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Como a insegurança faz mulheres sabotarem a própria carreira

Se não bastasse os homens que duvidavam da competência das mulheres, especialistas dizem que elas mesmas não acreditam tanto em si quanto deveriam. Mas há armas para aumentar a confiança e se desenvolver

Por Por Gabriella Sandoval Atualizado em 17 dez 2019, 15h22 - Publicado em 7 abr 2016, 11h39

>>Esta matéria foi publicada originalmente na edição 201 da revista Você S/A, em Março de 2015, com o título “Insegurança feminina” e pode conter informações desatualizadas


Quando pensam em se candidatar a uma promoção, as mulheres precisam ter certeza de que têm 100% das atribuições exigidas. Se tiverem 99%, nem cogitarão almejar o cargo. Os homens são diferentes. Quando acham que têm cerca de 60% das competências, já correm atrás. As informações fazem parte de uma pesquisa mundial feita pela empresa de tecnologia HP sobre o mercado de trabalho feminino e trazem à tona uma questão que tem assombrado cada vez mais mulheres: na vida profissional, elas são mais inseguras do que eles. O que significa que, mesmo sendo maioria nas universidades e mesmo com as empresas começando a se empenhar com programas de inclusão e estímulo ao desenvolvimento das funcionárias, inconscientemente, elas sabotam o próprio crescimento. “Embora se prepare muito, a mulher ainda tem dificuldade de provar para si mesma e para a empresa que dará conta do recado”, diz Cris Kerr, organizadora do Fórum Mulheres em Destaque, de São Paulo. Talvez esse seja um dos muitos motivos por que elas são exceção no alto escalão das empresas – entre as companhias que compõem o Guia VOCÊ S/A – As 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar, só 7% têm mulheres na presidência.

Para entender o porquê dessa falta de confiança, as americanas Katty Kay e Claire Shipman, autoras do best-seller Womenomics, escreveram o livro The Confidence Code (“O código da confiança”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil). As autoras conheceram de perto mulheres poderosas e sentiram que, mesmo quando estavam no topo, elas achavam que não mereciam estar ali. “As mulheres falam que deram sorte de chegar aonde chegaram, coisa que os homens raramente dizem”, diz Katty Kay, em entrevista à VOCÊ S/A. “Isso nos levou a questionar se as mulheres eram, de fato, menos confiantes.” E a resposta das autoras, depois de compilar pesquisas e conversar com várias profissionais, é “sim”.

Além da questão comportamental, há explicações biológicas para isso. Falar que os hormônios influenciam as atitudes femininas não é só um clichê, mas um fato: cientistas descobriram que a atuação do estrogênio (principal hormônio feminino) no cérebro faz com que as mulheres tenham mais facilidade em criar laços e conexões e mais dificuldade para discordar e correr riscos – essas últimas atitudes são, muitas vezes, necessárias para aumentar a confiança. Outro fator é que as mulheres costumam ativar a amígdala cerebral (parte fundamental do sistema límbico, que controla as emoções) com mais facilidade do que os homens. O resultado? Muito tempo gasto remoendo os erros do passado e temendo o futuro. A natureza não está a favor, mas dá para mudá-la.

Menos neura, mais segurança

Confiança nada mais é, nas palavras do psicólogo Richard Petty, professor na Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, do que “a coisa que transforma pensamentos em ação”. Por isso, as mulheres precisarão parar de pensar tanto e agir mais se quiserem ser mais confiantes. “Viver numa zona de conforto pode se tornar monótono e triste. Portanto, ajam. A ação separa os tímidos dos ousados”, dizem Claire e Katty em um trecho do livro. Claro que é importante ponderar sobre o que fazer e sobre os riscos atrelados a cada passo – desde que isso não paralise a tomada de decisão. Por mais difícil que seja, as mulheres têm de aprender a se posicionar e a bancar as próprias ideias, como faz Vanessa Castanho, de 42 anos, diretora de vendas e rede da Renault, fabricante de carros. Primeira gerente regional da indústria automobilística brasileira, ela começou como estagiá­ria e precisou se posicionar (e se impor) para tornar-se respeitada em um universo masculino. “Não ajo como um homem e tenho um estilo próprio de trabalho”, diz Vanessa. “Mas não hesito: quando traço um objetivo, não penso se vou ou não cumpri-lo, mas como farei isso.”

