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Claudio Lottenberg Médico oftalmologista, é presidente do conselho do Hospital Albert Einstein e do Instituto Coalizão Saúde. Também atua como conselheiro da Unicef.

Brasil, celeiro de startups de saúde

País tem mais de 500 healthtechs que receberam US$ 88 milhões em investimentos

Por Claudio Lottenberg Atualizado em 5 out 2021, 15h16 - Publicado em 5 out 2021, 16h00

O avanço da tecnologia aplicada à medicina tem ganhado cada vez mais impulso, e no Brasil isso fica evidente no crescimento do número de startups voltadas a prestar serviços de saúde – as chamadas healthtechs. Segundo dados recentes da consultoria Distrito, o Brasil passou de 248 empresas desse tipo em 2018 para 542 no ano passado. Além disso, de janeiro a maio deste ano, as healthtechs nacionais receberam mais de US$ 88 milhões em investimentos. São sinais sólidos de que o país vai encontrando seu caminho rumo ao futuro da medicina.

Não só isso: a BIO Digital 2021, realizada em junho – versão online do BIO International Convention, principal evento da área de biotecnologia, reuniu cinco startups brasileiras, selecionadas dentro do BP&H (Brazilian Pharma & Health). Os projetos das startups lidam, por exemplo, com o desenvolvimento de novas moléculas e de software para aplicação em tratamentos de câncer; aplicativos e uso de inteligência artificial no controle de diabetes e personalização de tratamentos de doenças neurológicas, cardíacas e psiquiátricas.

Já existem exemplos de países em que as healthtechs cresceram e se tornaram partes importantes não só da prestação de serviços de saúde, como da economia. Os Estados Unidos, por exemplo, têm na área de saúde 26 “unicórnios” (as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão). A China tem 9 dessas empresas. Israel, por sua vez, uma – a Insightec, que desenvolveu um sistema de cirurgias que utilizam ultrassom, evitando assim que se façam incisões no paciente. O país ficou conhecido, aliás, como Nação Startup, devido à proporção de empresas desse tipo por habitante (cerca de 9 milhões de pessoas). Israel é o 7º colocado no ranking Bloomberg Innovation Index deste ano. Algumas startups do país, fora da área da saúde, já se tornaram bastante familiares, como o Waze.

Como se vê, o Brasil, apesar das conhecidas carências relativas à saúde – principalmente no setor público –, é também um polo gerador de conhecimento na área. A pandemia de Covid-19 evidenciou as insuficiências do país, mas também mostrou como há espaços a serem ocupados por aqueles que conseguem encontrar oportunidades de melhorar processos, otimizar custos e, claro, gerar empregos.

O setor da saúde emprega milhões no Brasil, e a pandemia intensificou isso: no ano passado, foram abertas 110.799 vagas, atrás apenas da construção civil, segundo dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Os clientes de planos de saúde chegam a cerca de 47 milhões, o que deixa amplo espaço para oferecer serviços inovadores.

Os avanços da tecnologia, embora possam fechar determinados postos devido aos ganhos em eficiência que proporcionam, também abrem vagas. Cada vez mais será necessário que os profissionais de saúde sejam iniciados em diferentes ferramentas, o que vai demandar técnicos, professores e especialistas em tecnologia.

A renovação de rotinas e procedimentos na saúde está apenas no começo. O Brasil caminha rumo à era da conexão 5G, o que permitirá avanços ainda maiores nas áreas de consultas por telemedicina, monitoramento e mesmo procedimentos cirúrgicos remotos. Ensino e treinamento de profissionais também serão campos em que a aplicação da tecnologia será fundamental – além dos profissionais específicos de tecnologia da informação. As possibilidades são muitas.

Esse espaço está todo aberto à iniciativa das startups, que chegam com ideias inovadoras e olhos para as oportunidades na oferta de serviços de saúde. As estruturas regulatórias estão se adaptando – ainda não há regras definitivas para a telemedicina no país, por exemplo, apesar de seu avanço durante a pandemia –, mas acabarão por se consolidar, visto que a incorporação da tecnologia ao setor, com os ganhos em eficiência e custos que deverão trazer, não tem volta. Além disso, quanto mais presentes esses recursos se tornarem, mais os custos devem cair e, portanto, mais acessíveis devem ficar.

O Brasil tem mostrado abertura para a chegada das healthtechs, e a saúde é justamente uma das áreas que mais tem a ganhar se estimular a eficiência e a redução de custos. O avanço da tecnologia tem potencial para fazer com que atendimentos de qualidade cheguem a regiões que seriam beneficiadas por serviços médicos mais presentes. Tudo isso eleva o potencial do país para ser um dos principais celeiros de startups de saúde.

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