Como gerenciar o tempo entre filhos e carreira para a vida não ser um ciclo de exaustão
Queremos, ao final do dia, nos sentir bem, com energia para estar com quem nos importa, trabalhar sem tanta culpa e perceber que estamos não apenas sobrevivendo, mas vivendo.

Ser mãe de três crianças me ensinou sobre o tempo de uma forma que nenhum curso de produtividade jamais poderia. Conciliar uma agenda com filhos – ainda que com muitos privilégios – não é uma tarefa simples.
Há dias em que me sinto vitoriosa por conseguir cumprir minha agenda de trabalho, ajudar nas lições de casa e ainda ter alguns minutos para mim. Mas, na maioria das vezes, sinto um enorme peso nos ombros. A sensação de que estou sempre devendo algo – seja para os meus filhos, para o meu trabalho ou para mim.
Sei que não estou sozinha. No Brasil, 70% dos pais e mães trabalhadores relatam sentir exaustão constante, e o país ocupa o primeiro lugar no ranking de ansiedade do mundo, segundo a OMS. O problema é que esse sentimento não é apenas um reflexo de agendas lotadas. É um sintoma de uma sociedade que nos ensinou que precisamos dar conta de tudo, o tempo todo.
A Norma Regulamentadora 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, reforça a necessidade de medidas preventivas para a saúde e para a segurança no ambiente de trabalho. Mas, o que pouco se discute é que a sobrecarga mental não está só dentro das empresas: ela invade nossas casas, nossos relacionamentos e nosso corpo.
Para muitos pais e mães, essa sobrecarga é percebida na:
● Culpa: por não estarem mais presente nos momentos com os filhos.
● Ansiedade: por não serem tão produtivos quanto os colegas sem filhos.
● Sensação de estar sempre devendo algo: no trabalho, em casa, para si mesmo.
Isso não é normal. Isso é adoecimento. E, se não mudarmos a forma como lidamos com o tempo, vamos continuar apagando incêndios até que não sobre mais energia para viver de verdade.
Para não viver sempre exausto
O primeiro passo para sair desse estado é aceitar que não podemos fazer tudo. Precisamos escolher o que importa.
Das muitas conversas que já tive dentro de empresas em palestras, treinamentos, rodas de conversas e mentorias, o desejo é comum: as pessoas querem se sentir bem e em um ambiente de trabalho no qual não dependam da sorte de terem bons gestores para se desenvolverem.
Ressalto que é imprescindível haver mudanças na cultura, nas políticas e nos processos organizacionais, especialmente mirando na liderança. No entanto, abro espaço para pensarmos no que podemos fazer por nós mesmos, sobretudo pais e mães que buscam conciliar filhos e carreira sem essa sobrecarga mental. Faço um parênteses aqui que não podemos ignorar as questões estruturais e as mais diferentes realidades das pessoas. Dessa forma, convido você a refletir e adaptar ao seu cenário.
Antes de mais nada, é importante reavaliar o conceito que temos sobre “equilibrar demandas”.
Para cuidar da rotina e conseguir se sentir bem com a própria vida e priorizar a saúde, comece pelo balanço do dia a dia, descobrindo para onde vai seu tempo e sua energia. Durante três dias, anote suas atividades, observe-se. Por exemplo, olhe o tempo gasto em redes sociais ou em seu deslocamento cotidiano e comece a reconhecer quem são os seus vilões. Esse é o momento de tirar uma fotografia e ter um diagnóstico inicial.
Após essa análise, você conseguirá perceber padrões e identificar onde sua energia está sendo drenada.
Feito isso, é hora de pensar nas escolhas que fazem mais sentido para a sua vida. O que é importante para você e o que é – verdadeiramente – importante a ser feito hoje?
Vá por partes
A sensação de sobrecarga muitas vezes vem de querer dar conta de tudo. Mas a realidade é que nem tudo tem a mesma importância. A Regra de Pareto, também conhecida como princípio de Pareto ou teoria 80/20, pode ajudar a redefinir prioridades. Esse princípio nos mostra que 80% dos nossos resultados vêm de apenas 20% das nossas ações. Ou seja, grande parte do que fazemos no dia a dia poderia ser agendado, eliminado ou delegado sem comprometer nossos objetivos.
Uma forma eficiente de ir dormir com a sensação de dever cumprido é conseguir aplicar a regra dos três. Ou seja, em vez de tentar resolver a lista interminável de tarefas, defina somente três – essenciais – por dia. Defina também por categoria: uma tarefa para você, uma para a relação com os filhos e uma tarefa para o trabalho.
Isso não significa que você deixará todas as outras tarefas para trás. Pelo contrário, ajudará a trazer foco para que esses momentos sejam feitos com consciência. Isso pode reduzir significativamente a ansiedade de não ter feito “tudo”, trocando para “tudo que você escolheu fazer bem”.
Um outro ponto importante é ter clareza de que cuidar do tempo não é uma tarefa que se faça uma vez apenas. É fundamental planejamento e manutenção constante na avaliação das próprias escolhas.
Se me permitem, faço aqui uma outra sugestão. Uma forma de se apropriar do tempo é finalizar o dia: fazer o ritual de despedida, celebrando e reconhecendo o que funcionou bem e o que pode ser simplificado.
Tudo isso porque precisamos assumir a posição de guardiões de nossa saúde. Não vivemos só para cumprir tarefas. Queremos, ao final do dia, nos sentir bem, com energia para estar com quem nos importa, trabalhar sem tanta culpa e perceber que estamos não apenas sobrevivendo, mas vivendo.
Isso não pode ser um luxo ou um privilégio de poucos, mas uma necessidade e um direito de todos.