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Guia dos Dividendos Alexandre Versignassi, autor da coluna, é jornalista, diretor de redação da Você S/A e autor do livro "Crash – Uma Breve História da Economia".

As sombras no caminho da Vale e da Petrobras

A mineradora e a petroleira têm distribuído dividendos robustos. Mas uma virou refém de Xi Jinping, e a outra opera na contra-mão da história.

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 17 set 2021, 13h27 - Publicado em 16 set 2021, 19h14

“Se juntas elas causam, imagina juntas.” Vale e Petrobras encabeçam o Ibovespa há mais de 50 anos – de vez em quando aparece uma intrusa na primeira ou na segunda posição em termos de valor de mercado, como a Ambev, mas a dupla sempre volta para o topo do pódio. Hoje elas representam 21% da pontuação do índice – 10% para a petroleira, 11% para a mineradora.

Dos 3,9 milhões de investidores pessoa física na bolsa, 851 mil têm papéis da Petrobras. “É o Tesouro Selic das ações”, como bem definiu a editora Tássia Kastner em sua reportagem sobre os fundamentos da estatal (pág. 18). A Vale não amealha tanta gente, mas nem por isso deixa de ser popular: são 291 mil CPFs com ações dela na carteira.

E os acionistas das duas têm sido bem recompensados. Graças à alta nos preços das commodities entre 2020 e o início de 2021, as duas passaram a garantir dividendos polpudos. A previsão é de que cada uma pague algo em torno de 10% sobre o valor atual dos papéis. A Vale já fez isso no ano passado. Antes, porém, ela só tinha rendido dividendos dessa ordem de grandeza em 2013. A Petrobras, em 2003.

Apesar da bonança financeira, as perspectivas para o futuro de ambas são delicadas. A Vale sofre nas mãos do governo chinês. Xi Jinping reduziu por decreto a produção de aço. Só em julho, ela caiu 13% em relação à média mensal do primeiro semestre. Foram 12 milhões de toneladas a menos de um mês para o outro (para comparar: só o corte já dá quatro vezes o que o Brasil produz de aço por mês).

Isso já fez a cotação do minério cair mais de 50% em relação a maio. E vem mais por aí. A produção chinesa de aço gira em torno de 1 bilhão de toneladas anuais. O plano do governo é diminuí-la em 25% nos próximos cinco anos. Não era exatamente o sonho da Vale, que vislumbrava um crescimento eterno do apetite chinês por minério.

O corte tem dois objetivos. Um já foi alcançado, que era baixar o preço da commodity. O outro é reduzir as emissões de CO2 – a produção de aço é responsável por 15% delas na China. O governo de lá decidiu levar a sério a ideia de tornar o país neutro em carbono até 2060.

E essa parte diz muito sobre o futuro da Petrobras. Reduzir drasticamente as emissões significa, para início de conversa, eletrificar toda a frota de carros e caminhões. EUA e União Europeia são ainda mais ambiciosos nesse sentido. Querem neutralizar suas emissões até 2050 e, no caso da UE, tornar ilegal a produção de motores a combustão interna até 2035.

Trata-se de uma ótima notícia para o planeta, e uma péssima para quem investe em petroleiras. Como investimento de longo prazo, para quem prefere olhar para o ponteiro das décadas no relógio das finanças pessoais, elas já se tornaram tão insustentáveis quanto a commodity que extraem.

A fila da história anda, afinal. E já sabemos quem vai ficar para trás.

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