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Gastos de vingança, a tendência do consumo no pós-pandemia

Foram dois anos de vida monástica. Quem conseguiu poupar agora usa o cartão de forma frenética. Cortesia do nosso cérebro, que não consegue controlar os impulsos muito bem. Entenda o que são os “gastos de vingança”.

Por Bruno Carbinatto | Ilustração: Clara Candelot | Design: Juliana Krauss | Edição: Tássia Kastner Atualizado em 19 nov 2021, 02h12 - Publicado em 19 nov 2021, 07h03

V

irou trend na China. Depois de meses de lockdown em várias regiões – um dos mais rigorosos já adotados no mundo, com início ainda em janeiro –, os consumidores saíram às compras em abril de 2020 para comemorar a reabertura do país. Nisso, esbanjaram mimos para si mesmos nas redes sociais, às vezes com o termo “consumo de reparação”. Nos seis meses que se seguiram àquela reabertura, a palavra foi citada pelo menos 3,5 milhões de vezes em postagens nas redes sociais, segundo a consultoria Linkfluence.

Nesse frenesi consumista, um café na cidade portuária de Qingdao viralizou ao vender seu tradicional chá de bolhas (uma bebida gelada e com bolinhas crocantes de tapioca) em um copão gigante, a oito vezes o preço adicional. A justificativa é que o exagero era para matar a saudade do chá nos três meses anteriores. Empresas como McDonald’s e Nestlé começaram a usar o mesmo termo em suas redes sociais chinesas para incentivar o consumo de suas marcas.

 

 

Foi por causa da China que, ainda em meados de 2020, a ideia de que as pessoas voltariam com tudo às compras no pós-pandemia começou a circular no mundo ocidental. O nome mudou para revenge spending, ou “gasto de vingança”, uma vontade irrefreável de comprar mais do que o normal após um período estressante ou de privação do consumo.

O termo não é exatamente novo. O lance é que pessoas praticavam gastos de vingança quando conseguiam um trabalho após meses de desemprego ou depois de uma doença que havia exigido uma mudança temporária de estilo de vida, por exemplo. Os dois últimos anos criaram um cenário em que o mundo todo ficou ao mesmo tempo estressado e privado de gastar – e agora está pronto para tirar o atraso.

A China deu mostras bastante concretas da força do fenômeno nos segmentos de luxo. A marca francesa Hermès, por exemplo, faturou US$ 2,7 milhões em vendas somente no dia de reabertura de sua loja principal em Guangzhou, em abril do ano passado. Foi o dia mais lucrativo para qualquer loja de artigos de luxo na China, segundo a mídia local. Em maio do mesmo ano, a marca de joias Tiffany viu uma queda de 40% em suas vendas globais, mas teve um aumento de 90% nos gastos na China. Os resultados fizeram com que nomes como Dior, Cartier e Michael Kors direcionassem mais recursos para o país asiático.

Seria questão de tempo até isso se repetir no Ocidente – e, de fato, está acontecendo. O que mudou foi o timing. Agora que a maioria dos países de alta e média renda ostentam altas taxas de vacinação, e as fronteiras e o comércio pelo mundo parecem reabrir para ficar, o revenge spending dá sinais de que engatou.

Poupança involuntária

A ideia de que o consumo vai aumentar porque as pessoas querem comprar mais no pós-pandemia não conta a história toda. Na verdade, grande parte do fenômeno esperado do revenge spending depende do fato de que as pessoas podem comprar mais.

É que a pandemia criou um cenário contraditório no mundo. De um lado, o desemprego no Brasil decorrente da crise fez o ato de poupar quase impossível para uma parcela significativa da população. Mas quem teve a sorte de se manter empregado e migrar para o regime de home office se viu numa situação em que, quem diria, ficou mais fácil economizar.

Com bares, restaurantes e baladas fechados, o lazer foi parar nas telas de computadores e televisão. A Netflix já estava paga. Sem o transporte para o trabalho, economizamos, além de tempo, o dinheiro da gasolina, da passagem e do Uber naquele dia de atraso. E, ainda que o e-commerce tenha crescido, tem menor apelo para o gasto supérfluo que as voltinhas no shopping “só para dar uma olhadinha” (e que sempre terminavam com uma comprinha ou outra).

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Clara Candelot/VOCÊ S/A

Uma pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelou o seguinte: entre os brasileiros que conseguiram economizar, a opção “deixei de sair (ir a festas, viajar, beber e usar o carro)” foi disparado o motivo principal na criação da poupança, citado por 56% dos pesquisados (em 2019, o número foi 34%). É um patamar acima do clássico “guardei uma parte do salário todo mês”, citado por 11%. O impacto da pandemia foi tão grande que 7% deles – o que se traduz em mais ou menos 2,5 milhões de pessoas na população geral – afirmaram que guardaram dinheiro porque “não tinham onde gastar”.

