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Como o burnout se tornou uma característica dos millennials

Livro de Anne Helen Petersen investiga como essa geração aprendeu a trabalhar com o que ama, e quais são os riscos disso.

Por Tássia Kastner Atualizado em 16 nov 2021, 15h20 - Publicado em 16 nov 2021, 09h15

Exaustão significa ir até um limite. Burnout é cruzá-lo e continuar avançando. Depois de ultrapassar essa linha, a jornalista Anne Helen Petersen decidiu investigar se a tendência ao colapso é mais do que uma coleção de casos isolados, mas uma característica da geração millennial.

Millennials têm hoje entre 25 e 40 anos e foram ensinados, desde a infância, a se dedicar de forma obstinada a seus sonhos, com a promessa de que conseguiriam tudo aquilo que almejavam.

Para as gerações anteriores, o objetivo era a estabilidade até a aposentadoria. Os millennials chegaram ao mercado de trabalho sonhando com empregos ligados à expressão da criatividade e à autonomia – artes ou qualquer outra coisa que envolva “paixão” –, mas sem nenhuma garantia como as oferecidas aos seus pais. Foi o que detectou Anne ao entrevistar millennials americanos de diferentes regiões, classes sociais, gêneros e raças.

Neste trecho de seu livro Não Aguento Mais Não Aguentar Mais, Anne mostra que a ideia de “trabalhar com o que se ama” é traiçoeira, principalmente quando o discurso é apropriado por corporações – faz com que jovens aceitem empregos por salários baixos e terminem fazendo do trabalho algo extremamente pessoal, e por isso mesmo mais estressante.

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Capítulo 4: Faça o que você ama e ainda vai ter que trabalhar todos os dias pelo resto da sua vida

Em 2005, Steve Jobs fez um discurso de formatura na Universidade Stanford – e reafirmou a ideia de que os formandos Millennials da universidade tinham passado grande parte da vida internalizando. “Seu trabalho vai preencher uma parte maior da sua vida, e a única maneira de ficar verdadeiramente satisfeito é fazer o que você acredita ser um grande trabalho”, disse Jobs. “E a única maneira de fazer um grande trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é isso, continue procurando. Não aceite nada menos.”

Miya Tokumitsu, autora de Do What You Love and Other Lies About Success and Happiness [Faça o que você ama e outras mentiras sobre sucesso e felicidade], vê o discurso de Jobs como uma cristalização da narrativa do trabalho “amável”: que, quando você ama o que faz, não só o “trabalho” por trás disso desaparece, mas suas habilidades, seu sucesso, sua felicidade e sua riqueza, tudo aumenta exponencialmente por causa disso.

Essa equação é, em si, baseada em uma integração trabalho-vida perfeita para o burnout: o que você ama se torna seu trabalho; seu trabalho se torna o que você ama. Não há separação do dia (de trabalho e fora do trabalho) ou do eu (meu “eu” profissional versus meu “eu” real). É só uma longa faixa de Moebius em que uma pessoa derrama toda a sua personalidade em um trabalho “amável”, com a expectativa de que fazer isso vai trazer tanto felicidade quanto estabilidade financeira. Como disse o artista Adam J. Kurtz ao reescrever essa máxima no Twitter: “Faça o que você ama e não vai trabalhar um dia na sua vida vai trabalhar muito mesmo o tempo todo sem nenhuma separação e nenhum limite, e também vai levar tudo extremamente para o pessoal”.

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Dentro da máxima de “fazer o que você ama”, qualquer emprego teoricamente pode ser amável, contanto que seja o que você, pessoalmente, ama. Mas empregos “amáveis”, pelo menos nesse momento, são empregos visíveis, empregos que acrescentam informações sociais e culturais, empregos nos quais você trabalha para si mesmo ou com pouca supervisão direta. Podem ser empregos considerados socialmente altruístas (professores, médicos, defensores públicos, assistentes sociais, bombeiros), empregos considerados descolados de alguma forma (guardas-florestais, fabricantes de cervejas artesanais, instrutores de ioga, curadores de museu) ou aqueles em que você tem total autonomia sobre o que faz e onde faz.

São os empregos com os quais as crianças sonham, sobre os quais as pessoas falam, que recebem um “Nossa, que emprego maneiro” quando você fala sobre isso. Servir mesas pode ser um emprego maneiro se for no restaurante certo; trabalho braçal nos bastidores pode ser maneiro se for para a companhia de teatro certa. Michael, que é branco e de classe média de Kansas City, só tinha noções vagas do que seu emprego ideal seria: “Algo em que eu pudesse ‘ser criativo’ o dia todo”. Rooney, que é negra e de classe trabalhadora, imaginava um trabalho que fosse “significativo”, pelo qual ela fosse “apaixonada” e sentisse um “chamado”. Greta, que é branca e de classe média, disse que suas histórias favoritas – de Legalmente Loira a Gilmore Girls – lhe ensinaram que um emprego “descolado” é aquele em que você persegue sua paixão com afinco.

