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“Em 2021, 20% dos nossos emplacamentos serão de carros eletrificados”, diz presidente da BMW Brasil

Um em cada três carros premium vendidos no país é da marca líder no segmento, a BMW. E a fábrica brasileira é vista como modelo pela matriz alemã. Agora, o CEO Aksel Krieger planeja aumentar a produção nacional em 10% e avançar na transição para os motores elétricos.

Por Juliana Américo Atualizado em 20 ago 2021, 08h46 - Publicado em 19 ago 2021, 16h38

No ano passado, houve uma mudança no mercado nacional de carros de luxo. A Mercedes-Benz deixou de produzir no Brasil, ao fechar a sua fábrica em Iracemápolis (SP), e a Audi suspendeu a linha de montagem na sua fábrica em São José dos Pinhais (PR). Culpa da instabilidade político-econômica que se alonga desde 2014, e dos créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados acumulados durante o Inovar-Auto – programa de incentivo criado em 2012. Os impostos não foram devolvidos integralmente para as empresas.

A estrada, então, ficou mais livre para a BMW. A montadora alemã vendeu 13.712 automóveis ao longo de 2020 – incluindo os modelos da Mini, sua subsidiária. O número é ligeiramente maior que os 13.144 mil registrados em 2019, mas garantiu à montadora o primeiro lugar no segmento premium. A Volvo foi a segunda colocada, com 7,7 mil. A BMW também viu a venda dos seus carros elétricos e híbridos (que combinam baterias e motor a combustão) saltar 300%, para 1.132 unidades.

Quem está na liderança da empresa por aqui é o paulistano Aksel Krieger, de 44 anos. Sua carreira na BMW começou em 1999, como estagiário da área de serviços financeiros – setor responsável pelos financiamentos de carros da montadora. Nas últimas duas décadas, atuou nos escritórios do Brasil, da Alemanha, da África do Sul e da China. Em fevereiro de 2019, Krieger assumiu a cadeira de CEO no Brasil, comandando os mil funcionários que a Bayerische Motoren Werke (nome completo da marca) emprega no país.

Aqui, o executivo conta sobre as inovações da fábrica brasileira e os planos da companhia para se manter na dianteira.

Quais foram as ações da BMW para reduzir o impacto da pandemia entre os funcionários?
O primeiro passo foi olhar para dentro da companhia. A gente aumentou a comunicação com toda a equipe de fábrica, administrativo e concessionárias, para conseguir trabalhar mais próximo dos funcionários e manter o time forte. Também focamos muito no lado digital do negócio, principalmente nas redes sociais. Nós tivemos, por exemplo, uma campanha de lançamento e venda do 330e M Sport [um modelo híbrido] toda pelo Instagram e fomos a primeira montadora a fazer isso aqui no país. O M3 [um esportivo] está sendo lançado no TikTok e também fizemos uma ação em conjunto com a Farfetch, que é um e-commerce especializado em moda de grife, para vender o X7 M50i [SUV topo de linha]. Então, estamos com a nossa estratégia de crescimento muito baseada nessa proximidade com os funcionários e com o avanço tecnológico. É fundamental ter uma cabeça aberta e coragem para testar. Com agilidade e flexibilidade, a gente acaba se comportando como uma startup dentro de uma empresa madura. E isso ajudou bastante no último ano.

Quais são os desafios de liderar uma empresa durante a pandemia?
Fala-se muito que o mundo é Vuca [volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em inglês], mas eu brinco que o Brasil é um Vuca turbinado. Operar aqui sempre envolve uma complexidade maior. No caso da pandemia, teve o desafio de deixar os nossos funcionários e clientes seguros. Mas ainda é preciso lidar com a instabilidade econômica. O país não só parou lá em março e abril do ano passado, como o real também perdeu muito valor nesses últimos meses. Em um mercado emergente, como o nosso, sempre vai ter volatilidade e desafios. A melhor maneira de enfrentar isso é com um time forte, que tenha criatividade e coragem.

E quais são as novidades para 2021?
A Anfavea [Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores] estima um crescimento de 15% para o setor, e a BMW pretende acompanhar essa alta. Por isso, decidimos aumentar a produção em 10% para manter a nossa liderança no mercado premium e ainda suprir esse aumento esperado na demanda. Também temos novidades no catálogo. São, pelo menos, 20 modelos novos de carros e motos que chegam ao longo deste e do próximo ano. O destaque é para o esportivo M3, que é uma linha ícone da marca. Mas tem também o 100% elétrico Mini SE, que já está em pré-venda. Outro bem legal é o iX, que terá compatibilidade com a rede de dados 5G quando ela estiver disponível no país.

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Qual a diferença entre o mercado brasileiro e o internacional?
Acho que o principal ponto é o tamanho do segmento premium em relação aos demais. Aqui no Brasil, cerca de 2% do total das vendas de carros são de modelos de luxo. Se você olhar para outros mercados, como dos Estados Unidos ou Alemanha, essa proporção é de mais de 20%. Ainda assim, o Brasil é um país estratégico para a companhia. Ele está entre os dez maiores mercados automotivos do mundo e acreditamos que o segmento premium deve crescer nos próximos anos. Tem também o fato de que o brasileiro é muito aberto à tecnologia e adota mais rápido todas as novidades que a gente traz para os carros, aplicativos ou interface com o motorista.

