O fim da renda fixa – e como entrar com segurança na renda variável

Com a Selic em 2%, não tem jeito: para fazer o seu dinheiro dar cria, só partindo para investimentos mais complexos. A boa notícia é que vale a pena.

Texto: Alexandre Versignassi | Reportagem: Dimalice Nunes | Design: Juliana Krauss| Ilustrações: Denis Freitas 


Era fácil plantar dinheiro. Se você pegasse R$ 100 mil em 2010 e colocasse numa aplicação simplória, como o Tesouro Selic ou um fundo DI com taxa bem baixinha, teria uma boa surpresa depois de cinco anos. A Selic média nesse meio-tempo foi de 11%. Descontando impostos e taxas, então, você sacaria R$ 154 mil – já que a Selic, a taxa básica de juros, é quem baliza os ganhos da renda fixa.

Naqueles tempos, quem desse a sorte de receber uma herança gordinha estava feito. R$ 500 mil rendiam mais ou menos R$ 4 mil mensais. Você poderia sacar isso todo mês sem tocar no principal – a grana que foi de fato aplicada. Dava até para cogitar a ideia de passar o resto da vida na praia, sem nunca mais olhar para uma planilha de Excel.

Mas tudo mudou, você sabe. Com a nossa amiga Selic a 2% ao ano, R$ 500 mil agora rendem, na melhor das hipóteses, uns R$ 800 por mês. Nada de praia. Aqueles R$ 100 mil do primeiro exemplo? Bom… Virariam só R$ 118 mil após cinco anos de Tesouro Selic, já descontando as taxas e o imposto.

Para entender o que aconteceu é preciso ter uma noção clara do que é renda fixa. Então vamos lá: trata-se de todo investimento cuja renda deriva da Selic. Estamos falando de Tesouro Direto, Poupança, CDBs, LCIs, LCAs, fundos DI, fundos RF. Seja qual for a alcunha, existe um fato em comum entre eles: todos vão pagar algo próximo à Selic. Com a taxa básica da economia em 2% ao ano, não adianta esperar rendimentos robustos na renda fixa. Não vai rolar.

O jeito de tentar um up nos rendimentos, então, é o seguinte: separar uma parte (não muito grande, por favor) do que você tem na renda fixa e passar para a renda variável. Há várias formas de renda variável. A rainha desse mundo, porém, é uma só: a bolsa. A seguir, a gente vai ver qual é o melhor jeito de colocar uma parte do seu dinheiro na bolsa da forma mais barata, e menos perigosa. Vem comigo.

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(Denis Freitas/VOCÊ S/A)

ETFs

Começando pelo mais básico (prometo que melhora depois). O jeito mais fácil de começar a investir na bolsa é aquele que todo mundo fala: via fundos multimercado e fundos de ações. Os fundos multimercado aplicam uma parte do seu dinheiro em renda fixa e outra parte em renda variável – ações, basicamente. Quanto maior a parcela em renda fixa, mais conservador é o fundo. Já os que só investem em renda variável são os mais vida louca.

Nos fundos multimercado ou de ações, você tem uma probabilidade de ganhar mais do que num fundo DI, é claro. Mas a possibilidade de perder dinheiro aumenta na mesma proporção – pois é da natureza das ações cair em algum momento. Se você entrar e sair na hora errada, vai perder. Qual é a hora certa? Ninguém sabe.

Deixar o dinheiro investido por bastante tempo tende a ser uma boa. Mas não existe fórmula mágica. Quem colocou R$ 10 mil em qualquer um dos fundos de ações mais populares do mercado lá atrás, em 2008, e só sacou em 2016, se viu com R$ 5.200. Quase metade do dinheiro desapareceu nesse meio-tempo. Num CDB ou num fundo DI, esses mesmos R$ 10 mil teriam se transformado em R$ 19 mil nesses oito anos.

Por outro lado, quem colocou R$ 10 mil num fundo de ações idêntico em março de 2020 se viu com R$ 16 mil ainda em julho – já que o Ibovespa subiu 60% nesses cinco meses. E seguiu nesse patamar pelos meses seguintes.

