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Como turbinar sua memória e não esquecer nenhum compromisso

Em novo livro, a neurocientista Lisa Genova explica o que a ciência sabe sobre a memória e como mantê-la saudável.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 10 mar 2022, 17h29 - Publicado em 11 mar 2022, 06h58

Reunião às 16 horas. Finalizar o relatório. Responder aquele email do cliente com urgência. Marcar consulta com o médico para semana que vem. Passar no mercado depois do expediente e comprar leite. Devolver aquele livro na biblioteca, porque você já esqueceu na semana passada e está pagando multa. Dar parabéns para aquela colega que você não vê há anos (e só lembrou porque o Facebook notificou). Na saída do prédio, a dúvida: onde foi mesmo que estacionei o carro? 

Mesmo num dia absolutamente normal, a quantidade de coisas para se lembrar parece interminável. E a memória só funciona porque, ao longo de milhões de anos de evolução, o cérebro foi aprendendo o que vale a pena lembrar – e, tão importante quanto, o que é melhor esquecer. 

No meio do processo acontecem alguns bugs, como quase tudo que envolve a mente humana. A boa notícia é que dá para se esquivar de alguns deles, e evitar esquecimentos embaraçosos.

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Em seu novo livro, a neurocientista Lisa Genova explica de forma didática tudo o que a ciência já desvendou sobre a memória, e dá dicas de como mantê-la saudável. É a primeira obra de não ficção da autora, que ficou conhecida pelo best-seller Para sempre Alice, romance sobre uma professora universitária que enfrenta um estágio inicial de Alzheimer e que virou filme protagonizado por Julianne Moore.

No trecho a seguir, a autora dá dicas de como dar uma força para a memória prospectiva – aquela que usamos para lembrar de cumprir as tarefas do dia a dia.

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Arte/VOCÊ S/A

Capítulo 9  – Não se esqueça de lembrar

A memória prospectiva  é a memória para aquilo que você precisa fazer mais tarde. Esse tipo de memória é meio como uma viagem no tempo mental. Você está criando uma intenção para o seu eu do futuro. Essa é a lista de afazeres do seu cérebro, uma memória para ser recordada em um lugar e tempo futuros. E está repleta de esquecimento. De fato, a memória prospectiva é mantida de forma tão precária pelos nossos circuitos neurais e é tão cheia de falhas que quase pode ser pensada como uma espécie de esquecimento em vez de como um tipo de memória.

Para uma memória prospectiva ser lembrada e não esquecida, a intenção ou ação que deve ser levada a cabo mais tarde deve primeiro ser codificada neste instante na minha memória. Essa etapa raramente representa um problema. Tenho de lembrar de reservar a passagem de avião da minha filha da faculdade para casa antes de ir para cama hoje à noite. Pronto. Pedi ao meu cérebro para lembrar de fazer essa tarefa. Está aí.

É na segunda etapa que provavelmente vou esbarrar em toda sorte de problemas. Preciso lembrar de me lembrar dessa tarefa. E, de modo geral, o nosso cérebro é péssimo em lembrar de lembrar. Não só os cérebros de certa idade. Todos os cérebros. A lembrança dessa intenção (reservar a passagem da minha filha para ela voltar para casa) precisa ser recuperada no futuro (antes de ir para a cama), daqui a doze horas. Uma vez que reservar uma passagem de avião para a minha filha não é uma tarefa noturna arraigada e habitual como escovar os dentes, a menos que crie pelo menos uma pista que vá acionar a recordação “reservar uma passagem de avião antes de ir dormir”, é provável que eu me esqueça de fazer esse agendamento. 

[…]

A memória prospectiva é desafiadora para pessoas de todas as idades (seu filho adolescente se lembra de desligar a luz do quarto quando sai do cômodo?) e ocupações. Ainda assim, tendemos a julgar e a ser julgados de forma injusta por esse tipo de distração universalmente vivenciada. Se uma colega esquece de comparecer a uma reunião importante ou se seu filho adolescente esquece de desligar o forno depois de assar biscoitos, você pode muito bem interpretar esses lapsos da memória prospectiva como sinais de negligência, falta de caráter, inconsequência e irresponsabilidade, ou até mesmo como um possível sintoma de Alzheimer. Mas a culpa não deveria recair em uma doença neurodegenerativa ou na falta de caráter. Esquecer-se de trazer o presente, que está embrulhado e pronto e esperando no balcão da cozinha, para a festa de aniversário em que acabou de chegar se deve mais provavelmente à falta de deixas adequadas do que de caráter. Errar é humano, sobretudo se você estiver se fiando na memória prospectiva. 

Por isso devemos ajudá-la…

FAÇA LISTAS DE TAREFAS.

Podemos criar ajudantes externos para nossa memória prospectiva. Se você passa a precisar de uma iluminação melhor enquanto aperta os olhos para as palavras impressas em cardápios que segura com os braços estendidos ou se continua aumentando o tamanho da fonte no seu celular, o que você faz? Põe óculos. Se seus olhos não conseguem ver as palavras com perfeição, você recruta o auxílio de ajudantes externos chamados óculos para corrigir essa deficiência.

Pense em listas de tarefas como óculos para a memória prospectiva. Não há vergonha nenhuma em uma lista. Não aposte que vai lembrar mais tarde o que está planejando agora. Você provavelmente não vai. Anotem, pessoal. 