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Carlos Pedretti/VOCÊ S/A

Com a opção de vendas pelas redes sociais, qual é o papel das concessionárias hoje?
O lado digital vem crescendo, mas a concessionária ainda tem um papel fundamental na logística, venda, prestação de serviços e manutenção. Além disso, ela serve para encantar os clientes. Um veículo é o segundo maior bem que você vai comprar na sua vida; primeiro vem a casa, depois o carro. Então, o cliente quer ver, sentir os materiais… Quer que alguém explique de maneira clara como funciona toda a tecnologia integrada. E, no nosso modelo de negócio, as concessionárias atuam muito próximas dos nossos consumidores para entender as demandas deles. Antigamente, você vendia um carro e a pessoa só voltava na concessionária para fazer a revisão do veículo. Hoje, a BMW vai até a casa do cliente. Se você comprar um carro elétrico, a gente tem uma equipe que vai instalar o Wallbox [carregador doméstico] e o vendedor vai junto acompanhar todo o procedimento.

Os carros elétricos têm espaço para crescer no Brasil?
A BMW foi uma das primeiras marcas a trazer um carro elétrico para o país – o i3, em 2013. Então a gente sempre acreditou que o Brasil é um mercado muito interessante para produzir os elétricos. Existe, sim, uma demanda. Um exemplo claro é que, até o final do ano, nós teremos mais de 20% dos nossos emplacamentos sendo de veículos eletrificados [contando os 100% elétricos e os híbridos]. Além disso, temos uma meta de que, a partir de 2030, mais de 50% das nossas vendas no Brasil serão de elétricos. E não é só a comercialização, a gente também pensa na infraestrutura para receber esses modelos. Todo modelo eletrificado que a gente vende vem com dois carregadores: um portátil que você pode até usar em uma tomada normal dessas de casa mesmo, e um Wallbox, que proporciona uma carga um pouco mais rápida e que é instalado na residência ou escritório do cliente. Também temos parcerias com shoppings para oferecer postos de energia nos estacionamentos – fechamos 2020 com 250 pontos públicos de recarga disponíveis no país.

Qual é o papel da venda de elétricos nas metas de sustentabilidade da empresa?
As nossas metas até 2030 são muito claras: 80% de redução na emissão de CO2 na produção, 40% no uso do veículo e 20% na cadeia de suprimentos. As equipes estão sempre questionando como podemos deixar todo o processo mais sustentável. Um exemplo é o da fábrica de Araquari (SC). Ela entrou em um projeto piloto global e acabou de receber mais de 1.000 m² de painéis de energia solar. Além disso, desde 2016, a gente já reduziu em mais de 30% o consumo de energia e 40% o de água na planta.

A fábrica de Araquari é considerada uma das mais importantes da BMW no mundo. Por quê?
Hoje, 80% dos nossos carros vendidos aqui no Brasil vêm de Araquari [o restante é importado]. Ela é responsável pela produção dos modelos Série 3, X1, X3 e X4. Então a gente tem muito orgulho dessa fábrica. Desde a sua inauguração, em 2014, ela já produziu 70 mil unidades. Também já recebeu mais de R$ 1,2 bilhão em investimentos, pensando nessa parte de energia limpa e neutralização de CO2, mas também de olho na inovação. Por exemplo, o nosso sistema de paint shop, que é a área de pintura dos carros, é um dos mais modernos dentro do grupo, assim como outras tecnologias utilizadas na produção. Além disso, a planta tem uma boa flexibilidade: a gente consegue fabricar mais de um tipo de modelo dentro das nossas linhas de produção sem precisar de muitas alterações de maquinário.

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Carlos Pedretti/VOCÊ S/A

A BMW oferece uma série de aplicativos e serviços de assistência ao motorista. Vocês estão virando uma empresa de tecnologia também?
[Risos] Acho que todo mundo é uma empresa de tecnologia hoje em dia. Todos têm um lado digital muito forte. Nesses meus 20 anos de carreira, nunca vi tanta inovação e integração da indústria automotiva com o mundo digital quanto nesses últimos quatro anos. Então posso dizer que, sim, somos uma empresa de tecnologia. Os nossos carros já têm atualização de software remota para que o motorista não precise fazer a atualização na concessionária. E, no final do ano passado, eles também ganharam integração com a Alexa, a assistente virtual da Amazon. Já o nosso aplicativo, o My BMW, permite abrir e fechar o carro com o celular, localizar o veículo e acompanhar o carregamento dos modelos eletrificados. O legal é que o carro hoje já é igual a um celular: você atualiza e recebe uma funcionalidade nova, que nem imaginava.

A equipe brasileira também está envolvida no desenvolvimento dessas tecnologias? Como vocês fomentam a inovação entre os funcionários?
Sim, parte dessa tecnologia é brasileira. Os nossos engenheiros e programadores participaram da remodelação do aplicativo e também da interface de usuário dentro dos carros. As equipes do centro de engenharia e desenvolvimento de software trabalham com a Metodologia Ágil [modelo de gestão de projetos que visa acelerar o desenvolvimento de soluções]. Isso influenciou positivamente tanto na flexibilidade quanto na criatividade do time. O restante do grupo BMW percebeu isso e cada vez mais projetos estão vindo para o Brasil.

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