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Qual o papel da empresa na saúde mental dos funcionários?

A lei nada prevê sobre a saúde psicológica. Mas, esta lacuna não isenta a empresa de cuidados com elementos de stress profissional

Por José Carlos Wahle, sócio da área trabalhista do Veirano Advogados Atualizado em 15 mar 2021, 09h38 - Publicado em 25 set 2020, 12h00

No mês de campanha de prevenção ao suicídio, é preocupante, embora não seja surpreendente, a notícia de que os casos de ansiedade e depressão aumentaram durante a pandemia. Qual o papel da empresa para lidar com esse problema?

A empresa é responsável pelo bem-estar físico e mental dos seus empregados durante o horário de trabalho. A lei determina regras de ergonomia para o teletrabalho. Assim, antes de tudo, é necessário enriquecer o programa de ergonomia do teletrabalho (CLT, artigo 65-E) com exercícios de alongamento, respiração e até meditação. São atividades relaxantes, muito benéficas ao bem estar geral.

Mas a lei nada prevê sobre a saúde psicológica. Esta lacuna não isenta a empresa de cuidados com elementos de stress profissional peculiares à nova rotina. A pandemia causa em todos preocupação por razões que nada têm a ver com o trabalho e, portanto, estão fora do alcance da empresa. A nova rotina de trabalho remoto exige cuidados muitas vezes inéditos.

O teletrabalho em massa, sem planejamento ou preparação, propõe novos desafios e novas abordagens a desafios tradicionais.

O primeiro desafio que merece atenção é a agenda de trabalho. O século 21 é marcado pela busca da autogestão do tempo, da flexibilização de horários e da quebra da monotonia da rotina. Mas será que estamos todos preparados para essa auto gestão de tempo? A rotina de trabalho de escritório pode ser monótona e por isso tendemos a desvalorizar o efeito que ela produz sobre a administração das tarefas e do tempo disponível.

De repente, tornamo-nos gestores do nosso próprio tempo. Podemos começar mais tarde, fazer pausas não programadas, inclusive para assistir jogos de ligas europeias inconvenientemente transmitidos no meio da tarde, podemos intercalar trabalho com atividades pessoais.

O que se vê disso é um resultado irregular. Muitos estão se perdendo na administração do próprio tempo em relação aos prazos para entrega das tarefas. E-mails na madrugada estão mais comuns, prorrogação de prazos ou o seu cumprimento em detrimento da qualidade causam preocupação. Isso não é bom para a saúde. O organismo precisa cumprir seu ciclo de atividade e repouso.

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Então, o manejo do teletrabalho exige orientação e capacitação dos empregados em técnicas de autogestão do tempo e tarefas, para que a agenda não se torne caótica e angustiante. São técnicas administradas automaticamente na rotina de trabalho presencial com o concatenamento das tarefas coletivas ou colaborativas.

No teletrabalho é essencial garantir que todos dominem técnicas de montagem de uma agenda minimamente programática, organização de prioridades, dimensionamento entre tempo disponível, prazo de entrega e tempo estimado para a execução das tarefas e planejamento de pausas para descanso mas não tão longas que atrapalhem o andamento do trabalho e a concentração nas atividades.

Em outro aspecto importante dessa sobreposição de rotinas privadas e profissionais, deparamo-nos com a compatibilização entre as rotinas privada e profissional. Aulas à distância, creches e pré-escolas fechadas, a reclusão da quarentena, o receio de adoecer e a preocupação com familiares e amigos. Tudo isso tira as pessoas do seu equilíbrio emocional. Crescem os relatos de desentendimentos durante a pandemia Duas pessoas estressadas são capazes de retroalimentar sua irritabilidade se não tiverem consciência desse processo.

O que as empresas podem fazer a respeito já que não podem ser invasivas das tarefas domésticas e da vida privada?

É necessário adotar uma campanha e treinamento de maior empatia. Afinal, o distanciamento social que é a norma do momento diminui a interação e assim exige cuidados para manutenção de relacionamentos positivos e da empatia.

Empatia é a capacidade de projetar os sentimentos alheios, entendê-los e ajustar o nosso comportamento. A empatia é inata (exceto na psicopatia), mas pode ser treinada. Seguem algumas sugestões para iniciativas individuais:

  1. Não despreze o vídeo nas reuniões remotas, ainda que por alguns minutos. Contato visual gera empatia.
  2. Sem ser invasivo/a/e, pergunte como as pessoas estão, conte uma pequena anedota do seu quotidiano.
  3. Se o tempo permitir, deixe que as pessoas falem um pouco sobre o que as preocupa. Ter alguém que esteja fora da situação, ajuda muito a lidar com ela.
  4. Esteja alerta para modular seu tom de voz e escolher suas palavras.
  5. Com cuidado e cortesia, alerte as pessoas se elas escalarem a tensão da conversa/reunião.

Acredito que veremos em breve um crescimento do teletrabalho voluntário, ou seja, independente de quarentena e, assim, as empresas devem ajustar essas medidas emergenciais de saúde física e mental para um programa permanente de apoio aos trabalho remoto.

 

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