Sustentabilidade e inovação são o segredo do sucesso deste CEO

Mesmo com uma carreira promissora no mercado financeiro, Enrico Leta quis empreender no Brasil e fundou a Yorgus, pioneira dos iogurtes gregos no país

Se hoje é possível encontrar diversas marcas e tipos de iogurte nos supermercados, é graças (em parte) a Enrico Leta. O empreendedor de 38 anos lançou a Yorgus, primeira marca de iogurte grego do Brasil, em junho de 2014.

Além de dar início à tendência de produtos lácteos gregos e proteicos, a empresa intensificou o mercado clean label — conceito que incentiva a fabricação de alimentos com pouco, ou quase nenhum, aditivo e conservante.

Com um crescimento de 140% ao ano, a companhia distribui para mais de 4.000 pontos de venda em todo o país, emprega 130 pessoas entre os escritórios em São Paulo e no Rio de Janeiro, além da fábrica em Valença (RJ), e lançou no ano passado o primeiro e-commerce de iogurte, para vender diretamente para o consumidor.

Você começou sua carreira no mercado financeiro, uma área bem distante da produção de iogurte. Como foi essa mudança?

Eu me formei em administração nos Estados Unidos e logo depois fui trabalhar em um banco americano. Eu era trader de renda variável, comprava ações, opções e futuros. Depois de cinco anos, percebi que isso não era para mim. Os executivos que eu via no topo das organizações não refletiam o profissional que eu gostaria de ser. Minha carreira estava indo muito bem, mas sempre quis empreender.

Em 2009, decidi fazer um MBA lá mesmo nos Estados Unidos e foi quando tive tempo de pensar e planejar minha carreira. Logo depois, surgiu a oportunidade de trabalhar em uma consultoria em Nova York, onde fiquei durante um ano. Em 2013, voltei para o Brasil para empreender com o projeto da Yorgus. Eu vivenciei o boom do iogurte grego nos Estados Unidos, comia todos os dias. Esse era um produto que não existia aqui, e meu irmão já tinha uma fábrica de queijos, a Vitalatte. Foi o cenário perfeito para empreender.

Como foi a preparação para criar a marca?

Foi muito mais longa do que eu imaginava. Quando comecei a desenhar o projeto, ainda trabalhava na consultoria. Eu achava que voltaria para o Brasil e em seis meses já abriria a empresa, mas, na verdade, acabou levando um ano e meio. Passei a me dedicar em tempo integral à Yorgus, contratei um consultor e “mestre iogurteiro” grego para ajudar a desenvolver a receita, investi em equipamentos utilizados por marcas internacionais, como a Fage e a Chobani, e fiz as alterações necessárias na fábrica.

A Yorgus foi criada durante a crise político-econômica de 2014. Isso foi um desafio?

A gente nasceu em um dos piores períodos econômicos da história moderna de nosso país, mas o negócio sempre foi muito bem. Acho que tivemos a sorte de lançar um produto que tinha uma demanda grande e acabamos não sentindo realmente essa crise. Desde o lançamento, em 2014, a empresa vem crescendo em um ritmo de 140% ao ano. Eu estou muito animado para ver como uma retomada na economia poderá impulsionar a companhia, porque, até hoje, a gente não sabe o que é ter um negócio em uma economia que esteja prosperando.

A Yorgus já tem cinco anos e os produtos são comercializados em todo o Brasil. Como foi o trabalho de marketing para a marca se tornar conhecida no mercado?

Como toda empresa pequena, temos um orçamento limitado. Então, nossa estratégia foi focar os formadores de opinião. No caso do nosso produto, os maiores disseminadores são os nutricionistas. Na época, como tudo na vida depende um pouco de sorte, estavam surgindo os primeiros influenciadores do Instagram. Trabalhamos com alguns profissionais conhecidos, e isso deu uma força muito grande para a marca. Fora isso, eu sempre falo que, para uma empresa que está começando em um mercado de alimentos, sua maior comunicação com o consumidor é a embalagem. Investimos para ter uma embalagem diferente das encontradas no mercado e que comunicasse para o público todos os nossos diferenciais.

O produto de vocês não tem conservante. Como é o trabalho de logística para conseguir distribuí-lo no país todo?

É um desafio grande, porque é um produto sem conservante e refrigerado. Depois que ele sai da linha de produção, tem de ser mantido entre 0 e 10 graus Celsius. Ou seja, do momento em que deixa a fábrica até chegar à mão do consumidor lá no supermercado, ele precisa estar a essa temperatura. E o que a gente aprendeu, de uma maneira bem dura, é que a rede de transporte de produtos refrigerados no Brasil ainda não está tão desenvolvida quanto em outros países — principalmente porque a grande maioria dos iogurtes, na época, tinha conservante. A gente viu a necessidade de controlar toda a logística da saída da fábrica até o ponto de venda. Hoje, quase todos os veículos só entregam nossos produtos, e conseguimos controlar a temperatura durante todo o trajeto.

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A empresa faz parcerias com cooperativas e compra de pequenas produtoras. Como isso funciona?

Temos uma parceria com a cooperativa de leite de Valença, cidade onde fica nossa fábrica. Essa cooperativa é uma das mais antigas do estado do Rio de Janeiro e é formada por fazendas menores, com vacas alimentadas no pasto. Essa é uma parceria da qual nos orgulhamos, porque o leite é 100% fresco — as fazendas ficam a uma distância máxima de 100 quilômetros da fábrica, e nós usamos 45.000 litros de leite por dia. Com isso, impactamos em torno de 1.200 pessoas nas quase 300 fazendas com as quais trabalhamos. Buscamos estender esse formato de negócio para todos os nossos produtos. No Yorgus Duo, por exemplo, quando começamos a procurar parceiros, o critério principal era ser uma empresa de alimentos clean label, assim como nós. E encontramos organizações pequenas do Rio de Janeiro, como a que fabrica biscoito sem glúten e a que produz granola orgânica. É muito legal, porque favorecemos pequenos empreendimentos locais e até os ajudamos a comprar maquinário. Como nossa encomenda representa um volume significativo para essas companhias, todos crescem juntos.

Você comanda 130 funcionários diretos, além de 1.200 cooperados. Como é seu estilo de liderança?

Eu sempre penso que isso é uma responsabilidade enorme, porque há bastante gente envolvida com o negócio. Sou estratégico, enxergo muito bem como a gente está, para onde a gente precisa ir e o que cada um dos funcionários precisa fazer para chegar lá. E ser o líder de uma empresa que você fundou é diferente de ser um executivo contratado para liderá-la. Eu já trabalhei em todas as funções. Fiz iogurte, encaixotei, entreguei a encomenda para o cliente. Isso permite que eu saiba o que cada um precisa fazer. É excelente quando as pessoas exercem as funções de uma maneira muito melhor do que eu mesmo faria.

Qual é seu conselho para quem está começando um negócio agora?

Para quem quer empreender, é interessante iniciar o mais cedo possível, porque, quanto mais tarde você começa, mais difícil é a decisão. Esse foi o meu caso: eu já estava trabalhando, era bem remunerado, e largar isso tudo para começar do zero foi duro — o custo de oportunidade é muito alto. Mesmo se estabelecendo cedo, você vai desenvolver a experiência necessária para tocar o negócio. Mas é preciso lembrar que empreender no Brasil é muito desafiador. Temos um ambiente altamente desfavorável, é difícil encontrar fornecedores de qualidade para empresas pequenas, não há infraestrutura e o sistema tributário é muito complicado. Mas uma coisa é fato: são poucos os que têm coragem de empreender, então há muita oportunidade.


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