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O futuro da economia já é mais difícil de prever que o da pandemia

As quedas brutais das mortes nos países com vacinação ampla deixam claro que há luz no fim do túnel. Na economia, porém, a doença pode estar só no começo.

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 15 jun 2021, 12h10 - Publicado em 15 jun 2021, 12h01

Chegamos a um ponto inusitado: o futuro da economia já é mais difícil de prever que o da pandemia. EUA e Reino Unido, os dois países de grande porte onde mais de 40% da população está imunizada, viram seus índices de morte por Covid desabarem.

Nos EUA, morriam 3 mil pessoas por dia em janeiro. Agora a taxa caiu para 400 – 86% a menos, e segue apontando para baixo. No Reino Unido, morriam 1,7 mil por dia em janeiro. No início de junho, oito. Queda de 99,5%. Note que os dois países registraram casos de variantes perigosas – sendo que o Reino Unido foi berço de uma particularmente feroz, a B.1.1.7. E isso não freou a eficácia da vacinação.

No Brasil, mesmo com a avalanche de problemas de gestão na saúde, tudo indica que teremos uma cobertura vacinal satisfatória ao longo do segundo semestre. Imunizar o planeta inteiro ainda é um desafio – nações realmente pobres dependem de doações em massa, que não vão ocorrer tão cedo. Mesmo assim, a eficácia dos programas de vacinação mais bem-sucedidos mostra que um eventual fim da pandemia é, sim, algo vislumbrável.

Só que não dá para dizer o mesmo sobre a economia. O remédio contra a crise atual foi a impressão ilimitada de dinheiro, por todos os governos. Os Bancos Centrais injetaram quantias monumentais nos bancos para garantir a manutenção de juros baixos. Esse dinheiro extra está gerando uma inflação global. Nos EUA, o ritmo nos aumentos de preços entre março e abril foi o maior desde 1982 – 0,9% em um mês, um abuso para um país onde 3% em um ano já causa pânico.

No Brasil, o IPCA em 12 meses beira os 7% – bem acima do teto da meta do Banco Central, que é de 5,25%. Para piorar, o volume de chuvas no país é o menor nos últimos 91 anos. Menos chuvas = energia mais cara. O valor a mais na conta de luz do barbeiro significa um corte de cabelo mais caro. Na conta de luz do supermercado, um feijão mais caro. Nisso, a inflação começa a tender para os dois dígitos – patamar que já configura descontrole.

Para frear a inflação, aumenta-se os juros, e o BC está firme nessa direção. A Selic, que estava em 2% até o dia 17 março. Quando o Banco Central aumentou a taxa para 2,5%, o mercado previa que chegaríamos ao final do ano em 4,5%.

Vamos chegar nesse patamar bem antes: agora, no meio do ano mesmo. Agora as previsões para dezembro começam a chegar em 7%. E vão passar bem disso caso a inflação teime em ceder.

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É positivo ver o Banco Central em ação. Por outro lado, aumentos de juros têm um efeito colateral indigesto: travam a economia. Juro alt0 = menos consumo, que leva a (ainda) menos empregos.

O PIB vem se recuperando. Tivemos 1,2% de crescimento no primeiro trimestre de 2021, e o IBC-Br, uma espécie de prévia do PIB, subiu 15,92% na comparação entre abril deste ano e abril do ano passado (quando a economia paralisou).

Esses números, porém, são um efeito da manutenção dos juros em 2% lá atrás. Talvez eles evaporem caso a Selic siga subindo sem parar. Por outro lado, deixar a inflação comer solta não é uma opção.

Sinuca de bico.

Os mais otimistas entendem que não é por aí. Que haverá um boom econômico de um jeito ou de outro caso a pandemia realmente acabe.

Nos países ricos, a crescer tanto quanto no pós-guerra do século 20 – quando o PIB global subia a uma taxa média de 4,9% ao ano. Coincidentemente, essa é a previsão do mercado para o nosso PIB em 2021 também.

Uma inflação alta e persistente, por outro lado, pode minar tal expectativa.

Qual dessas realidades vai se descortinar? Não dá para saber. Porque economia não é biologia. Ela é também uma ciência humana. Tão irracional, exuberante e imprevisível quanto seus criadores.

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