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Leia um trecho de “Ruído”, novo livro de Daniel Kahneman sobre finanças comportamentais

O ganhador do Prêmio Nobel e autor do best-seller "Rápido e Devagar" apresenta um novo conceito que interfere no nosso processo de decisão – e mostra como não cair em ciladas mentais.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 3 nov 2021, 16h09 - Publicado em 15 out 2021, 05h13

No best-seller Rápido e Devagar, o psicólogo e vencedor do Nobel de Economia Daniel Kahneman explica como os seres humanos não tomam decisões racionais o tempo todo – por causa de vieses, atalhos que nosso cérebro usa e que acabam nos colocando em armadilhas mentais.

Agora, Kahneman está de volta com um novo conceito, que também ajuda a explicar os erros de julgamento da nossa mente: o “ruído” – que dá nome ao seu novo livro, escrito com os colegas Oliver Sibony e Cass R. Sunstein.

Ao contrário do viés, o ruído se caracteriza pela inconsistência e pela imprevisibilidade do erro. Pense numa balança com defeito: se ela adiciona 10 quilos ao peso real de quem sobe nela, temos uma balança enviesada; se, para cada medição, o valor é completamente diferente, a balança é ruidosa. E, se ela sempre engorda a pessoa, mas cada vez com um adicional diferente, ela é ruidosa e enviesada.

No dia a dia, dá para observar o ruído em todo canto. Médicos diferentes trazem diagnósticos completamente distintos para os mesmos pacientes; juízes diferem em suas sentenças para casos similares, analistas financeiros fazem previsões opostas com base nos mesmos dados. E a mesma pessoa pode tomar decisões diferentes diante da mesma situação, de forma imprevisível.

O ruído é um fenômeno natural, esperado. Mas, em excesso e combinado com vieses, pode custar caro. No trecho a seguir, os autores mostram que até as opiniões políticas da esquerda e da direita podem mudar ao sabor de detalhes completamente irracionais.

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Capítulo 8 –  Como o grupo amplifica o ruído

Ruído no julgamento individual já é bastante ruim. Mas a tomada de decisão em grupo acrescenta outra camada ao problema. Um grupo pode ir em todas as direções, dependendo em parte de fatores aparentemente irrelevantes. Quem fala primeiro, quem fala por último, quem fala com confiança, quem está vestido de preto, quem sentou do lado de quem, quem sorri, quem fica sério ou gesticula no momento certo – todos esses fatores, e muitos mais, afetam os resultados. Diariamente, grupos similares tomam decisões muito diferentes sobre contratações, promoções, encerramento das atividades, estratégias de comunicação, regulamentações ambientais, segurança nacional, admissões numa faculdade ou lançamentos de novos produtos.

Pode parecer estranho enfatizar isso, uma vez que no capítulo anterior comentamos que agregar os julgamentos de múltiplos indivíduos reduz o ruído. Mas, devido à dinâmica de grupo, grupos também podem acrescentar ruído. Há “multidões sábias”, cuja média dos julgamentos se aproxima da resposta correta, mas também há multidões que seguem tiranos, alimentam bolhas de mercado, acreditam em magia ou vivem sob a influência de uma ilusão compartilhada. Diferenças menores podem levar um grupo a um firme sim e outro essencialmente idêntico a tender a um enfático não. E, devido à dinâmica entre os membros do grupo, o nível do ruído pode ser elevado. Essa proposição vigora tanto nos casos de ruído entre grupos similares como dentro de um único grupo cujo julgamento firme sobre uma importante questão deveria ser visto como apenas mais um dentre uma nuvem de possibilidades.

O ruído na música 

A título de evidência, comecemos pelo que parece ser um lugar improvável: um estudo em larga escala sobre downloads de música, realizado por Matthew Salganik e coautores. Os pesquisadores criaram um grupo de controle com milhares de pessoas (usuários de um site de popularidade moderada). Os membros do grupo de controle podiam escutar e baixar uma ou mais de 72 músicas de novas bandas. As músicas tinham nomes evocativos: “Trapped in an Orange Peel” (preso numa casca de laranja), “Best Mistakes” (os melhores erros) e “I Am Error” (eu sou um erro).

No grupo de controle, os participantes não eram informados de nada que os demais houvessem dito ou feito. Eles deveriam fazer julgamentos independentes sobre as músicas que desejavam baixar. Mas Salganik e seus colegas também criaram outros oito grupos, aos quais milhares de outros usuários do site foram aleatoriamente atribuídos. Para os membros desses grupos, tudo era igual, com uma exceção: as pessoas podiam ver quantos em seu grupo particular haviam baixado anteriormente determinada música. Por exemplo, se “Best Mistakes” fosse imensamente popular em um grupo, seus membros veriam isso, e também veriam caso a música nunca fosse baixada.

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Como os vários grupos não diferiam em nenhuma dimensão importante, o estudo em essência fazia a história seguir seu curso oito vezes. Você poderia perfeitamente prever que, no final, as músicas boas sempre chegariam ao topo e as ruins sempre ficariam embaixo. Nesse caso, os vários grupos terminariam com rankings idênticos ou ao menos similares. No conjunto, os grupos não apresentariam ruído. E, de fato, essa era a questão que Salganik e seus coautores pretendiam explorar. O experimento buscava identificar uma causa particular do ruído: a influência social.

O principal resultado foi que as paradas musicais divergiam radicalmente: entre os diferentes grupos, havia um bocado de ruído. Em um, “Best Mistakes” podia ser um sucesso estrondoso, enquanto “I Am Error” era um fiasco. Em outro, “I Am Error” saíra-se excepcionalmente bem, ao passo que “Best Mistakes” fora um desastre. Se a música se beneficiava de uma popularidade inicial, podia terminar em ótima posição. Sem essa vantagem, o resultado podia ser bem diferente.