Segundo dados do Cemec-Fipe, a poupança dos brasileiros cresceu R$ 334 bilhões em 2020, depois de ter encolhido R$ 3,4 bilhões um ano antes.

Não é exclusividade nossa. Em fevereiro de 2021, os americanos tinham um total de US$ 2,4 trilhões em economias – US$ 1 trilhão inteirinho a mais do que o valor registrado no mesmo período de 2020, segundo o Departamento de Comércio dos EUA. Resultado, em grande parte, do polpudo auxílio emergencial e demais benefícios do governo, diga-se.

E eles estão dispostos a abrir a carteira. Uma pesquisa da consultoria SurveyMonkey descobriu que quase 70% dos adultos americanos planejam gastar mais do que o normal nos próximos anos em ao menos uma categoria, como “alimentação” ou “viagem”. Pesquisas na Europa e na Austrália mostram tendências parecidas.

É aí que entra a segunda parte do fenômeno: querer gastar. A chave aqui é o “gastar mais que o normal” – afinal, o fenômeno do revenge spending não é apenas a retomada das compras, mas um frenesi de gastos que não ocorreriam em situações normais, mesmo com essa quantia de dinheiro guardada. Cortesia do nosso cérebro, um bicho bastante irracional quando o assunto é finanças.

Sem autocontrole 

Comprar traz prazer. Estudos já mostraram que pensar em compras já é o bastante para ativar áreas do cérebro ligadas à dopamina, o neurotransmissor do prazer. Imagine concretizar a aquisição, então. “Nós estamos sempre propícios a consumir porque achamos, em geral equivocadamente, que isso vai trazer realmente uma gratificação muito grande”, explica Vera Rita de Mello Ferreira, professora e especialista em psicologia econômica. É só a dopamina mesmo. E passa rápido.

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Mas nem por isso saímos torrando todo nosso dinheiro e nos afundando em dívidas só para nos sentir bem – pelo menos não deveríamos, ainda que aconteça com algumas pessoas. É que somos dotados de uma capacidade especial para evitar situações como essa: o autocontrole.

Só que aí entra o fator pandemia. A nossa capacidade de segurar os  próprios impulsos é finita, explica Vera Rita. E, ao longo da pandemia, tivemos que usá-la quase à exaustão: máscaras o tempo todo, álcool em gel, não sair sem necessidade de casa etc. Por dois anos, nos privamos do jantar especial, das idas ao cinema, das compras e de viagens. “Nós passamos a nos policiar o tempo inteiro, e esse monitoramento intensivo por quase dois anos nos deixou esgotados e sem a menor condição de exercer autocontrole.”

Resultado? Aquelas comprinhas, que em situações normais você deixaria de lado pensando na fatura do cartão de crédito no fim do mês, passam quase sem culpa. A sensação de “eu mereço” prevalece – mesmo em casos de preços salgados.

Brasileiros pouparam R$334 bilhões em 2020 – um ano antes, essa conta tinha ficado em R$3,4 bi negativos. Essa é a represa prestes a estourar.

Não só. Em contextos de tristeza, temos a tendência a ignorar o que a psicologia econômica chama de efeito-posse – o apego que temos às nossas coisas. Quando estamos para baixo, damos menos importância a elas. Aí, em busca da alegria da dopamina, continuamos a comprar. Tal como um vício, o efeito é cada vez mais efêmero e é preciso repetir a dose a todo instante. 

Há outras explicações possíveis para gastos específicos. O mercado de luxo, por exemplo, se beneficia da retomada do convívio social como um todo – afinal, depois de mais de um ano usando pijama no dia a dia, nada como ostentar roupas de grife, bolsas ou uma joia. A XP recomenda a compra das ações da Vivara justamente por apostar no fenômeno.

Embarque autorizado

O fato é que as justificativas para esbanjar não faltam, para a alegria de quem ainda tenta curar as chagas da pandemia. À Bloomberg, o CEO da Lamborghini creditou os bons números da companhia ao fenômeno do gasto de vingança. Na Califórnia, a Disney aumentou o preço do seu ingresso mais caro à Disneyland em 6,5% – confiantes que os consumidores vão comprá-los mesmo assim. 

