Algumas vozes são, cientificamente, mais memoráveis do que outras
Um estudo feito por psicólogas da Universidade de Chicago mostrou que características acústicas de uma voz fazem ela ser mais difícil de esquecer.

Você já teve dificuldade de se lembrar da voz de alguém? Você conhece aquela pessoa, mas não consegue por nada lembrar de como é a voz dela? Pode não ser uma questão de memória exclusivamente sua, já que um grupo de pesquisadoras da Universidade de Chicago acredita que certas vozes são mais fáceis de lembrar do que outras.
Publicado no periódico Nature Human Behaviour, o estudo delas analisa a “memorabilidade” de certas vozes, que seria “a probabilidade delas serem lembradas”. A palavra é um jeito um pouco complicado de dizer que algo é memorável.
Para chegar nessa conclusão, as pesquisadoras utilizaram um banco de dados com centenas de clipes de vozes americanas – todas dizendo a mesma frase. Depois, os mais de 3 mil participantes do experimento deveriam ouvir uma sequência de áudios e pressionar uma tecla toda vez que reconheciam a voz na gravação.
A partir disso, as pesquisadoras fizeram uma “pontuação de memorização” para cada um dos clipes de voz usados, calculando a extensão em que os participantes se lembravam deles, em média. Isso permitiu que elas determinassem o quão semelhantes eram as avaliações dos participantes e seu desempenho de memória.
“Encontramos consistência significativa nos clipes de voz que eles se lembravam e se esqueciam”, afirma Cambria Revsine, principal autora do artigo e membro do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago. “Finalmente, para prever esse desempenho de memória, medimos dezenas de características acústicas das vozes, relacionadas a aspectos como tom e harmônicos, bem como características de nível superior, como dialeto e traços de personalidade avaliados subjetivamente, conforme medidos em um experimento adicional.”
Revsine e suas colegas posteriormente combinaram todas essas características acústicas e de nível superior das gravações de voz em um modelo computacional. Usando vários recursos relacionados ao seu tom, volume e ritmo, esse modelo conseguiu prever, com precisão, o quão memorável uma voz seria.
“Descobrimos que as pessoas são surpreendentemente semelhantes nas vozes que lembram e esquecem, independentemente de diferentes experiências passadas, estados de atenção e muito mais”, disse Revsine. “Os participantes não apenas eram consistentes em sua memória para os clipes de voz, mas também tinham memória consistente para os próprios falantes, em várias frases faladas. Além disso, nossos resultados nos ajudam a entender por que lembramos de certas vozes e não de outras, descobrindo que certas propriedades acústicas, como tom e volume mais altos, aumentam a memorização da voz.”
Os resultados interessantes reunidos pela equipe podem contribuir para a compreensão de como as vozes são representadas no cérebro e lembradas ao longo do tempo. Além disso, a observação de que algumas vozes são mais memoráveis do que outras pode ter várias implicações práticas e pode ser aproveitada em vários cenários do cotidiano.
“A pesquisa sobre memorabilidade intrínseca — as consistências no que as pessoas lembram e esquecem — é uma área relativamente nova, mas ativa, da psicologia cognitiva”, afirma Revsine. “Muitos estudos do nosso laboratório e de outros exploraram extensivamente esse fenômeno na última década, descobrindo que os participantes tendem a lembrar das mesmas imagens de rostos, cenas, objetos e muito mais. No entanto, nenhum estudo anterior, até onde sabemos, investigou a memorização de estímulos auditivos.”
Segundo as pesquisadoras, o próximo passo agora é analisar a memorabilidade de vozes quando o conteúdo falado varia – já que, no estudo, todos os áudios eram da mesma frase. Elas querem investigar o quanto essas características memoráveis de um falante podem ajudá-lo a ter sua voz lembrada. “As pessoas lembram melhor do que um falante memorável disse do que um falante esquecível, independentemente do que estejam dizendo?”