Alguém sabia que a bolsa perderia metade do valor entre 2008 e 2016? Não. Muito menos que ela viveria uma subida brutal de março para cá, com a pandemia em pleno andamento. Daí vem o caráter de jogo da renda variável. Antes desse repique de 60%, você lembra, o Ibovespa tinha levado seu maior tombo na história. Certos fundos que aplicam em derivativos (papéis ainda mais voláteis que as ações) viram praticamente todo o seu patrimônio se transformar em pó em um mês. “É teste pra cardíaco, amigo”, diria o Galvão.

Seja como for, participar do jogo da bolsa via fundos é algo simplório. Basta entrar no site do banco, ou de uma corretora, e escolher algum com base no risco. Mas tem um problema: as taxas. Boa parte desses fundos cobra coisa de 2% ao ano. Parece pouco. Não é.

Vamos dizer que você coloque R$ 100 mil num fundo de ações que cobra 2% de taxa. Ele pega e passa a render 6% ao ano. Em cinco anos, os R$ 100 mil vão ter se transformado em R$ 121 mil. Se a taxa fosse menor – tipo 0,30% –, os mesmos R$ 100 mil virariam R$ 132 mil. Onze mil reais que poderiam ser seus, mas ficaram nas mãos dos gestores do fundo.

O que fazer, então? Warren Buffett, o maior investidor de bolsa da história da humanidade, tem uma dica: esqueça os gestores. Não que ele indique abrir o home broker da corretora e sair escolhendo ações a esmo. Não. A dica é outra: colocar num “ETF” – um Exchange Traded Fund (Fundo Negociado em Bolsa). Mais especificamente, num “ETF de índice”, modalidade que cobra justamente no patamar de 0,30%.

Explicando, e andando: um ETF de índice é um fundo que divide o seu dinheiro salomonicamente entre todas as ações que compõem um índice. “Índice” é a variação de um conjunto de ações. E o mais importante entre os índices brasileiros é, naturalmente, o Índice Bovespa. Ele reúne as 73 maiores e mais negociadas empresas entre as 422 listadas na B3, a bolsa brasileira (o número de empresas que compõem o Ibovespa varia de tempos em tempos, mas fica sempre nessa faixa).

Bom, quando o Ibovespa sobe, é porque a média dessas 73 empresas terminou o dia de pregão com uma variação positiva, ainda que, individualmente, várias tenham caído. Quando você aplica num ETF do Ibovespa, seu dinheiro fica todo repartido entre as empresas que compõem o índice, de acordo com a participação de cada uma ali no bolo.

Ou seja: se você colocar R$ 10 mil lá no ETF, R$ 1.110 vão ficar aplicados em ações da Vale (já que a participação da mineradora na variação do índice é de 11%).

R$ 920 ficam em ações da Petrobras. R$ 620 vão descansar na forma de ações do Itaú; R$ 300 viram papéis da Ambev; R$ 190, da Natura; R$ 41, do Carrefour; R$ 28, da Embraer; R$ 10, da Hering.

PS: uma ação da Hering sozinha custa mais do que R$ 10, lógico, mas num ETF o seu dinheiro fica diluído em meio ao dos outros investidores, como acontece em qualquer fundo. Para efeitos práticos, é, sim, como se você tivesse comprado ações de 73 companhias.

E essa é a graça. Seu dinheiro fica espalhado em empresas confiáveis sem que você precise pagar uma fortuna a gestores por esse trabalho. Além disso, sai bem mais em conta do que comprar ações de 73 empresas no braço – isso custaria no mínimo R$ 1.500 em taxas da corretora. Nisso, você garante uma diversificação saudável sem gastar os tubos. “Se você quer investir no movimento do mercado acionário, ETF é certamente uma alternativa mais barata”, reforça o César Castelani, professor de finanças da FGV.

