Você é refém dos seus próprios medos?

O professor George Kohlrieser, da escola de negócios suíça IMD, explica como nossa atitude pode nos transformar em reféns de nós mesmos

O modo como lidamos com uma situa­ção adversa importa muito mais do que os fatores que a causam. É o que defende o americano George Kohlrieser (na foto, arte de Maurício Planel), diretor do programa de liderança e comportamento organizacional da escola de negócios IMD, na Suíça. “Quando você acredita que se trata de uma situação negativa, torna-se um refém”, diz George. O melhor jeito para lidar com o estresse não é lutar contra o problema, mas tornar-se flexível para ver o lado bom de uma situação adversa. Pode parecer otimismo ingênuo, mas afastar a negatividade é a melhor maneira de enfrentar demandas do trabalho e da vida pessoal sem cair numa paralisia improdutiva. Em entrevista à VOCÊ S/A, George explica como transformar o estresse em algo útil.

Como atravessar períodos de estresse?

O importante é saber como lidar com uma adversidade. Pesquisas recentes mostram que o problema não é o estresse em si. Na verdade, situações negativas podem até diminuir o nível de infartos. Mas isso só ocorre quando você acredita que pode lidar com o estresse ou aprender com a experiência. Quando você acredita que aquela situação é negativa, torna-se um refém. É o caminho para ter um problema de saúde. Mudanças sempre vão surgir e você deve estar preparado para lidar com elas. O melhor modo de agir é ter jogo de cintura e ser forte. Fala-se muito de resiliência hoje em dia porque ela é mesmo essencial. Quando algo não dá mais certo, é hora de dizer adeus ao que funcionava antes e olhar para o que vem de novo.

O senhor diz que muitos profissionais se sentem reféns de si mesmos. Por quê?

Muitas pessoas têm uma mentalidade negativa e sentem que não têm poder sobre a própria vida. Ficam presas a sentimentos de raiva, arrependimento, culpa, luto e não conseguem deixar para lá. É o que chamo de virar vítima, ou refém, de uma situação adversa. Os principais sintomas são fazer algo que você não quer fazer e sentir-se mal a respeito, reclamar demais, olhar apenas para o que está dando errado. O maior problema é perder a curiosidade. Quem se torna refém de si mesmo fica apático. Muitos são reféns e nem sabem.

Por que temos essa tendência de olhar para o lado negativo?

Tem a ver com o modo como o cérebro funciona. A mente é paradoxal. Odeia a dor, mas, para evitá-la, passa a procurar por ela. Pessoas que têm muito medo ou tiveram experiên­cias ruins têm a percepção das coisas alterada. Elas passam a procurar pelo perigo para poder preveni-lo. O negativo se torna a norma para enxergar a vida.

Sentir-se sem escolha é caminho certo para o estresse paralisante. (Crédito: Pixabay)

Isso piora em um cenário de muitas demandas e ansiedade alta?

Está ficando mais difícil. Encontramos fatores estressantes na tecnologia, no ambiente, em coisas que temos de fazer para a família ou para o trabalho. Mas o que as pessoas precisam responder é: quantas demandas querem e podem realmente atender. Querer fazer tudo suga sua energia e faz com que você se sinta preso. O resultado é que elas perdem a energia, perdem o foco e não conseguem mais encontrar propósito nem satisfação. O ideal é estar apto a escolher e reagir para observar o lado bom da vida, do trabalho e fazer aquilo que você quer de verdade.

O senhor ministra seu curso sobre resiliência em vários países. O que notou a respeito dos executivos brasileiros?

O que vejo é que os brasileiros são ótimos para criar relacionamentos sociais e emocionais, a energia deles para isso é alta. O contraponto é que profissionais brasileiros costumam se distrair com facilidade, e manter a concentração na execução de uma tarefa é um desafio. Os brasileiros também têm uma atitude diferente em relação à autoridade. Ou são muito rebeldes e desafiadores ou são submissos, com medo de falar com o chefe. O ponto alto é a curiosidade. Os brasileiros estão abertos a pensar no futuro e a inovar. Outros países têm a cabeça mais fechada e não são tão curiosos.

 

Negociador de reféns

De onde o professor George Kohlrieser tirou a teoria sobre ser refém de si mesmo

 

Formado em psicologia, o professor George Kohlrieser tem autoridade para escrever um livro sobre reféns. Foi ajudando a polícia a negociar com sequestradores que ele começou sua carreira. Num caso, ele mesmo acabou refém. Com base nessa experiência, desenvolveu a teoria de que as pessoas são vítimas de si mesmas, dependendo do modo como encaram o mundo. Como os criminosos, as pessoas são movidas pelo medo de perder algo e pela sensação de não ter escolha. No trabalho, é a mesma coisa. “Por causa do estresse, as pessoas ficam na defensiva e tentam manter tudo como está”, diz George. Mas o resultado é que elas se tornam reféns da situação. Tentar resistir a um fator de estresse e ficar com uma postura defensiva é falhar em reagir e escolher a melhor resposta para cada situação.

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