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Clara Candelot/VOCÊ S/A

Nenhum outro setor sofreu tanto e se beneficia igualmente do revenge spending quanto o turismo. O presidente da Azul afirmou recentemente que nunca viu tanta demanda por passagens aéreas no final do ano – os preços já saltaram 50,36% em 12 meses até outubro. O Google diz que, em setembro, as buscas por viagens bateram o nível pré-pandemia, e a Abear (a associação das companhias aéreas) espera que a quantidade de voos alcance essa marca no começo de 2022, tamanho o interesse dos brasileiros de voltar aos ares.

O calendário de entrevistas para obter o visto americano está sem datas disponíveis até dezembro de 2022 – os EUA reabriram suas fronteiras para brasileiros em 8 de novembro, mas os consulados, com capacidade reduzida devido à pandemia, não estão dando conta de tanta gente querendo entrar.

Faz sentido que o “turismo de vingança” deslanche agora. Afinal, dá para comprar quase tudo na internet, mas não viagens. Segundo Frederico Levy, vice-presidente da Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo), o setor já via o revenge spending mesmo antes da melhora dos números da pandemia – viagens demandam preparação, e os consumidores começaram a procurar planos já pensando no calendário da vacina. Com a alta da demanda, também subiram os preços, mas isso não impediu que as compras seguissem, como é típico dos gastos de vingança.  “Só não vemos um boom generalizado porque os países estão reabrindo suas fronteiras de forma e em tempos diferentes, mas é um movimento claro”, diz Frederico.

Quem trabalha na área vê de perto o fenômeno. É o caso de Maria Lina Colnaghi, dona da agência de viagens Vida Modo Avião. No auge da pandemia, o negócio praticamente congelou – e ela teve que voltar para a área de comunicação, em que é formada, para sobreviver. Com o avanço da vacinação, e com a reabertura de vários países do mundo a partir de junho, começando pela Suíça, a demanda voltou a crescer – no pique revenge spending.

Na pandemia, esgotamos a nossa capacidade de autocontrole. Mesmo compras supérfluas e com preço salgado passam sem culpa.

Não só as viagens voltaram como elas estão de cara nova, aliás. Os um pouco mais endinheirados se aventuram por classe executiva e escolhem a dedo o hotel cinco estrelas em que vão se hospedar. Mesmo quem ainda mantém um orçamento de férias em escala humana tem se dado pequenos luxos, antes impensáveis. 

“Tem gente que colocava pelo menos duas ou três viagens na pauta anual e acabou com essa grana reservada. Agora os preços dispararam por causa da demanda, mas eles dizem ‘não importa, eu quero viajar, não aguento mais’”, diz Lina. De quebra, ainda desembolsam mais para privilégios pouco procurados em tempos não pandêmicos, como piscina privativa e transfer particular do aeroporto para o hotel – uma combinação entre distanciamento social e conforto.

Embora a vontade de gastar seja perfeitamente normal, a vingança pode acabar exagerada e prejudicar um dos poucos ganhos da pandemia: poupar sem esforço. A culpa não é totalmente nossa. Autocontrole é algo difícil, ainda mais depois de dois anos tão estressantes. Especialistas recomendam o de sempre: evitar se expor a tentações.  Seja na voltinha no shopping, seja no Instagram com seus anúncios.

“Se você está fazendo dieta, não vai sentar na frente de uma doceira e ficar olhando para todas aquelas delicinhas tentadoras”, diz Vera Rita. “Estabelecer um tempo para uso de redes sociais, que ficam toda hora enviando anúncio, é uma coisa que pode ajudar.” Você vê outras dicas de como não cair em ciladas no box da dupla anterior. Mas, antes de tudo, lembre-se: depois de tanto tempo de sacrifício, um mimo ou outro não vai te fazer mal. 

Como não exagerar no consumo de vingança

  • Invista automaticamente

Dinheiro na mão é vendaval. Daí que o jeito de não torrar suas economias é tirá-las da conta-corrente e transferir para algum investimento. O objetivo é fazer com que o saldo desapareça da sua tela inicial. Aproveite o momento de pagar boletos para concretizar esse autoengano. E, claro, use a deixa para buscar moradas mais rentáveis para o seu dinheiro.

  • Limite as tentações

Se o objetivo é não exagerar, evite passeios no shopping e faça uma limpa no Instagram. Alguns cartões permitem que você reduza temporariamente o limite de crédito. E adie compras em alguns dias – pode acreditar: o tempo faz você reavaliar o quanto deseja alguma coisa.

  • Planeje

É normal querer gastar mais depois de tanto tempo de autocontrole. Mas sem planejamento não rola. Se você decidiu tirar o escorpião do bolso, calcule antes quanto vai gastar nas compras extras. Também vale ver se o melhor não é aproveitar para realizar um projeto mais sólido para a sua biografia – tipo aquela viagem que nunca rolou por falta de organização financeira.

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