As piores músicas (tal como determinadas pelo grupo de controle) nunca terminaram no topo e as melhores nunca terminaram embaixo. Mas, de resto, quase tudo podia acontecer. Como enfatizam os autores: “O nível de sucesso na condição de influência social era mais imprevisível do que na condição independente”. Em resumo, as influências sociais geram significativo ruído entre grupos. E, se pensarmos a respeito, perceberemos que individualmente os grupos eram ruidosos também, no sentido de que seu julgamento favorável a uma música, ou desfavorável a outra, podia facilmente ter sido diferente, dependendo de quanta popularidade inicial ela atraíra.

Como Salganik e seus coautores posteriormente demonstraram, os resultados de grupo podem ser manipulados com razoável facilidade, pois a popularidade se autorreforça. Em um experimento subsequente um tanto perverso, eles inverteram a parada musical no grupo de controle (em outras palavras, mentiram sobre a popularidade das músicas); ou seja, as músicas menos populares apareciam como mais populares e vice-versa. Os pesquisadores então esperaram para ver o que os usuários do site fariam.

O resultado foi que a maioria das músicas impopulares se tornou muito popular e a maioria das populares se saiu muito mal. Dentro de grupos muito grandes, popularidade e impopularidade produziram mais do mesmo, inclusive quando os pesquisadores tapearam os participantes sobre quais músicas eram mais populares. A única exceção foi que a música mais popular de todas no grupo de controle de fato ganhou popularidade com o tempo, significando que a parada musical invertida não conseguiu segurar a melhor música lá embaixo. Na maior parte, no entanto, a parada invertida ajudou a determinar o ranking final.

Deve ser fácil perceber como esses estudos afetam julgamentos em grupo de forma geral. Suponha que um grupo pequeno consistindo em, digamos, dez pessoas está se decidindo sobre a adoção de uma iniciativa nova e ousada. Se um ou dois partidários dela falam primeiro, podem perfeitamente desviar a sala toda na direção de sua preferência. O mesmo é verdade se os céticos falam primeiro. Pelo menos é assim se as pessoas se deixam influenciar umas pelas outras – e geralmente deixam. Por esse motivo, grupos mais similares podem acabar por fazer julgamentos bem diferentes simplesmente devido a quem falou primeiro e iniciou o equivalente aos primeiros downloads. A popularidade de “Best Mistakes” e “I Am Error” tem análogos próximos nos julgamentos profissionais de todo tipo. E se os grupos não escutam o análogo aos rankings de popularidade dessas músicas – um entusiasmo manifesto, digamos, por essa iniciativa ousada –, a iniciativa talvez não dê em nada, simplesmente porque os que a apoiavam não expressaram sua opinião. 

Além dos downloads de música

[…]

Partindo diretamente do experimento dos downloads, o sociólogo Michael Macy e seus colaboradores da Universidade Cornell investigaram se a opinião manifesta dos outros podia subitamente popularizar posições políticas […]. A resposta, numa palavra, é sim. Se um democrata em um grupo na internet percebesse que um ponto de vista particular começava a ganhar popularidade entre democratas, endossava esse ponto de vista, acabando por levar a maioria dos democratas no grupo relevante a aprová-lo. Mas se um democrata em outro grupo na internet visse que esse mesmo ponto de vista começava a ganhar popularidade entre republicanos, rejeitava-o, acabando por fazer com que a maioria dos democratas no grupo relevante o rejeitasse. Republicanos se comportaram de modo similar.

Em suma, posições políticas podem ser como músicas no sentido de que seu destino final muitas vezes depende da popularidade inicial. Como afirmaram os pesquisadores, “a variação casual em um pequeno número dos primeiros a se manifestar” pode ter efeitos determinantes em influenciar grandes populações – e em fazer tanto republicanos como democratas adotarem um punhado de pontos de vista que na verdade não guardam qualquer relação entre si.

[…]

Há uma questão relacionada. Falamos sobre a sabedoria das multidões: se propomos uma pergunta a um grupo grande, há boa chance de que a resposta média seja muito próxima do alvo. Agregar julgamentos pode ser um modo excelente de reduzir tanto o viés como o erro. Mas o que acontece se todo mundo escuta todo mundo? Você pode achar que isso ajuda. Afinal, as pessoas aprendem umas com as outras e desse modo descobrem o que é certo. Sob circunstâncias propícias, em que todos compartilham o que sabem, a deliberação em grupo pode de fato ser positiva. Mas a independência é um pré-requisito para a sabedoria das multidões. Se, em vez de formular o próprio julgamento, a pessoa confia no que os demais acham, a multidão pode não ser tão sábia, afinal.

Uma pesquisa revelou exatamente esse problema. Em tarefas simples de estimativa – a quantidade de crimes numa cidade, aumentos populacionais ao longo de períodos especificados, a extensão de uma fronteira entre nações –, as multidões se revelaram de fato sábias, contanto que as opiniões fossem registradas de maneira independente. Se os participantes soubessem das estimativas alheias – por exemplo, a média das estimativas de um grupo de 12 pessoas –, o desempenho da multidão piorava. Como explicam os autores, as influências sociais são um problema, porque elas reduzem a “diversidade de grupo sem diminuir o erro coletivo”. A ironia é que, embora múltiplas opiniões independentes, adequadamente agregadas, possam ter precisão extraordinária, até mesmo uma pequena influência social consegue produzir uma espécie de comportamento de manada que sabota a sabedoria das multidões.

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Arte/VOCÊ S/A
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