Jornalista cria programa de empreendedorismo feminino que levou empresas a crescerem 13% em 2024
Tatiana Marzullo é fundadora da agência de comunicação A+ e idealizadora do Programa Salto Alto, que leva empreendedoras aos Estados Unidos para aprender com Apple, Meta, Disney, Lego e mais. Conheça sua história.

atiana Marzullo (45) é craque da assessoria de imprensa. A sua paixão pela comunicação só não é maior do que pelo desenvolvimento feminino – motivação que a levou a criar o Programa Salto Alto, uma imersão para empreendedoras brasileiras nos Estados Unidos.
O programa foi lançado em 2023, voltado especialmente a mulheres donas de seus próprios negócios que querem desenvolver suas habilidades de liderança. Tanto pelo treinamento direto (que explicaremos melhor em instantes) quanto pelos workshops de liderança nas empresas, o programa de Marzullo já impactou mais de 300 líderes. Esse número deve crescer ainda mais esse ano: a imersão caminha para sua terceira edição em abril, lá em Orlando.
Mas quem vê close, não vê corre. A jornada da empreendedora começa quase duas décadas atrás, com um salto que mudou totalmente a trajetória de sua carreira: abrir mão da carteira assinada e fundar sua própria agência de comunicação, a A+. Vamos conhecer a história a seguir.
“Sentia falta de humanidade”
Tati é jornalista. Ao longo de 10 anos, a empreendedora passou pela Claro, pelo Grupo Pão de Açúcar, além de assessorias de comunicação como a Inpress e a Approach.
A experiência profissional trouxe a Marzullo algumas reflexões sobre gênero. “Eu sempre acreditei que cada uma tem seu espaço no mercado. Mas eu encontrei bastante hostilidade e competição feminina dentro da comunicação”, desabafa. “Sentia falta de humanidade.”
A ideia de construir um ambiente que permitisse o desenvolvimento dos colaboradores a levou a sair da CLT e fundar, aos 28 anos, a Agência A+. A empresa tem modelo boutique, oferece serviços personalizados para os clientes e é formada 80% por mulheres (muitas das quais começaram suas carreiras ao lado de Tati). Tati explica que calcou seus valores em três P’s: propósitos, pessoas e processos.
O negócio, aberto em 2007, era focado em assessoria de imprensa e comunicação interna. Posteriormente, a participação do seu marido na companhia adicionou serviços digitais (como marketing e publicidade online), que são os três pontos focais da A+ hoje.
“Eu sempre acreditei que cada uma tem seu espaço no mercado. Mas eu encontrei bastante hostilidade e competição feminina dentro da comunicação”, desabafa Tatiana.
Buscando melhorar sua postura como líder – e aumentar os números da empresa – em 2014 Tati decidiu participar de uma imersão no Disney Institute, localizado em Orlando. “A imersão era voltada para empreendedores de varejo, nem tinha a ver comigo. Mas meu marido me incentivou justamente pela Disney ser um dos maiores – senão o maior – case de sucesso de empreendedorismo”, explica a empresária.
Tati resume o que aprendeu a Você S/A: qualquer um pode ser o Walt Disney de seu próprio negócio. Isso é possível pela definição de três pilares: valores, missão e visão. Coisa que a empresa dela ainda não tinha feito de modo tão claro, admite.
“Nessas reflexões, entendi que trabalhar a liderança de uma forma mais profunda gera engajamento e sentido. E também decidi que um dia eu seria uma ponte entre esses conhecimentos e outras mulheres”, conta Tati. Estava plantada a sementinha do Salto Alto.
Construindo pontes
O curso na Disney não impactou apenas a Agência A+ (que teve, no ano de 2014, um crescimento de 40% em seu faturamento). Mas também virou estratégia para clientes: em 2017, Marzullo organizou uma imersão para a Associação dos Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj), levando 60 donos de mercados para fazer um curso similar ao que ela havia feito. Tati também organizou visitas e workshops com outras empresas do setor, como Wholefoods e Walmart.
No ano seguinte, Tati fez a mesma coisa com clientes do setor farmacêutico. A ideia era continuar expandindo os cursos e a parceria com o Disney Institute: mas a vida aconteceu. Em 2019, Tati engravidou de sua segunda filha; em 2020, um vírus apareceu pelo caminho.
Nenhum desses fatores sabotou o propósito da empreendedora – ao contrário. Naquele momento, ela e seu marido decidem dar entrada nos papéis para se mudarem aos Estados Unidos.
