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Como ser um profissional notável

Fazer seu trabalho aparecer e encontrar aliados é fundamental em tempos de avaliações colegiadas e julgamento de outros pares

Por Bárbara Nór Atualizado em 17 dez 2019, 15h26 - Publicado em 28 out 2015, 10h00

SÃO PAULO – Sair da rotina empolga a paulista Paula Roschel, de 26 anos, advogada da Locaweb, empresa de hospedagem de sites, de São Paulo. A oportunidade perfeita de ampliar seu repertório e parar de pensar só em assuntos jurídicos ocorreu em janeiro, quando Paula participou da Innovation Week, um programa da Locaweb que promove a integração dos funcionários de diferentes áreas para desenvolver – durante uma semana – projetos de melhoria ou inovação. “O jurídico sempre foi mais isolado e essa era uma chance para mostrar meu trabalho”, diz Paula. 

Animada com a oportunidade, a advogada desenvolveu, ao lado de três colegas dos setores de produtos, marketing  e jurídico, um novo produto (ainda sigiloso) que será lançado no ano que vem. “Agora entendo como as áreas funcionam e o que posso fazer além das minhas obrigações”, diz Paula. 

Aproveitar iniciativas como essa para circular entre departamentos, conhecer outras pessoas do negócio e fazer o próprio esforço ser notado é uma estratégia poderosa para se destacar num mercado que vem apostando em análises de desempenho mais amplas.

 As avaliações 360 graus, que incluem o veredicto do chefe, subordinados e pares sobre a performance de um profissional, por exemplo, eram usadas por apenas 31% das companhias que integravam o Guia VOCÊ S/A – As 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar em 2011. No ano passado, esse índice saltou para 51%. O mesmo acontece com os comitês de avaliação. Febre entre as multinacionais, esses encontros colocam num mesmo espaço líderes de diferentes áreas (e às vezes até de países) para julgar o desempenho dos funcionários. “O trabalho hoje é colaborativo, não faria sentido só uma pessoa avaliar a outra”, diz Claudia Ajbeszyc, gerente de recursos humanos da Locaweb.

Isso significa que não basta mais fazer bem suas tarefas e se preocupar com a cara feia do chefe. Há outros olhares voltados para você. Ter uma boa reputação entre os chamados clientes internos pode pesar positiva ou negativamente na sua avaliação – e determinar uma promoção, expatriação ou aumento salarial. 

Nessa conta, além da competência técnica, entra também a maneira como você se relaciona com os outros. “O que vai pesar para quem está longe é o seu comportamento e como você agiu nas vezes em que encontrou aquela pessoa”, diz Filipe Fonoff, consultor da Fischer Consultoria e da Fundação Instituto Administração (FIA), de São Paulo. Se em um comitê de avaliação ou no feedback 360 graus só seu chefe souber qual é seu perfil técnico e comportamental, você corre o risco de perder boas oportunidades na empresa. O desafio é aprender a circular e ser reconhecido por gente de vários perfis (e setores) e, de preferência, influenciadores no negócio. 

Sim, essa é uma habilidade política que pode – e deve – ser desenvolvida. Afinal, mesmo nos ambientes mais colaborativos, há sempre uma disputa por poder. Sem recursos suficientes para movimentar todo mundo ao mesmo tempo, as companhias jogam as decisões mais delicadas e importantes sobre o seu crescimento profissional nas mãos dos vários líderes. 

Para alguns, essa é uma atitude muito subjetiva. Para outros, mais justa. O fato é que você está no meio desse campo e quanto mais gente conhecer o seu trabalho, melhor. “É uma arena política. Os líderes disputam por tempo, dinheiro ou atenção da direção”, diz Joel Dutra, professor da FIA, de São Paulo. Dessa arena corporativa é que saem as decisões sobre quem merece um aumento, uma bolsa de estudos ou uma oportunidade em outro país. “As pessoas têm arrepio dessa palavra, mas a organização é um ambiente político”, diz Leni Hidalgo, professora do Insper, em São Paulo. Se seus resultados são consistentes e bem vistos por vários chefes, as chances de ser bem falado e de encontrar aliados nesse plenário aumentam. 

Esses modelos de avaliação podem incomodar um pouco porque, no Brasil, temos uma cultura personalista no ambiente corporativo. “Trabalha-se muito para o chefe e nos esquecemos do restante”, diz Marco Tulio Zanini, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro. 

