Luz no fim do túnel: descubra como inovar na crise

Empreendedores que reinventaram seus produtos para adaptá-los às necessidades do momento estão faturando como nunca

Em junho, com o saldo do isolamento social chegando a três meses, o número de falências explodiu. De acordo com a consultoria Boa Vista, houve um crescimento de 71% no número de empresas que precisaram fechar as portas, na comparação com 2019.

O drama foi também retratado pelo IBGE, que divulgou que, na primeira quinzena de junho, 522.700 companhias encerraram suas operações. E os especialistas em falências creem que o movimento de quebradeira esteja apenas começando e deva se intensificar até o final do ano. “Toda crise tem três grandes momentos: do medo, do aprendizado e do crescimento.

Nos livros teóricos isso soa muito bonito, mas na vida real é dificílimo sobreviver. Muitas variáveis fogem do controle, não dependem de empresas e empresários”, diz Edson Machado, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Inovação (CEI) do Ibmec.

Mesmo com as dificuldades, uma das alternativas para superar a crise é inovar — seja adaptando produtos e serviços para a nova realidade, seja mudando o nicho de atuação. Isso é essencial para a continuidade dos negócios.

“Quem não tinha caixa para aguentar o baque, não se mexeu nem inovou quebrou ou vai quebrar”, afirma Denilson Shikako, diretor da Fábrica de Criatividade e consultor de inovação. Para isso, o especialista orienta que o empreendedor siga as seguintes etapas: reconhecer o problema, descrevê-lo no papel, usar ferramentas para encontrar uma saída e colocar a solução em prática (veja mais no quadro Como Inovar). “Todo mundo é capaz de inovar em seu próprio negócio”, diz Denilson.

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Esse foi o caso de Alex Oliveira, de 25 anos. Em 2018, ele fundou, ao lado de um sócio, a empresa IceHot. Sediada em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, a companhia desenvolveu um bebedouro de água quente e fria para ser usado como mobiliário urbano em praças, parques e vias públicas.

A água quente é justificada pelo hábito gaúcho de consumir chimarrão em ao ar livre e a fria, é claro, por hidratar e refrescar. A IceHot fecha acordos com prefeituras para instalar e manter os maquinários e lucra por meio de anúncios publicitários adesivados aos equipamentos. Mas veio o coronavírus e tudo mudou. “Em dezembro eu via as notícias da China e achava que não ia chegar ao Brasil, era algo distante. Em fevereiro começou a ficar sério, com cancelamentos de pedidos. Estávamos indo muito bem e parou tudo. Em um mês perdemos mais de 50% do faturamento com mídia”, diz Alex. 

Caso não se adaptasse rapidamente ao novo contexto, o destino da empresa seria a falência. A IceHot passou por um período de “cabeçadas na parede”, nas palavras do fundador, com muita frustração e reuniões que não levavam a lugar nenhum. Até que Alex percebeu que a pandemia causadora de seus problemas também oferecia a solução.

Ele decidiu converter os 25 aparelhos que tinha em estoque para que fossem enchidos não com água, mas com um produto de demanda crescente no mercado: o álcool em gel. A conversão e os testes duraram menos de três semanas. Com o aparelho pronto, foram ao mercado anunciar a novidade. “Como é algo atual e com o objetivo de ajudar as pessoas a se prevenir, a ideia atraiu interessados imediatamente”, diz Alex.

Empresas como Unimed, Vivo e Sicredi abraçaram o projeto. Atenta ao mercado, a IceHot também desenvolveu um dispenser para uso em ambientes internos, que é acionado pelo pé. Como eles já tinham contato com fornecedores e montadores, a produção foi rápida. Com essas mudanças, a companhia fatura cerca de oito vezes mais do que antes da crise. 

Alex Oliveira, fundador da IceHot: adaptação de bebedouros urbanos para que as máquinas distribuam álcool em gel aumentou o faturamento em oito vezes

Alex Oliveira, fundador da IceHot: adaptação de bebedouros urbanos para que as máquinas distribuam álcool em gel aumentou o faturamento em oito vezes (Divulgação/VOCÊ S/A)

No ritmo da pandemia

Outro exemplo de companhia que usou o mau momento para se reinventar foi a Visto.Bio. Fundada em 2014 por Renan Serrano, de 32 anos, mestre em biotecnologia, e por seus colegas da Universidade de São Paulo, a empresa desenvolvia produtos para reduzir a lavagem desnecessária de roupas e poupar água.

Até março, seu carro-chefe era um spray que, depois de ser borrifado em tecidos limpos, libera substâncias contidas em nanocápsulas biodegradáveis que impedem a proliferação de bactérias e fungos, evitando o cheiro de suor. “A maior parte da água usada em lavagens é gasta com roupas fedidas, e não em peças realmente sujas”, diz Renan.

Em 2019, o empreendedor participou do programa televisivo Shark Tank Brasil, conquistou um investidor de peso e publicidade, e ampliou suas vendas. “Estávamos com um modelo de assinaturas que permitia certa estabilidade, mas com a pandemia muitos cortaram esse gasto”, conta. Como a empresa já contava com pesquisadores experientes em trabalhos com vírus e parcerias com laboratórios da USP, da Unicamp e da UFABC, começou a pesquisar produtos que eliminassem o coronavírus dos tecidos. 

Depois de modificações na fórmula de seu spray original, a invenção passou nos testes exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e a comercialização do Visto.Bio Antisséptico foi liberada.

O líquido promete ação imediata e proteção de 24 horas contra o coronavírus em tecidos. Animado com o desempenho em laboratório, Renan inscreveu a novidade no Pandemic Challenge, um concurso global promovido pela Singularity University para selecionar soluções eficientes e comercialmente viáveis para combater a pandemia.

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O antisséptico ficou entre os cinco finalistas de uma competição com 45 produtos de 30 países. O novo spray já tem uma patente internacional e a Visto.Bio está em negociações avançadas para produzi-lo na Inglaterra e avançar no mercado europeu. “É muito mais fácil produzir lá do que exportar em grande escala”, explica. 

Além de vender em seu site, a ­Visto.Bio também fechou parcerias para fornecer seu antisséptico para as empresas Animale, Natalie Klein, Farm, UMA e Bio Ritmo. “Tudo aconteceu muito rápido, em menos de quatro meses. Desde então, mais do que duplicamos nosso faturamento”, diz Renan.


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