🔥 Mês do Cliente: Assine o Digital por R$ 9,90/mês e tenha conteúdo exclusivo na palma da sua mão!

Demissão contagiosa: O que realmente explica a volta dos cortes no setor tech?

Amazon, Microsoft, Google, Alphabet e Salesforce são apenas algumas das centenas de empresas tech que já cortaram 32 mil empregos em 2024, alegando investimentos em Inteligência Artificial. Mas a IA pode não ser a única com culpa no cartório. Entenda.

Por Sofia Kercher | Edição: Alexandre Versignassi 6 fev 2024, 16h33 | Atualizado em 4 jun 2026, 18h01
.
 (Tianyi Ma/ Unsplash/VOCÊ S/A)
Continua após publicidade
H

á algo estranho acontecendo no Vale do Silício. 10 dias após adentrarmos 2024, a Amazon anunciou que cortaria centenas de funcionários de sua divisão Prime Video, Twitch, Audible e estúdios MGM. Um dia depois, a Alphabet (Google) anunciou uma primeira rodada de demissões, em sua equipe de engenharia e produtos. Cerca de mil pessoas foram demitidas — e o CEO da companhia, Sundar Pichai, deixou claro que essa não será a última vez que a tesoura vai passar pelo quadro de funcionários.

Elas não são as únicas. Só no primeiro mês e pouquinho do ano, a empresa de softwares SAP anunciou uma reformulação de funções e demitiu 8 mil funcionários. A Microsoft, em sua recém-adquirida Activision Blizzard, cortou 1,9 mil empregos. A Salesforce anunciou uma nova rodada de demissões, prevendo cortes de até 700 funcionários. O Discord reduziu 17% de sua equipe.

E isso só para citar alguns exemplos de empresas maiores. Segundo a plataforma layoffs.fyi, que acompanha as demissões no setor tecnológico, desde que o ano começou, mais de 130 empresas tech demitiram cerca de 32,5k funcionários. Ouch.

Continua após a publicidade

Teve um déjà-vu? Normal. No mesmo período do ano passado, só se ouvia falar nisso. Twitter (4k demissões), Meta (10k), Microsoft (10k), Amazon (18k) e Alphabet (12k) promoveram rodadas de demissão nunca antes vistas no setor. Foi um banho de sangue: no total, 1.190 empresas demitiram mais de 262k funcionários.

Em 2024, a maior parte das justificativas gira em torno da lógica “fazer mais com menos” — concentrando os esforços em menos projetos e transferindo a grana liberada para novos produtos essenciais (leia-se Inteligência Artificial, mas estamos nos adiantando). 

Continua após a publicidade

Parece simples, certo? Mas nesse mato tem mais coelhos do que parece. Vamos entender o que realmente está acontecendo neste ano, quais as diferenças em relação a 2023 e o que pode vir pela frente (sim, pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro. Perdoe o clichê).

IA — e além

Sem grandes surpresas, a explicação das empresas para os cortes gira em torno da Inteligência Artificial. Faz sentido. A IA generativa — aquela que é capaz de gerar textos, imagens ou outras mídias mediante solicitação, pique ChatGPT — acabou mudando as prioridades de todos os negócios, especialmente das gigantes tech.

Continua após a publicidade

Na semana passada, Mark Zuckerberg afirmou que o controle de gastos e consequente demissão de funcionários na Meta teve que acontecer “para que possamos investir em visões ambiciosas e de longo prazo em torno de Inteligência Artificial.” Também disse ter percebido que “operamos melhor como uma empresa mais enxuta.”

Mas esse argumento, por si só, não explica exatamente o porquê de as demissões estarem acontecendo nessa proporção. 

Continua após a publicidade

Primeiro, é importante registrar que existe uma diferença grande na saúde das empresas do ano passado para cá: as gigantes do setor adentraram 2023 com quedas expressivas em lucro líquido e receita. A Amazon lucrou US$ 278 mi no 4º trimestre de 2022, uma queda exorbitante de 99,8% na comparação anual. Meta (-55%), Alphabet (-34%), Apple (-13%) e Microsoft (-12%) também desceram escorregador abaixo. Naquele momento, os cortes refletiram o cenário macroeconômico do período (inflação resiliente e um temor generalizado de que a alta nos juros, o remédio contra as altas nos preços, levaria a uma recessão).

Mas esse não é o caso de 2024. No último trimestre de 2023, Amazon e Meta divulgaram lucros trimestrais e perspectivas de crescimento que superaram as expectativas de Wall Street. A Apple voltou a ter crescimento na receita. O faturamento da Microsoft teve seu maior crescimento desde 2022. A Nvidia ainda não divulgou resultados do 4T23— mas levando em conta os estrondosos 240% de valorização de seus papéis em 2023, as expectativas são altas.

Continua após a publicidade

E mais: o S&P 500 atingiu máximas históricas repetidas vezes, lideradas justamente por essas Sete Magníficas (Alphabet, Apple, Amazon, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla). Somadas, a valorização dos papéis das estrelas do S&P ultrapassaram 100% no ano passado, duplicando seu valor de mercado.

O interessante é que esses movimentos de alta foram, em grande parte, cortesia de uma euforia de IA generalizada nas bolsas mundo afora (como explicamos nesta reportagem da VCSA). Logo, o movimento das big techs é natural. Já que investidores estão com olhos, ouvidos e bolsos voltados para o desenvolvimento de Inteligência Artificial, é melhor dar o que o povo clama.

Elas estão gastando bilhões de dólares em chips, supercomputadores e congêneres tecnológicos para sofisticar seus sistemas de IA. Até o final do ano, a Meta estimou que vai comprar 350 mil chips da Nvidia (e pagar um boleto de US$ 10 bilhões pelas plaquinhas de silício). 

Esse impulso de gastar com IA coincidiu justamente com os cortes em outras áreas das empresas. Por isso, a IA é apontada como uma das maiores culpadas pelos cortes que vêm acontecendo.

Mas eis o grande X da questão: os resultados das companhias não indicam que esses cortes necessariamente precisavam acontecer. Muito menos o cenário macroeconômico: nos EUA, a desaceleração da inflação, desemprego baixo e o iminente início dos cortes nos juros apontam um futuro promissor no horizonte.

Jeffrey Pfeffer, professor de Comportamento Organizacional em Stanford, tem uma teoria menos ortodoxa para a onda atual de desligamentos. Estaríamos diante de um fenômeno chamado copycat layoffs, ou demissões por imitação. Uma grande empresa enxuga os seus quadros e o quadro executivo da concorrência começa a se questionar se não deveria fazer o mesmo. 

É aquilo: uma demissão em massa é ruim, duas é péssimo, e três é tendência. Em pouco tempo, a atitude se generaliza – mesmo que não existam grandes razões para justificá-la. Maria-Vai-Com-As-Outras in a nutshell.

Se a estratégia se mostrar ruim no futuro, menos mal: dá para colocar a culpa pelo erro nas circunstâncias do mercado –  todo mundo estava cortando, afinal. 

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

10 grandes marcas em uma única assinatura digital