Aprender a transformar esse perfil e a se expor mais não tem a ver com mudança de temperamento, mas com a adoção de uma postura mais assertiva e colaborativa. “Não é para ser arroz de festa, mas para ocupar seu espaço e procurar ajudar as pessoas”, diz Joel. Parte desse novo jeito de se comportar tem a ver com a maneira como você vai se aproximar dos colegas. O segredo é encontrar o equilíbrio entre a simpatia excessiva e a postura profissional gelada. Não é fácil, mas existem formas sutis de cavar seu espaço e fazer os holofotes virarem para você. 

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Novos horizontes 

Além de se inscrever em programas da própria empresa, como fez Paula, da Locaweb, uma maneira simples de começar a circular sem parecer marqueteiro (veja o quadro da página ao lado) é atuar em frentes do seu interesse pessoal – e que são também importantes para a companhia onde você trabalha. Douglas Santos, de 38 anos, gerente de sistemas da Bayer, empresa do ramo químico, foi por esse caminho. Os questionamentos do paulistano eram estritamente pessoais, mas sua coragem em fazer perguntas valeu a pena. Quando já estava havia três anos na companhia, Douglas se preparava para casar e ter uma filha. Falar sobre isso no ambiente de trabalho pode ser rotineiro para muita gente, mas era um desafio para o gerente. Motivo: Douglas é homossexual e adotaria uma filha com seu parceiro. Ao procurar a área de recursos humanos para saber dos seus direitos, ele teve uma feliz surpresa. Não só do ponto de vista pessoal mas de carreira também.

 Na época, a Bayer estudava a criação de um comitê de diversidade e Douglas foi convidado a integrá-lo – o que faz até hoje. Seu ingresso nesse grupo acabou servindo para colocá-lo em contato com diversas áreas. Ele participa de reuniões periódicas com diretores e o presidente e de fóruns globais em escritórios da Bayer em outros países. “Sou procurado até por profissionais da fábrica, com os quais não teria contato, que querem compartilhar questões de diversidade”, diz Douglas.

 Tudo isso serviu para que o paulistano (promovido duas vezes em seus anos de Bayer) fosse mais reconhecido dentro da companhia, que também adota a avaliação por comitês. Por lá, as impressões do gestor são calibradas com as dos pares. “Se as pessoas trabalham em colaboração, nada mais transparente do que ter uma avaliação que reflita isso”, diz Andrea Norfini, líder de aquisição de talentos da Bayer.

Comitês e projetos interdisciplinares são um ótimo meio para mostrar aos outros quem você é o que você faz, pois eles representam portas de entrada para conversar com pessoas com as quais você não teria, teoricamente, nenhum contato. Além disso, um comitê normalmente é algo estratégico para a empresa, e estar ali mostra que você entende quais são os valores da companhia – e que está alinhado com eles.

 Mas a atuação deve ser ativa e, por isso, o melhor é escolher um grupo que realmente tenha a ver com seus interesses, pois comitês costumam exigir dedicação depois do expediente. Nada de se infiltrar em algum grupo apenas para aparecer. “É importante procurar projetos que sejam desafiadores e se envolver com pessoas diferentes”, diz Alexandre Prates, coach de São Paulo. “O pior é ficar em panelinha no trabalho.”

Não é necessário, porém, esperar a criação de um comitê ou de um programa da empresa para aumentar sua visibilidade. O dia a dia também oferece boas oportunidades para isso. Em várias reuniões de rotina haverá uma, duas ou mais pessoas que não trabalham na mesa ao lado para as quais você pode mostrar o que pensa sobre os assuntos pautados. 

Por isso, se tiver uma boa argumentação ou um ponto que seja relevante, divida sua opinião com os outros. “O pior é falta de posicionamento. Ter medo de falar pode parecer apatia”, diz Alessandra Ferreira, coach do Rio de Janeiro. Claro que não é falar por falar. O melhor é prestar atenção no que está sendo discutido e levantar dúvidas ou se posicionar a respeito do tema. E, sempre que possível, buscar entender como a sua área está atendendo aos outros. 

Vale lembrar que, antes de qualquer coisa, é preciso definir qual imagem você quer passar. Antes de circular pela empresa e procurar aliados, pense em quais são os valores e características que melhor definem sua postura profissional. Se é um ótimo técnico, por exemplo, e adora se aperfeiçoar, talvez a melhor imagem seja a de alguém sempre disposto a compartilhar conhecimento especializado com os outros.

 Se o seu ponto forte é a negociação, o melhor jeito de se fazer conhecer pode ser pela facilidade em lidar com pontos de vista diversos. “Muitos querem ser vistos, mas não pensam em como querem ser vistos”, diz Flora Victoria, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Coaching, de São Paulo. Só não se esqueça de que, no final das contas, de nada adianta ser notado e admirado pelos colegas se o seu trabalho não for eficiente. Política e diplomacia sozinhas não seguram a falta de bons resultados. 

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