Slow fashion, uma tendência de moda sustentável – e de empreendedorismo

A indústria fashion é a segunda que mais polui o meio ambiente. Por isso, surge um movimento que prega o consumo consciente de roupas e acessórios

Matéria originalmente publicada na Revista VOCÊ S/A, edição 263, em 08 de abril de 2020. 

Quando criaram a marca Coletivo de Dois, em 2014, os estilistas Hugo Mor, de 33 anos, de Goiás, e o paulistano Daniel Barranco, de 42, queriam fazer roupas diferentes das que existiam no mercado. A ideia da dupla era criar usando materiais baratos, como sobras e tiras de tecido.

Com isso na cabeça, eles juntaram 500 reais em retalhos e uma máquina de costura e criaram a primeira coleção, com 127 peças. “Enchemos uma mala e nos mudamos de Goiânia para São Paulo para participar de feiras e eventos”, afirma Hugo.

Na época, ambos sequer tinham ouvido falar na expressão slow fashion — tendência que aplica os conceitos de sustentabilidade e reutilização de materiais no mundo da moda. “Foi apenas quando aparecemos em uma reportagem sobre o movimento que percebemos que a marca se encaixava”, afirma Daniel.

De lá para cá, o Coletivo de Dois abriu uma loja no centro de São Paulo e já produziu mais de 3.000 peças, reaproveitando, por ano, 150 quilos de tecido. Segundo os empresários, quase 1 tonelada de sobras deixou de ser descartada.

O slow fashion (ou “moda lenta”, numa tradução literal) não é uma tendência exatamente nova. A expressão surgiu ainda na década de 1990, na Itália, e deriva de outro movimento, o slow food, que propõe uma forma mais consciente de se alimentar. Assim como o irmão da culinária, o slow fashion está atrelado a hábitos de consumo responsáveis, valorização de produtores locais e produção de itens com mais qualidade e durabilidade. “A tendência é um contraponto ao conceito de fast fashion, que dominou as décadas anteriores e consiste em grandes lojas de departamento produzindo coleções novas a cada semana”, diz José Luís de Andrade, professor de moda no Centro Universitário Senac, em São Paulo.

Necessidade latente

O fortalecimento desse conceito não é à toa. No mundo todo, a fabricação de peças de poliéster, criadas com fibras sintéticas, requer 70 milhões de barris de petróleo todos os anos. Quando jogadas no lixo, as roupas de poliéster continuam poluindo, pois levam mais de 200 milhões de anos para se decompor. Nem materiais naturais, como o algodão, passam incólumes: uma simples camiseta exige 2.700 litros de água para ser produzida.

Esse contexto, aliado à filosofia de consumo e descarte rápido impulsionada pelos preços baixos de grandes redes, como Forever 21 e GAP, fez com que a moda se tornasse a segunda indústria que mais polui o planeta, ficando atrás apenas da petroquímica. De acordo com a Organização das Nações Unidas, a emissão de carbono pelo segmento fashion é maior até do que a dos setores de transporte aéreo e marítimo juntos.

“Cerca de 30% de todas as roupas produzidas no mundo nunca serão vendidas. Assim, as pessoas vêm se conscientizando de que é necessário comprar menos e melhor, investindo em itens com melhor design e funcionalidade”, afirma Mariana Santiloni, diretora de serviços ao cliente da consultoria de tendências WGSN.

Fontes: World Wildlife Fund (WFF), BBC, BMC Journal e Ellen MacArthur Foundation

Fontes: World Wildlife Fund (WFF), BBC, BMC Journal e Ellen MacArthur Foundation (/)

Oportunidades à vista

E o potencial dos negócios sustentáveis ligados à moda é grande. Um exemplo disso é que, segundo um estudo publicado pela Bloomberg em janeiro deste ano, se a indústria têxtil rever suas práticas em relação ao descarte de resíduos e ao consumo de água, energia e produtos químicos, o setor poderá aumentar seu lucro em cerca de 110 bilhões de euros por ano. Atualmente, o mercado fatura 1,2 trilhão de dólares anuais.

Cientes disso, grandes redes do setor de fast fashion, como Zara e H&M, têm investido em ações mais sustentáveis, como estimular os clientes a devolver roupas danificadas ou doar as que não usam mais para a reciclagem. “Esse é o futuro dessas lojas. Por causa da estrutura, elas são as mais preparadas para se adequar aos requisitos ecológicos”, afirma André Carvalhal, estilista e autor do livro Moda com Propósito: Manifesto pela Grande Virada (Paralela, 52,90 reais).

