Trump deu um basta no trabalho remoto. Veja por que o mundo não deveria seguir descuidadamente

O presidente dos EUA obrigou todos os funcionários federais a voltarem ao trabalho 100% presencial. Mesmo que empresas privadas tenham liberdade de decidir as jornadas de seus empregados, elas não deveriam ir na onda do presidente.

Por Julia Richardson, The Conversation
Atualizado em 28 jan 2025, 18h22 - Publicado em 28 jan 2025, 18h00
Foto do presidente dos EUA, Donald Trump.
 (Anna Moneymaker/Getty Images)
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O presidente dos EUA, Donald Trump, deu um tempo no home office. Uma ordem executiva assinada no primeiro dia de seu mandato requer que todos os departamentos e agências do governo federal “tomem todas as medidas necessárias para encerrar os acordos de trabalho remoto e exigir que os funcionários voltem a trabalhar presencialmente.

Existem alguns modelos diferentes de trabalho remoto. Estritamente falando, trabalho remoto é quanto os funcionários trabalham de uma localização alternativa (geralmente sua própria casa) de uma forma permanente e não são obrigado a se apresentar no escritório.

Isso é diferente do “teletrabalho”, um modelo híbrido em que funcionários trabalham de casa por um número específico de dias da semana. Contudo, está claro que Trump que acabar com o teletrabalho também.

De acordo com as diretrizes divulgadas na quarta-feira, as agências federais tiveram até às 17h, horário local, em 24 de janeiro para atualizarem suas políticas de teletrabalho exigindo que todos os funcionários voltem ao escritório em tempo integral dentro de 30 dias.

Obviamente, Trump não pode acabar com o trabalho em casa para todos – organizações privadas podem definir suas próprias políticas. Mas o governo dos EUA é um empregador expressivo, com mais de 3 milhões de funcionários.

De acordo com a Federação Americana de Funcionários do Governo (AFGE), cerca de 10% dos funcionários federais são totalmente remotos. O impacto desta ordem será de longo alcance.

Trump puxa o tapete abruptamente

O movimento de trabalho em casa foi uma mudança global profunda, provocada pela pandemia da COVID. Estamos vivendo com isso há cinco anos.

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Funcionários federais que já trabalham remotamente há um tempo considerável provavelmente fizeram decisões significativas para sua vida pessoal com base em seus acordos de trabalho flexíveis.

Isso pode ter influenciado onde eles compraram uma casa, em qual escola seus filhos estudam e no que seu cônjuge ou parceiro faz para trabalhar.

A ordem de Trump provavelmente terá um efeito cascata dramático nas famílias dos trabalhadores e em outros arranjos e responsabilidades de vida.

É verdade que chefes de departamento, gerentes e supervisores federais poderão fazer algumas exceções — inclusive por deficiência, condição médica ou outro “motivo convincente”.

Mas a mensagem é clara. O que tem sido uma tendência crescente, mas informal, entre alguns empregadores em todo o mundo de “trazer os funcionários de volta ao escritório” agora está sendo incorporado à política do governo dos EUA.

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Por que a retaliação?

A ordem executiva de Trump reflete preocupações de longa data entre alguns empregadores e gerentes que acham que é simplesmente melhor ter funcionários no escritório.

Eles argumentam, entre outras coisas, que o trabalho no escritório torna mais fácil ficar de olho no desempenho e estimula uma colaboração mais cara-a-cara. Também faz melhor uso de imóveis, muitas vezes muito caros.

A Amazon ordenou recentemente que todos os seus funcionários voltassem ao escritório cinco dias por semana. Outras pesquisas sugerem que muitos empregadores estão planejando uma repressão este ano.

Planejadores urbanos e certos negócios também lamentaram o impacto do trabalho remoto e flexível em restaurantes, lavanderias e cafeterias que dependem do comércio feito no deslocamento para o trabalho.

O que pode ser perdido?

Alguns funcionários podem realmente acolher o retorno ao escritório, especialmente aqueles que preferem mais interação social e querem se tornar mais visíveis.

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A visibilidade geralmente está associada a mais oportunidades de promoção e desenvolvimento de carreira.

Outros acharão a mudança chocante e podem perder uma série de benefícios aos quais se acostumaram.

Um relatório de 2023 do laboratório de ideias de políticas EconPol Europe descobriu que trabalhar em casa se tornou mais prevalente em países de língua inglesa.

Ele sugeriu forte apoio, dizendo: “a maioria dos trabalhadores valoriza muito a oportunidade de trabalhar em casa por uma parte de sua semana de trabalho, com alguns dando importância significativa a isso”.

Muitos também queriam trabalhar mais dias em casa do que seus empregadores estavam dispostos a permitir.

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Uma análise recente do Comitê para o Desenvolvimento Econômico da Austrália (CEDA) descobriu que trabalhar em casa aumentou significativamente a participação da força de trabalho para dois grupos principais: mães trabalhadoras e pessoas com deficiência ou condição de saúde.

Muitos funcionários agora priorizam acordos de trabalho flexíveis, e alguns estão dispostos a sacrificar parte de seu salário pelo privilégio.

Os acordos de trabalho em casa também oferecem aos indivíduos que vivem em comunidades remotas acesso ao emprego. Esse é um benefício de mão dupla, que permite os empregadores explorarem um espaço amostral maior de talentos.

Outros países vão seguir o exemplo?

A ordem executiva de Trump pode ter impactos grandes e imediatos sobre os trabalhadores federais nos EUA, mas não está claro se haverá efeitos dominó aqui. Não seria sensato para o governo australiano ou grandes empregadores adotarem uma abordagem geral.

De fato, algumas empresas multinacionais dos EUA com escritórios na Austrália podem ser pegas no movimento de retorno ao escritório de Trump.

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No curto prazo, é improvável que essa mudança forçada chegue à Austrália. Embora as tendências sociais viajem entre regiões, cada país tem suas próprias leis trabalhistas, costumes e tendências.

Pesquisadores mostraram que pode ser difícil, e em alguns casos impossível, transferir práticas de recursos humanos entre países e entre culturas.

A geografia da Austrália pode ser um fator a favor do trabalho remoto. Uma proibição completa teria imediatamente um impacto negativo nas oportunidades de emprego para trabalhadores talentosos nas regiões.

A mensagem principal para empregadores e formuladores de políticas australianos é que os benefícios do trabalho remoto não são apenas para os funcionários.

Pode melhorar o desempenho de uma organização, ampliando o conjunto de talentos para incluir não apenas aqueles que vivem longe do escritório, mas também trabalhadores talentosos que, de outra forma, seriam excluídos.

Julia Richardson é Professora de Gestão de Recursos Humanos e Chefe da Escola de Administração na Curtin University, na Austrália.

Este artigo foi republicado do The Conversation. Leia o artigo original.

Este artigo foi traduzido do original em inglês por Leo Caparroz, repórter da Você S/A.

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