O quanto empregos “amáveis” são desejáveis é parte do que os torna tão insustentáveis: tantas pessoas estão competindo por tão poucas posições que os padrões de pagamento podem ser reduzidos de forma contínua sem muitas consequências. Sempre vai ter alguém igualmente apaixonado pelo trabalho para ficar no seu lugar. Benefícios podem ser reduzidos ou cortados por completo; pagamentos para freelancers podem ser diminuídos a ponto de mal serem capazes de sustentar alguém, especialmente na área das artes. Em muitos casos, em vez de um escritor receber dinheiro para publicar em um site, ele basicamente paga ao site com trabalho de graça pela oportunidade de receber os créditos pela publicação. Ao mesmo tempo, empregadores podem aumentar as qualificações mínimas para o trabalho, exigindo mais estudo, outra graduação e mais treinamento – mesmo que isso não seja necessário – para que a pessoa pelo menos seja considerada para a vaga.

Dessa forma, empregos e estágios “descolados” se tornam estudos de caso sobre oferta e demanda: mesmo que o trabalho em si não seja tão satisfatório, ou exija tanto empenho com remuneração tão baixa que é capaz de extinguir qualquer paixão que possa existir, o desafio de ser um entre mil que “fazem as coisas funcionarem” torna o emprego muito mais desejável.

Para muitas empresas, esse é o cenário perfeito: uma posição que custa a elas pouco ou nada para preencher, com um número aparentemente infinito de candidatos superqualificados e muito motivados. Isso explica por que, no mercado de trabalho na teoria robusto do final dos anos 2010, empresas se viram cada vez mais desesperadas para preencher empregos não amáveis de baixo salário – em especial considerando que muitos, não importa o quão básicos, agora exijam um diploma de nível superior. Como Amanda Mull apontou na The Atlantic, esse desespero tomou a forma do “anúncio de emprego descolado” e do gasto cada vez maior no aperfeiçoamento desse anúncio (em vez de, digamos, oferecer aos candidatos melhores salários, benefícios ou flexibilidade).

De acordo com o site Indeed.com, entre 2006 e 2013 houve um aumento de 2.505% nas descrições de vagas de emprego que usavam a palavra “ninja”; um aumento de 810% nas que usavam “estrela do rock” e 67% de aumento nas que tinham a palavra “jedi”. No momento em que escrevo isso, você pode se candidatar a uma vaga de “Herói do Atendimento ao Cliente” na empresa Autodesk, a uma de “Ninja do Cacau” numa fábrica de chocolates na Pensilvânia e a uma de “Faz-tudo Astro do Rock” para uma imobiliária em Orlando, Flórida. A maioria desses anúncios é para empregos de nível júnior, que pagam pouco mais que o salário mínimo, com poucos ou nenhum benefício. Alguns são simplesmente trabalhos freelancer propagandeados como “oportunidades de lucro”. Quanto mais merda for o trabalho, maiores as chances de que receba um título e um anúncio “descolados” – uma forma de convencer o candidato de que um trabalho nada legal é na verdade interessante e, portanto, válido, apesar do salário que mal dá para viver.

Essa é a lógica do “Faça o que você ama” na prática. É claro que nenhum funcionário pede ao empregador que o valorize menos, mas a retórica do “Faça o que você ama” torna o pedido de valorização o equivalente a uma conduta antidesportiva. Fazer o que você ama “expõe a pessoa à exploração, justificando trabalho não pago ou mal pago com as motivações dos próprios funcionários”, argumenta Tokumitsu, “quando paixão se torna a motivação socialmente aceita para o trabalho, falar de salário, responsabilidades ou horários se torna grosseria”.

Veja o exemplo de Elizabeth, que se identifica como uma latina branca que cresceu na classe média da Flórida. Durante o início da faculdade, participou do Disney College Program, que oferece um estágio híbrido com uma experiência de “estudo no exterior”, só que, em vez de ser em um país estrangeiro, é na… Disney. Depois, ela ficou desesperada para conseguir um emprego, qualquer um, na empresa – mesmo que fosse no call center. A vaga era totalmente sem saída, sem nenhuma forma de progressão na empresa, só a expectativa de que você deveria ser grato simplesmente por ter um emprego na Disney. “Na Disney, eles dependem do seu amor pela empresa”, contou ela. “Eu amava a empresa e os produtos, mas isso não tornava aceitável o pagamento pouco acima do salário mínimo.”

Quando um grupo de funcionários “apaixonados” chega a pedir melhores salários e condições de trabalho – digamos, entrando num sindicato –, sua devoção à vocação é questionada. (As exceções são ocupações sindicalizadas há décadas, como bombeiros ou policiais.) Defender um sindicato significa se identificar, em primeiro lugar, como trabalhador, em solidariedade com outros trabalhadores. Isso promove o tipo de consciência de classe que muitos empregadores se esforçaram tanto para negar, repaginando “empregos” como “paixões” e “locais de trabalho” como “família”. E Deus me livre de falar de dinheiro com alguém da família.

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