A segurança vem de dentro. Por isso, é fundamental olhar para si mesma e mapear as virtudes para aumentar a certeza de que é competente. Um cuidado deve ser tomado: não transformar essa avaliação em uma competição pessoal e pender para o perfeccionismo – descomunal nas mulheres. “Profissionais em altos cargos tendem à autocrítica e à exigência exageradas”, diz Pamela Magalhães, psicóloga de São Paulo. Tudo pela sombra de que, para assumir certos cargos, deve-se provar o tempo todo que é a melhor opção.

Quem se transformou para lidar com o fantasma do perfeccionismo foi a advogada Camila Lastra, de 32 anos, ouvidora da SulAmérica Seguros, de São Paulo. “No começo, eu me dedicava umas 14 horas por dia, inclusive aos sábados, e ia para casa me sentindo culpada”, diz Camila. “Considerava qualquer erro bobo inadmissível.” Mas, ao receber, em maio de 2014, a tarefa de resolver as demandas que a seguradora recebe todos os meses de clientes insatisfeitos, Camila decidiu que era hora de mudar. Fez terapia, reformulou a equipe e modificou processos que antes não surtiam efeito, como o de mandar e-mails em vez de telefonar para os clientes. Em menos de um ano, a porcentagem de casos resolvidos sem nenhuma intervenção judicial saltou de 65% para 90%. “Confiar em meu trabalho e passar essa confiança para meus diretores e minha equipe foi fundamental para atingir esse resultado”, diz Camila.

O mito da Mulher-Maravilha

Conciliar a vida pessoal com a carreira é mais um fator que aumenta a insegurança feminina. Uma pesquisa feita pela consultoria McKinsey com mais de 1 000 pessoas mostra que, enquanto 86% dos homens acreditam que chegarão a ocupar um cargo executivo, apenas 69% das mulheres dizem o mesmo. Outro levantamento, esse da consultoria Bain&Company, revela que, quando mulheres ingressam no mercado, metade aspira a um cargo de alta gerência. Após cinco anos, só 16% delas têm a mesma ambição, enquanto 34% dos homens acreditam que chegarão lá. A falta de confiança pesa, mas há outro problema: por achar que têm a obrigação de dar conta, sozinhas, de todas as responsabilidades profissionais e domésticas, as mulheres recuam quando se veem diante de uma promoção. A autocrítica é tamanha que, apesar de estudos mostrarem que mulheres em cargos de liderança contribuem mais para o sucesso das empresas (quando compõem os conselhos de administração, trazem para as companhias um lucro bruto 48% superior), elas ainda se sabotam.

A melhor maneira de contornar essa angústia é compartilhar as responsabilidades. A romena Alina Asiminei, de 38 anos, diretora de marketing e produto da Philips para a América Latina, empresa de bens de consumo, percebeu que dividir as atribuições pode ser a melhor maneira de aumentar a confiança. Há dez anos no Brasil, com uma agenda cheia de viagens, Alina dá autonomia ao time, pois só assim tem tempo para fazer atividades que considera importantes, como buscar a filha na escola. “Gosto de ter sucesso, mas gosto de viver e, para isso, tenho de dividir responsabilidades”, diz Alina. Só alcançamos um equilíbrio parecido com o de Alina quando deixamos de imaginar e começamos a fazer. Desistir de algo por achar que suas prioridades não são importantes é um erro que só aumenta a insegurança. Como dizem Katty e Claire: “Nada constrói mais a confiança do que a ação”.