Foi de olho nessa tendência que a jornalista Andrezza Duarte, de 36 anos, fundou a marca de biquínis para crianças Água com Sal, em 2015. Na época, insatisfeita com a carreira, a profissional havia decidido largar o cargo de jornalista em uma grande editora e empreender. “Cheguei a pensar em abrir negócios no mercado de noivas e no de pets, mas tive a ideia de investir no ramo infantil durante uma viagem de férias. Olhando as crianças brincando na praia, notei que os trajes de banho eram todos iguais e sem personalidade”, diz.

Depois de estudar o mercado de moda, Andrezza percebeu que criar um negócio seguindo o conceito de slow fashion era o caminho ideal para sua proposta. “Buscava um empreendimento sustentável e que tivesse um viés exclusivo”, diz. Reuniu 80.000 reais em economias e fundou a marca Água com Sal, que até o ano passado, antes da inauguração de uma loja física na capital paulista, funcionava apenas online. “Utilizamos tecidos biodegradáveis, sem produtos tóxicos, e alguns são produzidos com água de reúso. Para ter o mínimo de desperdício possível, também não trabalhamos com estoque. Se uma cliente quiser alguma peça que não esteja disponível, precisará encomendar”, diz Andrezza.

Andrezza Duarte, criadora da Água com Sal: mão de obra 100% feminina e uso de materiais biodegradáveis | Foto: Divulgação

Andrezza Duarte, criadora da Água com Sal: mão de obra 100% feminina e uso de materiais biodegradáveis | Foto: Divulgação (/)

Além da preocupação com a sustentabilidade das peças, a empreendedora também deu atenção especial à contratação da mão de obra para a confecção dos itens. Por isso, conta com uma equipe de nove pessoas, todas mulheres, na produção. “Nas outras áreas, como comercial, marketing e vendas, também optamos por profissionais do sexo feminino”, afirma.

A valorização da mão de obra dos profissionais envolvidos na confecção das peças é outro pilar do movimento slow fashion. Isso porque, quando o assunto é exploração de trabalhadores, a indústria da moda também apresenta índices que são motivo de vergonha. Segundo uma pesquisa da instituição internacional Walk Free, voltada para a promoção de direitos humanos, em 2018 existiam cerca de 40 milhões de pessoas em situação de escravidão moderna no mundo, das quais 71% eram mulheres.

E a moda está em segundo lugar no ranking das indústrias que mais exploram o trabalho forçado (a primeira é o setor de tecnologia). “Por isso, além de materiais recicláveis, o slow fashion opta por mão de obra local e valoriza o trabalho artesanal, muitas vezes formando cooperativas”, afirma Larissa Moreira, analista de negócios do Sebrae em São Paulo.

Além do lucro

Segundo especialistas, os estilistas e designers de moda são alguns dos profissionais que podem pegar carona no movimento slow fashion. O mercado também abre portas para empreendedores, principalmente aqueles que queiram vender roupas e acessórios de fabricação própria.

Entretanto, o estilista ­André Carvalhal salienta que, além de adquirir conhecimento técnico sobre o ramo, quem quiser atuar com a tendência também precisará entender de questões relacionadas ao meio ambiente, como descarte de resíduos e economia circular. “São vários temas novos no mercado, e muitos ainda não constam no currículo das universidades. A alternativa, então, é buscar cursos livres e até de outras áreas”, diz.

Outro ponto é se esforçar para, de fato, ser um negócio sustentável, e não apenas embarcar no modismo, visando exclusivamente o lucro. “É necessário ser comprometido e engajado com a sustentabilidade e a cidadania, porque é um segmento que exige que as ­pessoas vejam verdade em seus valores. Sem contar que é preciso bastante propósito — diferentemente de outras áreas da moda, não há glamour nenhum em encarar uma pilha de retalhos”, afirma Daniel, do Coletivo de Dois.

Os números comprovam essa crença. De acordo com dados preliminares de uma pesquisa realizada pela consultoria de inteligência de mercado Iemi com 1.300 consumidores, que será divulgada até o final de abril, cerca de 60% deles deixariam de comprar de sua marca preferida se ela estivesse envolvida em algum escândalo social ou ambiental. “Nesse cenário, torna-se mais cada vez mais difícil sustentar negócios que preguem o slow fashion de forma oportunista. As pessoas estão buscando transparência e coerência das marcas, que daqui para a frente serão ainda mais fiscalizadas e cobradas”, diz André. Se continuarmos nesse caminho, o planeta — e as próximas gerações — agradecerão.

Ilustração: Davi Augusto


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