Razões para se tornar um voluntário

Essa atividade estimula a inovação, aumenta a autoestima e a satisfação pessoal e contribui para que os indivíduos lidem melhor com desafios

Este artigo foi publicado na edição 70 de VOCÊ RH.

A covid-19 aflorou na sociedade do Brasil e do mundo o nobre sentimento de solidariedade. Diante de uma crise sem precedentes que escancarou nossa desigualdade social, assistimos a grandes mobilizações de pessoas e empresas em prol de ajudar o próximo e tentar minimizar os efeitos da pandemia. Cidadãos arriscaram a própria saúde para levar equipamentos de proteção, alimentos, produtos de higiene e atendimento médico a idosos, moradores de rua e comunidades carentes.

Olhando sob a óptica do comportamento humano, todo esse movimento me fez pensar em quanto o voluntariado é uma forma de desenvolvimento da inteligência emocional e de exercício da cidadania. Eu me lembro como se fosse ontem do meu primeiro trabalho voluntário, aos 17 anos, no Hospital A.C. Camargo. Fui levada pelo meu pai que, quando foi tratado naquele hospital, descobriu que lá havia um programa do tipo. Na época, o hospital oferecia um curso de voluntariado no qual tínhamos aulas com médicos especialistas que nos mostravam como o câncer atuava em cada especialidade. Eles nos davam consciência não só da doença mas do sofrimento psicológico dos pacientes.

Eu passava no A.C. Camargo boa parte do meu tempo livre. Participei muito dos encontros quase diários que dona Carmem Prudente, grande voluntária do combate ao câncer, fazia com as crianças que estavam em tratamento, para quem ela contava histórias. Foi naquele período que consegui, pela primeira vez, organizar meus sentimentos e entender a importância de apoiar o outro em situações de extrema criticidade. Entendi a essência do trabalho voluntário: ajudar o próximo e contribuir para a melhoria da sociedade sem esperar nada em troca.

Ao transformar a vida de uma comunidade, lidamos com problemas reais. Enfrentamos barreiras, dificuldades e aprendemos a transformar indignação em ação. Vivenciamos na prática o que é diversidade, exercitamos empatia, entendemos o real conceito de responsabilidade social.
Além de tornar a sociedade mais justa, o trabalho voluntário nos torna melhores seres humanos e, também, melhores profissionais.

Não é à toa que universidades americanas dão um enorme valor às atividades voluntárias de seus estudantes. Esse tipo de trabalho aumenta o grau de socialização, melhora as competências para o trabalho em equipe, amplia a troca de experiências, estimula a criatividade, aumenta a autoestima e a satisfação pessoal e contribui para que os indivíduos lidem melhor com desafios.

Por mais que nosso tempo livre seja escasso, é importante pararmos para avaliar quais são as atividades que estão merecendo parte dessa nossa preciosa agenda. Será mesmo que não há como trocar as horas gastas nas redes sociais pela dedicação a um projeto social?

Mas o voluntariado deve ser uma atitude genuína. Não somos superiores quando ajudamos alguém menos favorecido. Não devemos usar a causa para uma autopromoção disfarçada de generosidade. Não teremos o poder de salvar o mundo com nossas atitudes. Mas podemos, com muita humildade, fazer nossa parte, ouvir e evoluir como seres humanos. A condição de vulnerabilidade não está apenas no outro — e não podemos nos esquecer disso.

* Psicóloga, sócia da Vicky Bloch Associados e professora nos cursos de especialização em RH da FGV-SP e da FIA

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