//PARA SABER MAIS

>>Womenomics, de Katty Kay e Claire Shipman (Elsevier, 55,90 reais)

>> The Confidence Code, de Katty Kay e Claire Shipman (Harper Collins, 34 reais, e-book na Amazon Brasil)

>>Faça Acontecer, Sheryl Sandberg (Companhia das Letras, 36 reais)

 


5 Passos Para Melhorar a confiança

 

Os conselhos de Judith Humphrey, do The Humphrey Group, empresa canadense de treinamentos sobre diversidade, para combater a insegurança

1. Melhore sua comunicação

Quando expuser suas ideias, fale com convicção. Mostre-se forte, clara, articulada. Assim, as pessoas vão ouvi-la e prestar atenção em você.

2. Evite o pessimismo

Às vezes, ouvimos uma voz nos dizer que não somos boas o bastante ou que não devemos nos manifestar. Silencie essa voz para expressar suas opiniões.

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3. Não se desculpe

As mulheres tendem a usar frases do tipo “desculpe por interromper” ou “você se importaria se…” Essas frases denotam passividade. Melhor ter assertividade para mostrar que sabe o que está dizendo.

4. Mantenha a postura ereta

É comum que as profissionais se encolham durante reuniões e apresentações, cruzando os braços ou se inclinando para a frente. Isso mina a autoconfiança. Mantenha a coluna ereta e faça contato visual com quem estiver falando.

5. Levante a mão

Tenha coragem de expor seus pontos de vista durante uma reunião. Esse é o primeiro passo para ser ouvida e respeitada.


 

Faça mais e pense menos

 

Autora do livro The Confidence Code, ao lado da jornalista Claire Shipman, a americana Katty Kay afirma que as mulheres precisam perder o medo de arriscar e começar a agir

O que as levou a escrever sobre confiança feminina?

Depois de entrevistar muitas mulheres que expressavam dúvidas sobre seu valor e diziam coisas como “eu estava no lugar certo, na hora certa; por isso tenho esse emprego incrível”, começamos a questionar se as mulheres eram menos confiantes do que os homens.

Alguma descoberta as surpreendeu?

Os homens tendem a superestimar suas habilidades, enquanto as mulheres as subestimam. Outra coisa que nos surpreendeu foi o fato de a autoconfiança ser parcialmente genética. Tivemos nossos genes testados para o livro e descobrimos que nenhuma de nós nasceu com um DNA confiante. Temos de aprender a desenvolver essa habilidade.

Quais mulheres podem ser consideradas símbolos de confiança nos dias de hoje?

No livro, mencionamos Malala (a jovem ativista paquistanesa que sofreu um atentado por defender o direito das meninas à educação) como exemplo, porque ela é uma pessoa que acredita no sucesso de suas ações. Outra pessoa muito confiante que entrevistamos para o livro é Christine Lagarde, a primeira diretora-gerente a comandar o Fundo Monetário Internacional. Ela une confiança e autenticidade – uma combinação muito poderosa.

É possível melhorar a confiança em si mesma?

Sim. A confiança vem do fato de nos prepararmos para fazer coisas novas e difíceis e não desistir. Vem da ação, de levantar a mão em uma reunião de alto nível, de pedir um aumento e de assumir novos desafios. Temos de realizar coisas difíceis. Quando fazemos isso, conseguimos expandir nossa autoconfiança naturalmente.

O perfeccionismo é um dos principais exterminadores da confiança. Por quê?

As mulheres são 25% mais propensas ao perfeccio­nismo do que os homens, e isso nos prejudica. Se você quer ser perfeccionista, é enorme a probabili­dade de não arriscar, por medo de falhar – e o custo disso é alto. Outro fator que extermina a confiança é remoer as coisas e insistir nos erros. As mulheres fazem muito isso. Precisamos afugentar esses pensamentos ruins.

O que você diria às mulheres que queiram lutar contra a insegurança?

O que vocês precisam é simples: agir mais e pensar menos. 

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