O Nordeste torna-se uma nova vitrine para executivos

Depois de levar fábricas e centros de distribuição, empresas abrem escritórios no Nordeste, aumentando as oportunidades de carreira corporativa na região

Se o resultado das urnas revelou um país dividido, com a presidente reeleita Dilma Rousseff vencendo nos estados do Norte e do Nordeste e o candidato derrotado Aécio Neves em primeiro lugar nas demais regiões, um mapa da economia e do emprego revelaria um rompimento semelhante. Segundo o Banco Central, o PIB do Nordeste cresceu 2,12% no primeiro trimestre e 2,55% no segundo. No mesmo período, a economia brasileira encolheu 0,2% e 0,6%, respectivamente.

Nos últimos dados oficiais, de setembro, o Nordeste liderou a geração de empregos no Brasil, com 63 029 postos abertos, ante 27 262 do Sudeste e 21 535 do Sul. Foi também a região onde o saldo de empregos mais cresceu nos últimos 12 meses — alta de 2,5%, diante de 1,46% da média nacional e 0,82% da Região Sudeste. Com o resto do país estagnado, obter bons resultados no Nordeste virou uma questão fundamental para as empresas.

A P&G, maior fabricante de bens de consumo do mundo, acaba de inaugurar um escritório multifuncional em Recife, com uma equipe de 50 pessoas. É a primeira vez que a subsidiária brasileira da companhia, dona de marcas como Gillette e Pampers, monta fora de São Paulo um time completo — com profissionais de marketing, finanças, logística e RH, além de uma equipe comercial exclusiva para a região. O diretor-geral da unidade, Luis Molina, se reporta diretamente ao presidente da P&G no Brasil. “A região é prioridade para nós”, diz Luis. Quem também está prestes a desembarcar no Nordeste é a americana General Mills, dona da marca Häagen-Dazs,­ de sorvetes, e das barrinhas de cereais Nature Valley, e que adquiriu recentemente a Yoki. Para um escritório a ser montado na Bahia, já estão sendo recrutados 20 profissionais de marketing e da área comercial, inclusive gerentes. 

Depois de abrir fábricas e centros de distribuição no Nordeste nos últimos anos, as empresas agora estão montando estruturas corporativas na região, o que vem elevando a demanda por executivos.  Na empresa de recrutamento Michael­ Page, por exemplo, neste ano o Nordeste superou ligeiramente o Rio de Janeiro em número de posições profissionais trabalhadas (veja gráfico).

Por causa desse aumento, a consultoria inaugurou há quatro meses uma unidade em Salvador — já tinha uma em Recife. O raciocínio por trás da estratégia  das empresas de abrir escritórios corporativos no Nordeste é ter líderes capazes de criar e executar estratégias específicas para o mercado local, que tem hábitos de consumo diferentes dos estados do Sudeste e do Sul.

“A região tem muitas especificidades e, se a companhia não tiver um poder de decisão local, não terá sucesso”, afirma Jorge Abrantes, vice-presidente regional da Asap Recruiters, de Recife. Uma das empresas que já fizeram esse movimento foi o Grupo Boticário, que neste ano inaugurou em Camaçari, na Bahia, um escritório administrativo com 77 profissionais para dar apoio ao centro de distribuição e à fábrica abertos pela companhia no estado.  

Talentos locais

A fabricante de biscoitos e chocolates Mondelez, dona de marcas como Bis e Sonho de Valsa, foi uma das pioneiras, em 2011, ao levar uma unidade de negócios para o Nordeste. A empresa entendeu que precisava conhecer e adaptar seus produtos ao gosto do consumidor local e criou uma filial em Recife com cerca de 50 executivos.

O movimento de instalação de estruturas corporativas não se restringe à indústria de bens de consumo. A empresa de auditoria Crowe Horwath planeja montar uma operação independente no Nordeste a partir do ano que vem. A expectativa é que a equipe chegue a 80 profissionais e o escritório represente 20% das receitas da empresa no país. “Começamos a recrutar em janeiro”, diz Marcelo Lico, diretor da Crowe Horwath. Uma das novidades desse processo é que, em vez de trazer profissionais do Sul e do Sudeste, as empresas têm optado por recrutar na região.

“Fechamos 70% das vagas com executivos nordestinos”, afirma Leonardo de Souza, diretor executivo da Michael Page. Na Totvs, desenvolvedora de software de gestão, que inaugurou seu novo escritório em Recife em abril, quase todos os contratados nos últimos seis meses são da Região Nordeste. “Ter pessoas locais na equipe nos ajuda a dar um tempero regional às nossas soluções para maximizar os resultados”, diz Douglas Medeiros, diretor da Totvs no Nordeste. 

Para a maior parte das posições, os salários ainda são de 10% a 20% inferiores aos do Sudeste. Mas a tendência é de equiparação e, segundo a empresa de recrutamento Search RH, existe uma demanda alta para cargos com salário na casa de 20 000 reais. Só no último ano houve um aumento de 17% no recrutamento de cargos de alta gerência. “O Nordeste hoje é uma vitrine. Ter bons resultados aqui rende uma grande exposição de pode ser um impulso para cargos mais altos”, diz Leonardo, da Michael Page. Um bom plano para ficar de olho em 2015.

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