Não é só no futebol: racismo veste terno e gravata todos os dias
Saiba como a violência sofrida por Luighi, jovem atleta do Palmeiras, também se perpetua nos escritórios.

Na arquibancada, um torcedor, homem branco, com o filho no colo, estica o braço e imita um macaco.
Olhe bem para essa cena. Está em todos os canais da internet.
O alvo da agressão é Luighi, 18 anos, jogador de futebol. Carrega nos pés o sonho de muitos, a promessa de um futuro brilhante. Mas, naquela noite, tudo o que recebeu foi ódio.
Ódio cuspido na cara.
Ódio gritado das arquibancadas.
Ódio travestido de “provocação”.
E, quando o jogo acabou, Luighi chorou.
Chorou longe dos braços da mãe. Chorou sob o olhar impotente do pai.
Agora, tire o estádio.
Troque a camisa do time desse torcedor por um terno bem cortado.
Coloque esse “homem” em uma sala ampla, com vidros altos e uma mesa de reuniões à sua frente.
Então se pergunte:
Como será que ele trata os funcionários negros da empresa que gerencia?
Como olha para os currículos de candidatos negros?
Como ele fala sobre diversidade no happy hour?
No jogo do ambiente corporativo
Aquele mesmo braço que se esticou para ofender um menino de 18 anos é o que aperta a mão do executivo branco e ignora a existência de quem está ali, no canto, provando todos os dias que é competente.
A mesma boca que cuspiu no campo talvez já tenha cuspido palavras venenosas no escritório.
Luighi chorou. Mas não só ele.
Luiza também chorou quando percebeu que, depois de anos na empresa, ainda era tratada como se estivesse ali de favor.
Quando percebeu que o novo contratado branco foi direto para um cargo acima do dela.
Quando ouviu, mais uma vez, que “seu cabelo não é adequado para o ambiente profissional”.
Quando viu que a vaga de liderança nunca foi para ela, porque “ela não tem perfil”.
Porque o racismo não veste só a camisa de um time.
Ele veste terno e gravata.
Ele veste discurso polido.
Ele veste justificativa esfarrapada.
Preconceito que se perpetua
O racismo não é um desvio. Não é um erro isolado. Não é um “exagero da militância”.
O racismo é a regra.
E quem nasce preto aprende isso cedo. Seja no estádio, seja no escritório.
Essa história aqui poderia ter acabado diferente.
Poderia ter sido o jogo da vida de Luighi.
Poderia ter sido só mais um dia de trabalho para Luiza.
Mas, definitivamente, não foi!
Porque sempre tem um braço que se estica, uma boca que cospe, um olhar que reduz.
E um silêncio que compactua.
E se você continua achando que não existe racismo no mundo corporativo, chama o VAR e vamos conferir o replay.