Conheça a hamburgueria que nasceu na periferia de SP e atingiu R$ 8,5 milhões de faturamento
Valber Bonfim começou vendendo lanches em um food truck na Brasilândia. Hoje, o Quebrada Burger conta com 4 lojas físicas – que garantiram ao empreendedor um investimento milionário no Shark Tank Brasil. Confira.

alvez você já tenha ouvido falar de Anthony Bourdain. Chef, autor e documentarista americano, Bourdain atingiu fama mastodôntica depois de escrever Cozinha Confidencial – livro em que ele narra uma série de aventuras que viveu nas entranhas da cena gastronômica.
A obra, via de regra, fala sobre comida. Mas também sobre a condição humana – duas coisas que, segundo Bourdain, estão conectadas ad aeternum. Escreve ele: “Comida é tudo que nós somos. É uma extensão de um sentimento nacionalista, étnico, sua história pessoal, sua província, sua região, sua tribo, sua avó. É inseparável dessas coisas desde o princípio.”
Dessa poesia, Valber Bonfim entende bem. Só que o fuso horário desse amor é de Brasília: foi na Zona Norte de São Paulo que o interesse pela gastronomia nasceu, floresceu e criou raízes. Amor esse personificado na forma do Quebrada Burger, primeira hamburgueria da periferia paulistana a oferecer burgers com blend de carne 100% Angus certificada e Wagyu para os moradores das comunidades.
A operação não passou despercebida por José Carlos Semenzato, um dos empresários à frente do Shark Tank Brasil. Na 9ª temporada do programa, o jurado topou investir R$ 2 milhões por 30% da marca – já mirando em expandir a operação em franquias.
Mas a história de Bonfim não começa com a atenção de Semenzato. E sim, com um menino de paladar refinado nascido e crescido na Brasilândia, que ajudava seu pai com o restaurante da família. Vamos conhecê-lo a seguir.
É no detalhe
A família de Valber é nordestina. Seu pai veio da Bahia e logo adentrou o setor gastronômico paulistano: primeiro nas pastelarias; depois nos bares; até abrir seu próprio restaurante, como dissemos, na Brasilândia.
Foi em casa que Bonfim aprendeu duas coisas: como comer bem e como administrar um restaurante. Sua paixão por ambos o levou, aos 17 anos, a ajudar seu pai no negócio – que, na época, estava enfrentando dificuldades financeiras.
“Eu sou muito apegado a detalhes. E durante muitos anos vi essa dificuldade do meu pai de manter as portas abertas”, explica o empreendedor. Especialmente pelo valor gasto por consumidor (famigerado tíquete médio), que era muito baixo.
“A comida deles tem aquele tempero especial, aquele acalento na alma. Mas eles não tinham noções de administração e nem conhecimento de alguns processos de cozinhas industriais que poderiam otimizar custos e gerar mais renda”, explica ele.
Seu pai veio da Bahia e logo adentrou o setor gastronômico paulistano: primeiro nas pastelarias, depois nos bares, até abrir seu próprio restaurante, também na Brasilândia.
No mesmo momento, Valber decidiu fazer um curso técnico de administração, justamente tentando virar a maré do restaurante familiar. Aos 18 anos, ele também decidiu estudar gastronomia.
Mas a relutância de seus pais o levou a implementar esse conhecimento em seu próprio negócio — especialmente porque, naquele momento, ele seu viu precisando de uma renda extra. “Empreender não era só um sonho. Era também uma necessidade”, relembra o empresário.
Tá chovendo hamburger
É dessa confluência de fatores que Bonfim decide entrar de vez no ramo. A escolha foi de abrir um food truck: primeiro, por uma necessidade da região, que não contava com o serviço (já muito popular em 2017, reitera ele) e também por respeito ao seu pai. “Na tipologia da comunidade, não havia concorrentes. E se eu montasse um serviço de comida eu estaria competindo com meu pai, o que eu não queria”, conta.
Como Valber já era encarregado das carnes no restaurante familiar, e tinha um entendimento do trato e qualidade do produto, a escolha foi montar um serviço de hambúrgueres. Também pelo que ele tinha aprendido com o tíquete médio da operação de seu pai: “Com lanche, as pessoas tendem a comer uma batata, uma bebida, uma sobremesa… aumenta muito o valor gasto.”
Com R$ 6,5 mil – todas suas economias na época – nasce o Quebrada Burger. Em oito meses servindo a comunidade, Bonfim percebeu que não daria mais conta dos pedidos: o que o levou a ampliar a operação para o delivery (especialmente em 2020, quando um vírus apareceu pelo caminho) e a começar a montar o que seria sua primeira loja física, inaugurada em julho de 2022.
De lá para cá, essa uma loja virou quatro: na Brasilândia; no Centro, em Pirituba e em Guarulhos. A diversificação veio nos alimentos também: hoje, Valber também é dono de outras três marcas que funcionam como dark kitchens (entenda mais sobre o conceito aqui): Açaí da Quebrada, Quebrada Dog e Quebrada Drinks.
Com R 6,5 mil – todas suas economias na época – nasce o Quebrada Burger.
Voltando aos lanches, a expansão tem tudo a ver com a habilidade de Valber de concatenar um hambúrguer diferenciado. O segredo, para ele, está no molho: “Um bom lanche sempre começa com pão, carne e queijo. Um bom pão, um queijo de bom derretimento e uma carne no ponto que você gosta. O que diferencia a parada é o molho. Isso mexe com seu coração.”

Para continuar deixando os corações amolecidos por aí, Valber troca o cardápio do Quebrada ao menos uma vez a cada seis meses. Também explica que é muito ligado aos dados da operação: eles ditam o que fica e o que sai do menu.
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Você tem fome de quê?
Em 2023, o faturamento da operação chegou a R$ 8,5 milhões. Esse ano, a ideia é chegar nos R$ 12 mi – e já preparar o terreno para a chegada do investimento de Semenzato em 2025.

Bonfim deixa claro que não há nada assinado. A ideia é fazer um estudo de franqueabilidade em parceria com o novo sócio, e entender os pormenores do contrato. Com muita calma, cautela e atenção ferrenha aos dados. Tudo isso para que Valber tenha a mesma sorte que seu pai: cujo restaurante continua firme e forte até hoje.
“É uma missão de vida estimular a economia local, gerar empregos e prosperar o bairro onde nasci, cresci e onde a minha família sempre empreendeu”, finaliza.