Fui recentemente ao mercado para comprar leite para fazer waffles para os meus filhos. Dirigi até a loja, comprei uma série de coisas e cheguei em casa… sem o leite. Só me dei conta de que havia esquecido o leite quando entrei na cozinha e vi a fôrma de waffles no balcão. Da próxima vez, a menos que queira carregar a pista (a fôrma de waffles) comigo até a loja, deveria fazer uma lista. Só preciso me lembrar de levar a lista comigo. 

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Não basta criar listas de tarefas. Você precisa consultá-las. A rotina de consultar uma lista é parte da solução para aqueles cirurgiões que, por serem humanos e terem memória prospectiva duvidosa, correm o risco de esquecer de remover os instrumentos cirúrgicos de dentro do corpo do paciente antes de fechá-lo. Eles agora têm listas que, quando prestam atenção a elas, permitem-lhes prestar contas do paradeiro de cada peça de equipamento que usam durante uma operação. Da mesma forma, pilotos de avião não confiam em sua memória prospectiva instável para se lembrar de baixar as rodas antes de pousar o avião. Felizmente, eles usam listas de tarefas.

INSIRA A INFORMAÇÃO NO CALENDÁRIO.

Os intervalos de retenção da memória prospectiva podem ser desafiadores. Se você precisa se lembrar de levar um cheque para a aula de dança da sua filha na semana que vem, guardar essa intenção na consciência pelos próximos sete dias é impossível.

Então, assim como faz com listas de tarefas, você quer externalizar o calendário do seu cérebro. Não conte com sua memória prospectiva duvidosa para lembrar que precisa comparecer a uma reunião amanhã às quatro da tarde. Seu cérebro pode esquecer e meter você em uma enrascada. Torne um hábito inserir no seu calendário qualquer coisa que precise fazer no futuro. E então torne um hábito conferir o calendário várias vezes por dia ou, se estiver usando um celular ou computador, configurar alarmes ou alertas que vão lembrá-lo de olhar para o calendário. 

Bipe! São 15h50. Você tem uma reunião às quatro. Vá!

SEJA ESPECÍFICO EM RELAÇÃO A SEU PLANO. 

Amarrar um cordão branco em volta do dedo só lhe diz que você precisa se lembrar de fazer alguma coisa. A menos que precise comprar mais cordão, essa pista é muito genérica para conduzi-lo com segurança até a lembrança que está buscando. 

Não diga à sua memória prospectiva: “Quero me exercitar hoje mais tarde.” Você não criou nenhuma deixa específica para acionar a ativação dessa intenção. Que tipo de exercício? Do que você precisa? Quando? Vamos ser honestos. Você não vai se lembrar de se exercitar. 

Em vez disso, diga a si mesmo: “Vou à ioga ao meio-dia.” Agora você tem o que os psicólogos chamam de intenção de implementação. Coloque seu tapetinho de ioga na porta da frente. Aí está sua deixa visível. Insira “ioga ao meio-dia” no calendário e configure um alerta para disparar às 11h45 porque você sabe que leva dez minutos para chegar lá de carro. 

Namastê.

COLOQUE AS DEIXAS EM LUGARES IMPOSSÍVEIS DE ESQUECER. 

Digamos que comprei uma garrafa de vinho para levar ao jantar de uma amiga amanhã à noite. A garrafa está em um saco de papel pardo no balcão da minha cozinha. A menos que acrescente “levar garrafa de vinho” à minha lista de tarefas ou “levar garrafa de vinho” no meu calendário, há uma boa chance de eu aparecer na casa da minha amiga de mãos vazias. 

Meu namorado previne esse tipo de lapso da memória prospectiva colocando qualquer coisa que precise ir conosco bem perto da porta da frente. Precisa levar uma garrafa de vinho para a festa? Ele a põe no chão, bem na frente da porta. Não se esqueça de levar os ingressos para o show. No chão, na frente da porta. Nós teríamos que literalmente tropeçar nos itens a serem lembrados só para sair de casa. 

Você não precisa usar a porta da frente, mas esse método é uma boa prática. Certifique-se de que suas deixas estão no lugar certo para você notá-las a tempo de fazer o que pretendia. Se você precisa tomar o remédio à noite antes de dormir, coloque sua caixa de remédios ao lado da escova de dentes e não escondida em um armário, onde você não consegue enxergá-la.

FIQUE ATENTO SE A SUA ROTINA FOR ALTERADA. 

Muitos de nós usam alguma parte da rotina diária como uma deixa para a memória prospectiva. Aprontar-se para dormir lembra você de escovar os dentes. Você toma seus remédios diários com o café da manhã, então um bagel e um café forte são suas deixas para tomar seus remédios para o coração. 

Mas fique atento se sua rotina diária mudar ou se for temporariamente desestruturada, porque as deixas nas quais você está confiando podem ter mudado ou desaparecido. Se pular o café da manhã hoje porque está atrasado para uma consulta bem cedo, você vai se esquecer de tomar os remédios para o coração? Sempre que seu dia sair dos trilhos, tire um momento para olhar para qualquer tarefa da memória prospectiva que pode ter sido acoplada à atividade que foi alterada ou que não ocorreu.  

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