Warren Buffett, porém, vai mais longe. Ele defende que um ETF não é apenas mais barato; é melhor que boa parte dos fundos operados por gestores. É que poucos profissionais conseguem bater o mercado de forma de consistente, ano após ano. “Bater o mercado” significa obter ganhos maiores que o do principal índice de uma bolsa (caso do Ibovespa). Buffett, então, resumiu esse conceito perfeitamente, em várias entrevistas nos últimos anos: “Com um ETF, qualquer investidor que não saiba nada pode ganhar mais do que a maioria dos profissionais do mercado”, ele disse. E quando Warren Buffett fala, está falado.

“Com um ETF, qualquer investidor que não saiba nada pode ganhar mais do que a maioria dos profissionais do mercado”

Warren Buffett

Para investir num ETF do Ibovespa, você precisa abrir conta numa corretora e comprar uma cota dele via home broker, como se fosse uma ação normal. Um dos ETFs mais populares hoje na B3 é o iShares Ibovespa, administrado pela Black Rock, uma reconhecida gestora global de investimentos. Ele aparece no home broker com o nome “BOVA11”.

Espíritos de porco dirão que Buffett estava se referindo aos ETFs que replicam o S&P 500, o Ibovespa dos EUA, que reúne as 500 maiores empresas de lá. E estava mesmo. Mas não importa: a regra de preferir ETFs a fundos de ações com altas taxas se aplica ao nosso mercado também.

Mas, se você quiser seguir a dica de Buffett à risca, e investir num ETF do S&P 500 mesmo, também dá. Até há pouco tempo, essa era uma opção restrita aos chamados “investidores qualificados” (quem tem mais de R$ 1 milhão em aplicações). Esse problema acabou. Dá para entrar tranquilamente no home broker e comprar ETFs do S&P 500, por exemplo. Existem dois desses no Brasil: o SPXI11, administrado pelo Itaú, e o IVVB11, da Black Rock.

“Historicamente, as oscilações nos EUA são menos dolorosas do que as do Brasil. Uma carteirinha papai e mamãe, conservadora, lá fora vai dar mais tranquilidade do que uma carteira conservadora daqui”, diz o consultor financeiro Gustavo Cerbasi. Um ETF, diga-se, é a epítome, o ideal platônico de uma carteira de ações conservadora.

As oscilações nos EUA são menos dolorosas do que as do Brasil. Uma carteirinha papai e mamãe, conservadora, lá fora vai dar mais tranquilidade do que uma carteira conservadora daqui”

Gustavo Cerbasi

Colocar dinheiro no S&P 500, porém, também significa investir em dólar, já que as empresas americanas, obviamente, são cotadas pela moeda americana. “Supondo que o S&P 500 caia 10%, mas o dólar suba 12%, eu ainda vou ter lucro. É uma proteção interessante. Mas o dólar oscila de acordo com o humor político e econômico, de forma imprevisível. Investir em dólar, então, também implica riscos de grandes perdas”, lembra Cerbasi.

Tem outra questão também. A liquidez de um ETF do S&P 500, no Brasil, é bem menor que a de um ETF Ibovespa. “Liquidez” é a facilidade que você tem para vender um papel na bolsa. Se muita gente comercializa esse papel todos os dias, a liquidez é alta, então você consegue vender rápido, a preço de mercado.

Quando o papel mobiliza poucos investidores, a liquidez é baixa. Ou seja: é mais difícil vender. Se você tiver que se livrar do papel para transformá-lo em dinheiro, terá de entrar no home broker e pedir um valor bem mais baixo que o de mercado, o que pode afetar seus lucros. É igual carro usado: mais fácil vender um Jeep Renegade, que tem alta demanda, do que um Renault Megane. E, realmente: pode até ser que esse cenário mude, mas a liquidez do SPXI11 e do IVVB11 no nosso mercado ainda é pequena mesmo.

Hoje é fácil e barato investir em empresas listadas nas bolsas de NY

O melhor jeito de driblar esse entrave é abrir conta numa corretora americana – já que, lá fora, os ETFs S&P 500 têm mais liquidez que Ônix usado. As altas absurdas de certas empresas dos EUA, mais a valorização implacável do dólar, criaram demanda para a chegada de “facilitadores” no mercado de brasileiros a fim de operar diretamente nas bolsas dos EUA. É o caso da Avenue, uma corretora americana gerida por brasileiros para atender brasileiros, em português.

