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Islândia testou uma jornada de trabalho mais curta. Deu certo.

Alguns trabalharam menos horas por dia; outros, só quatro dias por semana. O resultado mostrou que menos tempo dedicado ao trabalho melhora o bem-estar e torna os profissionais mais produtivos.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 2 ago 2021, 13h39 - Publicado em 30 jul 2021, 17h13

Já imaginou um fim de semana com três dias? Parece um sonho, mas talvez não seja algo tão distante assim. Bom, pelo menos para os cerca de 350 mil cidadãos islandeses. Dois novos experimentos feitos no país mostraram que a redução da jornada de trabalho, mantendo o mesmo salário, não diminuiu a produtividade dos trabalhadores nem impactou na sua performance, mas aumentou o bem-estar e a qualidade de vida dos empregados.

Com base nos resultados, as autoridades do país já começaram a colocar a medida em prática: cerca de 86% dos islandeses já estão trabalhando em jornadas reduzidas ou poderão optar por essa modalidade no futuro próximo.

Os experimento foram feitos entre 2015-2019 e 2017-2021, e os resultados foram divulgados em um relatório neste mês. Um dos estudos foi feito pelo próprio governo islandês em parceria com a BSRB, a principal associação de sindicatos do país, e o outro pelo governo municipal de Reykjavik, capital e maior cidade da ilha. Juntas, as iniciativas contaram com mais de 1% de toda a força de trabalho da pequena nação nórdica.

A ideia era testar se uma jornada menor, mas com o mesmo salário, impactaria na produtividade dos trabalhadores. Das 40 horas usualmente trabalhadas na semana, os islandeses escolhidos para o projeto piloto passaram a trabalhar apenas 35 ou 36 horas, dependendo de qual estudo faziam parte. Gradualmente, mais e mais profissionais foram incluídos nesse esquema, e de vários setores diferentes, como escolas, repartições públicas, hospitais e prestadoras de serviços sociais.

Aqui, vale um adendo: apesar de várias manchetes pelo mundo destacar as tais “semanas de quatro dias úteis” da Islândia, os experimentos não foram projetados para esse cenário especificamente. A intenção dos pesquisadores era descobrir o impacto da redução de horas semanais no trabalho como um todo. Acontece que alguns islandeses, combinando com seus gestores, decidiram concentrar essas 35/36 horas em apenas quatro dias da semana e transformaram o #sextou em um #quintou. Outros só trabalharam menos horas todos os dias, mas mantiveram a jornada de segunda a sexta.

Após seis anos do início do primeiro estudo, os tão esperados resultados vieram. E foram positivos: como era de se esperar, o bem-estar de todos os trabalhadores aumentou, os níveis de estresse e burnout caíram.  A produtividade dos participantes ficou mais ou menos estável, em alguns casos, até aumentou, reforçando aquela coisa que a gente intuitivamente sabe: produzimos mais quando estamos mais satisfeitos.

A melhora no bem-estar, segundo os participantes, se deu pelo aumento de tempo com a família e amigos e para ações de lazer e atividade física, por exemplo. Ao mesmo tempo, eles relataram que mudanças no ambiente de trabalho também foram necessárias para cumprir as atividades em tempo reduzido – como eliminar ou encurtar reuniões ou fazer menos pausas para o cafezinho com os colegas.

Nem tudo é tão simples assim, é claro. O estudo também notou que alguns setores não funcionariam tão bem com reduções de jornada. Na área de saúde, por exemplo, o governo teria que contratar mais profissionais para cobrir a demanda, que é essencial por motivos óbvios. Colocando na calculadora, isso custaria ao poder público islandês cerca de US$ 33,6 milhões extras por ano. Não é o fim do mundo para um país rico, pequeno e desenvolvido como é a Islândia – mas seria um problemão em outros países menos privilegiados.

Outros estudos do tipo foram feitos ou estão em andamento pelo mundo, como na Espanha e na Nova Zelândia. A maioria, porém, é em nível local; a Islândia teve o trunfo de analisar o cenário mais amplo, por ser um país minúsculo.

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