O casal pediu um visto voltado a empreendedores, no qual há a necessidade de apresentar um plano de negócios que, em sua visão, impactará positivamente o país. Além de descrever as atividades da Agência A+, o documento já contava com a ideia de realizar um programa voltado especialmente para mulheres e liderança.
Habemus Salto Alto
Finalmente, depois de dois anos de burocracia, o visto de Marzullo e de seu marido é aprovado em 2022. Em 2023, nasce o Programa Salto Alto.
A última turma do programa viajou para Orlando em abril de 2024. Foram 31 empresárias, empreendedoras e profissionais liberais brasileiras.
Vale dizer: as atividades lá nos Estados Unidos duram uma semana, mas o programa começa quatro meses antes. As participantes devem preencher um assessment de liderança – que conta um pouco sobre experiências, expectativas e sonhos para a empresa – um one on one, realizado com a própria Tatiana; um encontro chamado Meet The Leaders (conheça as líderes, em inglês) em que as empreendedoras têm a chance de se conhecer; mais um encontro chamado “Conexão Salto Alto” e uma última reunião conjunta antes de embarcar – chamado de “Última Chamada Para o Embarque.”
Nos Estados Unidos, a ideia da semana é fazer visitas aos bastidores de cinco empresas de referência mundial. Nesse balaio, há a Disney, naturalmente; mas também outras grandes love-brands (marcas que conseguem estabelecer uma conexão emocional duradoura com o consumidor) como Apple, Meta e Lego. Marzullo ainda estabeleceu parcerias com a Full Sail University, especializada em tecnologia, e o Grupo Marriott, multinacional de hospedagem.
A grande novidade desse ano é uma visita aos bastidores da Universal Studios, onde as empreendedoras poderão conhecer o parque e aprender com ele, simultaneamente. De quebra, também terõ uma palestra com Marcos Barros, vice-presidente da Universal.
O cronograma conta com cursos especializados em todas essas empresas – que abrangem temas de inovação, liderança e gestão – além de conversas com executivos brasileiros que atuam dentro dessas empresas. “São empresas fortes porque têm lideranças fortes. É isso que o curso busca ensinar”, conta Marzullo.

Ela também esclarece: a imersão não foi idealizada apenas para executivas C-level. E sim para mulheres empreendedoras que desejem impulsionar a liderança e seus negócios, independentemente de qual estágio eles estejam.
Ah! E o inglês em dia não é pré-requisito obrigatório. Todos os materiais – apostilas, panfletos, slides – tem tradução em inglês. As apresentações também contam com tradução simultânea.
E assim florescem resultados
Uma das participantes da segunda edição foi Dassa Danna, fundadora de uma joalheria que leva seu nome. A empreendedora afirma que, ao longo do curso, aprendeu que o verdadeiro crescimento começa com a confiança em si mesma, planejamento estratégico e coragem para agir. Isso aplicado a seu negócio deu frutos: em 2024, seu negócio cresceu 13%.
Outra participante foi Cinthya Benvenuti, sócia de uma distribuidora de alimentos no Rio de Janeiro e de uma vinícola no Rio Grande do Sul. Após o programa, Benvenuti aplicou em suas empresas um sistema de pontuação mensal, onde recompensava comportamentos como chegar no horário ou justificativas prévias para tal. Isso fez com que seu nível de atrasos e abstinência laboral caísse 95%.
Não foi a única coisa que mudou nas firmas de Cinthya. Ela faz, uma vez ao mês, reuniões com sua equipe direta, de recursos humanos e financeiros, para pensar em estratégias que promovamr maior valorização dos colaboradores e melhoria do ambiente de trabalho. Ela também fundou uma confraria feminina mensal no Rio de Janeiro: “Isso me rendeu mais visão e conexões, onde minha venda de vinhos da minha Vinícola no RJ para PF cresceu 60%”, conta.
“Foi como me sentir num intercâmbio, porém com maturidade, e adquirindo bagagens jamais calculadas.”
Elaine Castro, diretora de estratégia e gestão da MDM Sistemas e participante da última imersão, conta: “A imersão me trouxe clareza – essa é a palavra que mais me impactou – do que fazemos e porque fazemos. Que precisamos ser intencionais na liderança.Quando o líder entende o papel dele, o engajamento da equipe aumenta quase que de forma automática.” O programa resultou em uma projeção de aumento de faturamento de cerca de 40% para 2025.
O crescimento na grana é ótimo – mas o propósito de Tati vai muito além disso. “Quanto mais você sabe quem é, mais tem segurança para empreender e liderar – causa mais impacto positivo nas comunidades e se torna uma pessoa autoconfiante, consequentemente gera mais resultados na sua vida”, finaliza a executiva.