alta diária.

E juros, leitor, eram até aqui o termômetro mais eloquente do mercado para o medo do que o governo anda fazendo: para financiar no atual risco, só com juros mais polpudos. Ainda que a Selic ande a 2% ao ano, em prazos mais longos o mercado estava em taxas bem mais altas: hoje fechou a 8,21% no vencimento 2029, por exemplo.

E é preciso enfatizar também que essa conjunção de bolsa em queda, dólar e juros em alta é o melhor termômetro do pânico do mercado.

Isso que, no exterior, os investidores haviam acordado de bom humor e os índices americanos e europeus subiram com gosto. O dia prometia deixar o pior da semana passada para trás, como escreveu de manhã o analista da corretora Guide Henrique Esteter: “Se a bolsa não subir hoje, não sobe nunca mais! Bom dia!”.

Bom, depois ele admitiu que foi uma “zicada monumental”.

Ainda assim você ficou com medo? Bem, eu também.

 

MAIORES ALTAS

Embraer: +3,92%
Santander: +2,10%
IRB: +0,84%
Banco do Brasil: +0,69%

MAIORES QUEDAS

Intermédica: -5,20%
Minerva: -5,02%
YDUQS: -5,35%
Ultrapar: -5,00%
MRV: -4,85%

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