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Como ser designer de narrativa de games

Conheça a trajetória de Mariana Brecht, que migrou dos roteiros de TV e cinema para especializar-se numa profissão do futuro – que cresce agora mesmo, no presente.

Por Alexandre Carvalho | Fotos Carlos Pedretti | Design Brenna Oriá Atualizado em 3 set 2021, 14h12 - Publicado em 19 ago 2021, 16h34

Há um estereótipo do profissional que atua na indústria de games, que em alguma medida perdura até hoje: jovens nerds mesmerizados por um pagamento no fim do mês pelo que fariam de graça – isso até que a vida adulta imponha um “emprego de verdade”.

Faz tempo que não é o caso. Games se tornaram produtos tão fundamentais para a economia quanto geladeiras ou sacas de cimento – ainda que mais interessantes. No Brasil especificamente, ainda houve outra transformação. O país passou de importador de games estrangeiros para produtor (e exportador) de jogos.

Contribuíram para essa revolução as chamadas engines (ou motores gráficos) – softwares com um pacote de funcionalidades para a criação de um jogo, acabando com a necessidade de programar tudo do zero. A universalização do smartphone também ajudou, colocando um console em cada bolso. Surgiram, então, produtoras de diversos portes, de estúdios gigantes à molecada que cria jogos no quarto de casa e os vende para players internacionais.

“No Brasil, os grandes negócios incluem designers, programadores, roteiristas, artistas e até um pessoal que testa os jogos para conferir se tem algum bug”, explica Rodrigo Terra, presidente da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos (Abragames). “E cada vez mais temos empresas pensando só em B2B, produzindo games para educação corporativa e tendo os RHs das companhias como clientes.”

Na América Latina, o Brasil lidera: a indústria de games teve um faturamento de US$ 2,18 bilhões em 2020 (metade só com jogos feitos para celular), com um aumento de receita na casa dos 28%*.

Tudo isso fez com que o mercado de trabalho se expandisse – e se especializasse também. Atividades que antes eram centralizadas num mesmo faz-tudo – um programador que criava o jogo praticamente sozinho – foram repassadas a gente que entende de aspectos específicos do game, resultando num produto bem mais sofisticado.

Dessa busca por mão de obra expert, emergiu uma profissão que antes só se via no exterior: o designer de narrativa (fala-se também em inglês: narrative designer). É um tipo de roteirista, mas é bem mais que isso.

O designer de narrativa é multitarefas, tem diversas funções na criação do jogo. Primeiro quanto à história: ele cria o roteiro do game (às vezes em parceria com um roteirista raiz), desenvolve os personagens, os diálogos, os arcos narrativos, as curvas de emoção… Só que, no universo dos games, a narrativa vai muito além da história que o jogo contempla.

Esse profissional deve garantir que todos os elementos estejam contando a mesma história: cenário, interações, interfaces, efeitos sonoros, músicas e personagens. Ele precisa, então, estar no centro de um diálogo transversal com outras áreas do estúdio: dos artistas gráficos aos programadores mais hardcore. Ainda deve assegurar que tudo isso dê liga com a mecânica do produto. Se a direção encomendou um game em forma de quebra-cabeça, a narrativa deve combinar com a parte técnica criada para um puzzle. E aí saber pôr as mãos na tecnologia adianta o processo. Embora a experiência com roteiro baste para conseguir um emprego, será necessário mexer com os softwares de construção de jogo para sair de uma posição mais júnior.

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Carlos Pedretti/VOCÊ S/A

Testando… Testando…

O designer de narrativa ainda tem de se preocupar com custos. Fazer jogo é caro. E é um investimento cercado de riscos. Um diretor de cinema como David Lynch pode fazer um longa-metragem em que ninguém compreende bulhufas – mas ainda assim o espectador vê o filme até o fim, e pode até gostar. Nos games não é assim. Se o jogador não entender o enredo, o que deve fazer, ele não consegue avançar. Desiste do jogo. Para que isso não aconteça, o designer de narrativa faz todo um trabalho de pré e pós-produção.

Por exemplo: antes de ter o game rodando de fato, ele pode construir protótipos de personagens e cenários em papelão ou massinha. Tudo para contar à equipe envolvida qual deve ser a experiência do jogador.

Aliás, como também precisa definir o ritmo do jogo, o designer de narrativa pode produzir live actions: filmagens com bonequinhos (ou com ele próprio) realizando as ações do game, de modo que o programador entenda que o andamento deve ser mais ágil ou mais lento.

Não é só a história do game: o trabalho envolve desde fazer protótipos dos personagens com massinha até testes com usuários.