O processo lá é simples: você faz um depósito numa conta que eles mantêm no Brasil. A corretora troca os reais por dólares e manda as verdinhas para a sede deles, em Miami – há uma cobrança de 0,38% aí, a título de IOF. A partir daí, dá para operar como se você estivesse nos EUA, e comprar algum ETF S&P 500 de alta liquidez (como o IVV, também da Black Rock). Já se a parte da transferência de dinheiro para o exterior e do atendimento em português não for problema para você, basta abrir conta em qualquer corretora gringa. Vai dar na mesma.

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(Denis Freitas/VOCÊ S/A)

Outra vantagem de operar direto nas bolsas dos EUA – a de Nova York (NYSE) e a Nasdaq – é a quantidade de ETFs que existe por lá. Enquanto o único índice americano disponível nas corretoras brasileiras é o S&P 500, nas de fora dá para comprar ETFs que replicam as flutuações da Nasdaq, por exemplo – caso da QQQ, administrada pela Invesco. O mundo dos ETFs, diga-se, não se restringe aos índices de bolsa. Seja no Brasil, seja lá fora, também há os que só investem em setores específicos da economia – ou coisa que o valha. É o caso do FIND1, do Itaú, que aplica apenas em bancos, e, na gringa, o GXC, composto por uma carteira só de empresas chinesas – Alibaba, Tencent, Baidu e outras belezas do Oriente.

Home broker

O outro jeito de investir na bolsa é o mais óbvio: você abrir o home blocker e escolher ações por conta própria. Esta, porém, é uma reportagem sobre investimentos para complementar a renda fixa. Investir em fundos e em ETFs é, de fato, algo que cabe sob esse guarda-chuva, já que essas modalidades de investimento diluem o risco da renda variável – você só terá uma perda aterrorizante em caso de pane sistêmica na economia (como o crash da pandemia, que derrubou praticamente todas as ações do planeta em uníssono).

Esses eventos, felizmente, são raros. Já se você escolher só meia-dúzia de companhias para investir, fica exposto a fatores ainda mais imprevisíveis. Se uma companhia onde você investe quebrar, você perde basicamente tudo. Foi o que aconteceu com quem comprou ações das empresas de Eike Batista, para ficar no exemplo mais folclórico. Mas o perigo está em todo lugar. Basta a divulgação de um balanço ruim para que você, investidor, sofra uma perda na casa dos 10% da noite para o dia – coisa que não existe no berço esplêndido da renda fixa.

Feita a ressalva, vamos lá. Escolher empresas individualmente exige tempo. Você precisa estar a par de certos detalhes – daquilo que o pessoal do mercado chama de “fundamentos” da empresa em que pretende investir: o tamanho da dívida dela em relação ao patrimônio, o histórico recente de balanços, as perspectivas para o futuro. Tudo isso mais o rei dos fundamentos: o “P/L” da ação (ou “P/E”, na versão em inglês). Trata-se do “preço sobre o lucro”, ou price to earnings: o valor de mercado da companhia dividido pelo lucro dos últimos 12 meses.

O preço nominal de uma ação não significa nada. Você precisa saber qual é o P/L dela

O P/L indica quantos anos de lucro a empresa precisa ter para igualar o preço somado de todas as ações dela. Na prática: a Vale lucrou R$ 6,4 bilhões nos últimos 12 meses. O valor de todas as ações da mineradora, no final de agosto, somava R$ 332,7 bilhões. 332,7 dividido por 6,4 dá 52. Esse é o P/L da Vale hoje. 52. Mas e daí? Isso é muito ou é pouco? É muito. O P/L da anglo-australiana Rio Tinto, sua concorrente no mercado internacional de minério de ferro, é de 13. Conclusão: a Vale está quatro vezes mais cara que a Rio Tinto.

