Mad Max na bolsa americana: vai dar para especular com o preço da água

Nasdaq e CME lançam contratos futuros que permitem negociar água como se fosse petróleo.   

No futuro distópico de Mad Max, a água é tão escassa que vira alvo de conflitos entre  gangues. Já na Califórnia em chamas de 2020, o mercado financeiro planeja colocar ordem nessa disputa: em breve, será possível negociar água no mercado de contratos futuros.

A CME (que é a maior bolsa de derivativos do mundo) e a bolsa Nasdaq (conhecida pelo índice de tecnologia) anunciaram o novo produto financeiro nesta quinta-feira (17). O início dos negócios deve ficar para o final do quarto trimestre (leia-se: mais para dezembro) e ainda depende de revisões regulatórias, conforme afirmaram as empresas em comunicado ao mercado.

Na origem, o contrato futuro é um instrumento financeiro de proteção. Serve para que uma pessoa que depende de um produto específico se projeta das oscilações de preços. 

Como é um derivativo (deriva de um ativo), ele tem seu valor associado ao produto em questão. E existe contrato futuro pra muita coisa: para petróleo, soja, café, dólar… Você fecha um contrato para que a coisa seja entregue lá na frente, tipo dali a um ano, a um preço que você e o emissor do contrato fixam hoje – $ 10, digamos. Se ela tiver dobrado de preço, não tem problema: você vai pagar aquilo que estava combinado lá atrás e pronto. Eis a proteção. Já se o preço cair quem fica protegido é o emissor do contrato. Vamos dizer que caiu para $ 5. Você terá de pagar $ 5 ao emissor. Eis, novamente, a proteção, só que para o emissor do contrato. É isso: o mercado de derivativos é sempre um cabo de guerra: um lado recebe se o preço sobe. O outro lado recebe se o preço cai. 

De volta à Califórnia. O Estado mais rico dos EUA enfrenta problemas de abastecimento pelo menos desde 2012. E há dois anos foi criado um índice do preço da água na Califórnia, com base em contratos efetivamente fechados para fornecimento na região. O índice calcula uma espécie de preço médio da água no dia, com base nos acordos firmados entre as companhias de distribuição e os governos locais.

Bom, o índice mostra que o valor da água mais que dobrou em dois anos. Nesse caso, basta pensar em uma empresa de saneamento como a Sabesp, que fecha contratos com diversos municípios para que a água chegue ao cidadão. Cada um desses acordos é fechado em um momento diferente, e o preço varia.

O índice da água se chama Nasdaq Veles California Water Index (NQH2O), ou, numa tradução simples, Índice Nasdaq Veles Água da Califórnia (percebeu que o código termina em H2O?). É esse índice que servirá de base aos negócios com contratos futuros de água.

 (Tiago Araújo/Você S/A)

Vamos a um exercício teórico sobre como vão funcionar os contratos futuros de água. Imagine que em vez de pagar a conta no final de todo mês (ou seja, depois de tomar todos os banhos desejados e lavar toda a louça da quarentena), a água fosse pré-paga (como alguns planos de telefone). E que todo mês fosse preciso fechar um novo contrato antecipadamente para comprar cinco, dez ou quinze litros para os próximos 30 dias. Esses contratos seriam fechados entre consumidor e empresa no chamado mercado à vista – o pagamento seria imediato e a água fornecida.

Mas, se você achar que o próximo ano vai ser seco, que o nível dos reservatórios vai baixar e a água vai ficar mais cara, pode comprar um contrato que dá direito a receber a água no futuro. Esse contrato é o contrato futuro de água. Nesse tipo de operação, exclusivamente financeira, não é preciso nem pagar antecipadamente o valor atual da água – só um valor bem baixo, pelo contrato em si.

Agora, se o preço da água subir, você se dá bem. Assim: hoje o conteúdo para abastecer uma caixa d’água custa US$ 50, e você compra um contrato futuro para garantir que vai pagar exatamente US$ 50 dali a um ano. Então passam-se 365 dias e essa mesma quantidade de água está a US$ 90. Tudo certo: o emissor do contrato paga os US$ 40 de diferença – aí você pega US$ 50 do seu bolso mesmo, junta com os US$ 40 que recebeu, e pode comprar a água por US$ 90. Na prática, você só gastou US$ 50, exatamente como imaginava ao fechar o contrato. Excelente negócio, não?

Sim. O risco é o preço cair. Se o preço da água for para US$ 30, você tem de pagar US$ 20 ao emissor do contrato. O emissor nesse caso, vale ressaltar, é a companhia de água: ela ganha dinheiro em caso de queda de preço. Uma bela proteção.

Especulação

Mas você não mora na Califórnia, mora em qualquer cidade do Brasil. Mesmo assim, acompanha as notícias sobre o Estado americano e tem certeza de que o preço da água vai ficar mais caro por lá daqui um ano. O que você faz? Faz um contrato futuro de água californiana para ver se lucra com o aumento de preço, sem ter nenhum interesse em receber a água. Ou seja, em vez de buscar proteção, você vira um especulador de H2O. Fica aqui torcendo para o preço da água subir e receber seus US$ 40 (ou seja lá o valor que for). E claro: se o preço da água cair, você se trumbica. Terá de pagar a diferença para a companhia de água lá na Califórnia.

Bacana. Mas tem um problema: se milhões de investidores mundo afora começam a comprar esses contratos loucamente, significa que muita gente está apostando na piora da situação hídrica na Califórnia. Quando tem muita gente apostando, aquilo que é mera especulação ganha ares de verdade absoluta. E os preços tendem a aumentar SÓ por conta disso – independentemente da situação real das represas no Estado. 

No comunicado ao mercado em que anunciam o contrato, a CME e a Nasdaq reconhecem o problema de escassez hídrica e reforçam que ele não é exclusivo da região.

Eles afirmam ainda acreditar que o contrato futuro oferecerá a agricultores, empresários e prefeituras “transparência, mapeamento de preços e transferência de risco com o custo da água”. E que isso permitiria um maior equilíbrio entre oferta e demanda desse “recurso vital”.

“Com quase dois terços da população mundial sujeito a desabastecimento de água até 2025, a escassez de água apresenta um risco crescente para negócios e comunidades ao redor do mundo, particularmente para o mercado de água de US$ 1,1 bilhão da Califórnia”, afirma Tim McCourt, executivo global de índices e produtos alternativos de investimento da CME.

O fato é que o mercado global de derivativos encontrou um novo produto para chamar de seu – para o bem e para o mal. Em Mad Max: A Estrada da Fúria, o vilão Immortan Joe explica o conflito pela água de forma mais sintética: “Nunca, meus amigos, fiquem viciados em água. Vocês sentirão muito a sua falta.”

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