Quando o jogo entra em versões preliminares, o designer de narrativa ainda tem o trabalho de acompanhar usuários externos testando o produto, para conferir se houve algo que eles não entenderam, se travaram em alguma fase… E propor mudanças antes que muito dinheiro seja investido na versão final. Nessa fase de testes, o próprio designer de narrativa pode fazer as vozes dos personagens – melhor que gastar os tubos com dubladores e só depois descobrir um problema.

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Tantas funções exigem competências diversas – que muitas vezes só são desenvolvidas com a mão na massa mesmo. O que mais acontece é o profissional chegar com experiência de roteiro para TV e cinema. Embora existam faculdades de games, não há curso específico para designer de narrativa, profissão ainda restrita a estúdios maiores, que identificaram a necessidade de um especialista em conjugar roteiro com toda a dinâmica do jogo. Até porque os games não costumam seguir um caminho linear de história. São jornadas ramificadas, labirínticas. Parecidas com a carreira de Mariana Brecht, designer de narrativa do estúdio Arvore, de São Paulo.

Da diplomacia à realidade virtual

Mariana passou de fase algumas vezes antes de se firmar na profissão, há cerca de dois anos. Formada em Audiovisual pela USP, com especialização em roteiro e produção, ela fez, em seu TCC, um roteiro de longa-metragem com narrativa ramificada. Tudo dava a entender que seu destino era mesmo o roteiro não convencional. Mas aí veio o plot twist: após trabalhar em algumas produtoras, Brecht foi fazer mestrado em Estratégias Culturais Internacionais na França, com foco em diplomacia cultural.

Assim, viajou o mundo representando o Institut Français (órgão de governo que promove a cultura francesa no exterior). Isso até voltar ao Brasil e se deparar com um anúncio de emprego num grupo de mulheres roteiristas. Era justamente para fazer roteiro não linear – na Arvore, a maior produtora de games do país no campo da realidade virtual.

Era o início de uma jornada heroica de aprendizado. Mariana chegou com sua experiência de roteirista, mas logo se interessou pelos outros conhecimentos para atuar de forma plena na área. “Rapidamente você percebe que precisa entender um pouco de desenvolvimento de jogos, um pouco de programação, para saber se suas decisões na construção da narrativa encaixam com a mecânica.”

Ela aprendeu rápido e ajudou o estúdio a se destacar internacionalmente. Respondeu pela narrativa interativa do game A Linha, que ganhou o Primetime Emmy por “Outstanding Inovation”, no ano passado, assim como a premiação de “Melhor Experiência em Realidade Virtual” no Festival de Veneza.

Com apenas 30 anos, Mariana Brecht já separa um pouco do seu tempo para fazer mentoria com colegas juniores. “Acho importante criar uma cultura de narrativa dos jogos. Pelo fato de a profissão ser quase uma novidade, muitas empresas não têm um designer de narrativa, e a gente precisa toda hora estar se provando. Lembrando executivos e produtoras que narrativa não é só texto. Ela tem de estar em todas as decisões e fases do jogo”, ela explica. “Por isso, em cada projeto novo, tenho a sensação de que estou contribuindo para o desenho do que será essa profissão no futuro.”

Um dia na vida

Atividades-chave: criar o roteiro do game. Fazer alinhamentos com outras áreas da produtora para combinar cenário, interações, efeitos sonoros, música… Fazer protótipos. Acompanhar testes com usuários.

Quem contrata: produtoras de games, especialmente as maiores (nas pequenas, um game designer pode acumular essa função). Mas é um profissional que também pode trabalhar para TV e cinema.

Pontos positivos: é uma profissão nova, que vem ganhando cada vez mais destaque nas produtoras. E o mercado de games está crescendo. Como há necessidade de contato intenso com outras áreas, há aprendizado sobre diversas funções da produção de jogos.

Pontos negativos: é uma profissão nova. Isso faz com que as chances de trabalhar em produtoras pequenas sejam menores, limitando seu mercado de trabalho.

Principais competências: ser bom de roteiro, ter criatividade, facilidade de comunicação e trabalho em equipe. E vale muito aprender a usar software de construção de jogos. Entender de programação é desejável.

O que fazer para atuar na área: não existe graduação específica, então a maioria dos designers de narrativa vem de faculdades de audiovisual. Mas ser roteirista é o básico. Há cursos livres de construção de jogos, programação e prototipagem, que ajudam a formar um profissional mais atraente.

Salário**: de R$ 3 mil a R$ 12 mil

*Fonte Newzoo
** Fonte: Abragames

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