O P/L, entenda, é o preço real de uma ação. Para saber qual está cara e qual está barata, você precisa comparar o P/L da empresa com o da concorrência, e com o das ações que compõem o índice da bolsa onde a companhia é negociada. O P/L médio das companhias que formam o Ibovespa, por exemplo, é de 16. A WEG, uma das empresas brasileiras com balanços mais consistentes, menor dívida e melhores perspectivas, tem um P/L de 73.

Pois é. Não existe almoço grátis. Essa fabricante de motores elétricos de Jaraguá do Sul (SC) é mais cara que a Apple. A empresa da maçã tem um valor de mercado de US$ 2 trilhões (o que dá 80 WEGs), mas seu P/L é de módicos 35. Isso significa apenas que a WEG custa o dobro da Apple? Como diria Ronnie Von, significa, porque o P/L é o preço real. Outro fato é que essa discrepância entre os P/Ls diz que o mercado aposta mais na capacidade da WEG de multiplicar seus lucros do que na da Apple. O mercado está certo? Ninguém sabe. Com o perdão do clichê, só o futuro dirá.

Falando em Apple, vale lembrar outra vantagem de ter conta em corretora gringa: dá para comprar ações das donas do mundo, as empresas mais valiosas que existem: Amazon, Google, Tesla, Microsoft, Apple. Direto na fonte.

Mas e aí? Como é que dá para saber o P/L e os outros parâmetros de cada empresa? Sites como o Bloomberg são um belo primeiro passo. Numa fuçada rápida, você acha esses fundamentos. Já uma forma mais cautelosa de apurar tudo isso é pagar pelos relatórios das casas de análises de investimento (Eleven, Suno, Levante…). Investir em ações com responsabilidade equivale a fazer um mestrado por conta própria. Quanto mais fontes de informação você tiver, melhor.

O que essas fontes não costumam informar são aspectos mais filosóficos. Tipo: por que as ações existem, afinal? Esse é o assunto da próxima parte.

Dividendos

Ações existem para pagar dividendos. Ponto. O único propósito de virar sócio de uma companhia é receber uma parte dos lucros dela. Mas não é assim que funciona na vida real. As empresas costumam reinvestir seus lucros nelas mesmas; e distribuem fatias minúsculas aos acionistas. No Brasil, as empresas são obrigadas a pagar no mínimo 25% do lucro na forma de dividendos. É pouco. O frigorífico JBS, por exemplo, lucrou impressionantes R$ 6,5 bilhões em 2019. Mas a distribuição ficou em módicos R$ 0,54 por ação. Como as ações da gigante da proteína fecharam 2019 cotadas a R$ 27,50, o que tivemos foi um dividend yield de 1,9% – menor do que o da renda fixa de hoje.

O irônico, para os iniciantes nessa área, é que o mercado não vê com bons olhos as empresas que pagam dividendos demais. A ideia é que, se estão distribuindo uma fatia obesa do lucro para os acionistas, isso significa que a companhia não tem mais confiança para investir nela mesma. Nisso, se tudo der certo, a companhia se valoriza, as ações sobem e, quando você quiser vender, vende por um valor mais alto do que pagou. É a regra.

Como toda regra tem exceção, certos setores são, sim, grandes pagadores de dividendos. É o caso das elétricas. Entende-se que, quando uma geradora ou transmissora de energia está bem estabelecida, não há muito mais o que investir. Então as distribuições de lucros tendem de fato a ser generosas. O mesmo vale para as companhias de saneamento.

Ter ações de empresas assim pode servir como um substituto interessante para a renda fixa – ainda que o risco seja bem maior. A carteira de dividendos recomendada pela XP, por exemplo, é composta por empresas que, de acordo com os analistas da corretora, podem fechar o ano com dividend yields bem maiores que os da renda fixa. Eles apostam que a geradora de energia AES Tietê, por exemplo, vai pagar em 2020 um total de R$ 1,48 por ação. No final de agosto, os papéis da empresa estavam em R$ 15,15. Quem comprar a um preço nesse patamar, então, terá um rendimento de 9,7% sobre o valor investido, caso a estimativa da XP para o pagamento de dividendos esteja certa. Uma bolada, enfim.

É lógico: se o preço da ação dobrar, o dividend yield cai pela metade – aí já não vale tanto a pena comprar a ação pela renda que ela proporciona. Já se o valor da ação cair feio, você perde uma parte do que investiu.

Quem quer mesmo achar um substituto para renda fixa, de qualquer forma, costuma ficar tentado com a ideia de investir na mais clássica das modalidades: imóveis. E já deve ter ouvido falar bastante nos fundos imobiliários, que proporcionam renda de aluguel sem que você precise desembolsar um rim na compra de um imóvel para valer. Vamos a eles.

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(Denis Freitas/Você S/A)

Fundos imobiliários

Tony Soprano dizia: “Compre terras. Deus não tem feito mais terra por aí”. Esse poderia virar um slogan de quem vende fundos imobiliários (FIIs, na sigla do mercado). Fundo imobiliário também é renda variável. A diferença é que, em vez de virar sócio de uma empresa, você vira sócio de um prédio, ou de um monte de prédios – e recebe a grana de quem paga aluguel ali, na proporção do que você investiu.

O normal é alguma incorporadora montar um fundo imobiliário para construir edificações, ou para comprar uma no mercado, reformar, e pôr para alugar. A grande massa dos imóveis disponíveis via fundo imobiliário são empreendimentos para uso comercial: prédios de escritório, galpões logísticos, shoppings, hospitais, escolas, agências bancárias. Mais recentemente, têm aparecido fundos de prédios residenciais.

O objetivo de um fundo imobiliário é proporcionar rendimentos maiores que os da Selic (não fosse assim, era melhor nem levantar prédio, afinal). E boa parte dos FIIs realmente entrega dividend yields entre 5% e 8% ao ano. Nota: no caso dos FIIs, o mercado não calcula os rendimentos anuais, mas os mensais. Então um bom fundo rende coisa de 0,5%, 0,6% mensais em dividendos – contra 0,16% da Selic (já que 2% ao ano são 0,16% ao mês). “Os fundos imobiliários são práticos, distribuem os aluguéis mensalmente, sem imposto de renda, e oscilam menos do que as ações, geralmente”, aponta o consultor financeiro Mauro Halfeld. Bacana.

O problema, porém, é o mesmo das ações que pagam dividendos gordos. Para obter um rendimento decente, você precisa comprar uma cota do fundo a um preço “justo”. Se ela estiver muito cara no mercado, você pode acabar com um rendimento menor que o da renda fixa. Aí nem vale o trabalho.

Falando em trabalho, onde você encontra boas listas de fundos imobiliários? Um primeiro passo é checar o IFIX, que é o índice de FIIs da bolsa, no site da B3. Os sites das corretoras também trazem indicações, e ainda há o ótimo fiis.com.br, que mostra o rendimento, a composição e o tipo de contrato por trás de cada fundo.

Isso é importante, já que pode definir se o fundo vale a pena para você. Há, por exemplo, os fundos que não compram imóveis físicos. São os chamados “fundos de papel”, que tiram seu rendimento dos juros pagos por dívidas imobiliárias.

Já os mais tradicionais, baseados em imóveis de fato, o pessoal chama de “fundos de tijolo”. Quais são os melhores? Mauro Halfeld dá uma opinião: “Hoje prefiro os fundos imobiliários de tijolo com ‘contratos atípicos’, que não podem ser rompidos”, diz o economista.

“Hoje prefiro os fundos imobiliários de tijolo com ‘contratos atípicos’, que não podem ser rompidos”

Mauro Halfeld

Bom, para comprar é aquele mesmo esquema dos ETFs: você entra no home broker e procura pelo nome de algum. Exemplo: um daqueles poucos fundos baseados em prédios residenciais é o FII Lugo, da construtora MRV. No home broker, ele atende pelo ticker LUGG11. No momento em que este texto era escrito, ele custava R$ 107 a cota e apresentava um dividend yield de 0,42% mensais.

O duro mesmo no mundo dos FIIs é escolher. Há 273 fundos imobiliários listados na bolsa, e cada um tem a sua história. Pior: no universo das ações, todo mundo sabe o que a Natura ou a Petrobras fazem. Mas quase ninguém tem ciência da relação entre o FAMB11, dono do Edifício Almirante, no Rio, e as empresas que alugam espaço ali, ou como andam as renovações de contrato nos três shoppings que compõem o fundo VISCI11.

Os inquilinos estão dando calote? Os contratos deles estão para vencer e o lugar vai ficar vago, sem gerar aluguel? A empresa que aluga escritórios no prédio tal aderiu ao home office e resolveu terminar o contrato? Uma fonte interessante para ficar a par desses detalhes aí são os relatórios de FIIs que as casas de análise vendem. Vale a pena. Quanto mais você estuda um fundo imobiliário antes de entrar nele, afinal, menor o risco de a casa cair lá na frente. Mas quem tem medo mesmo de que a casa caia coloca dinheiro em outra coisa: ouro. Faz sentido? É o que vamos ver agora.

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(Denis Freitas/VOCÊ S/A)

Ouro, e a real sobre a renda variável

Todo o ouro minerado na história da humanidade caberia num prédio de nove andares. São 190 mil toneladas – é o que a Vale extrai de minério de ferro em oito horas. Por essas, o metal amarelo segue imbatível há 6 mil anos no papel de reserva universal de valor.

E 2020 foi o ano desse elemento químico com 79 prótons. De março até setembro, o preço do danado em dólar subiu 40%. Em real, então, nem se fala, já que o dólar sozinho subiu 25% no mesmo período. E ouro é igual ação da Apple: cotado em moeda americana. Ele chegou à cotação recorde de US$ 2 mil a onça – R$ 390 o grama.

Investir em ouro, então, também é investir em dólar. Só que “com emoção”, porque o preço do metal varia que é uma loucura.

Além disso, você precisa de uma certa dose de pessimismo para investir nele. Como lembra o economista Samy Dana: “Ouro só vai bem quando a economia vai mal. É um ativo de defesa”. Pois é. A última vez que o ouro chegou a cotações próximas das de 2020 foi em 2011. O que há em comum entre as duas épocas? Acertou: crise econômica global. O ouro sobe junto com a desconfiança sobre as bases da economia. Em 2011, o problema era superendividamento de alguns países europeus, o que ameaçava destruir a força do euro. Em 2020, o receio é de que a emissão de cada vez mais dólares pelo Fed, o Banco Central dos EUA, coloque o dólar numa espiral inflacionária, corroendo o valor da moeda americana.

“O grande lance do mercado financeiro é quando a pessoa se torna menos apostadora e mais constatadora de oportunidades”

Gustavo Cerbasi

Se você faz parte do time dos pessimistas, então, um caminho para comprar ouro é aquele de sempre: o home broker. Busque por OZ1D ali, e você converte seu dinheiro em ouro. O problema: a liquidez do OZ1D é quase inexistente. É impossível dizer que vale a pena caso o seu nome não seja Neymar ou Jorge Paulo Lemann. É coisa para deixar milhões de reais por milhões de anos – e que esses milhões não lhe façam falta, que sejam uma reserva contra ataque nuclear. Sim, porque dá para ir buscar as barras de ouro que você compra pelo OZ1D e guardar no cofre da sua mansão de inverno em Luxemburgo.

Outra opção, menos complicada, é aplicar no metal via fundos que acompanham a variação do preço do ouro. É o caso do fundo Trend Ouro FIM, administrado pela XP.

Mas a dica de ouro mesmo é outra. “O grande lance do mercado financeiro é quando a pessoa se torna menos apostadora e mais constatadora de oportunidades”, diz Cerbasi. “É quando o investidor consegue olhar os fundamentos e tomar decisões: vou comprar ações de uma determinada empresa porque entendi que ela não tem uma concorrência forte, por exemplo. É essa análise fundamentada que vai fazer com que surja o sentimento de investidor. E eliminar a ideia de que você está em frente a uma roleta.”