Políticas antitabagistas são tendência nas empresas

Essas práticas passam pela preocupação com a saúde dos funcionários, mas é preciso tomar cuidado para que não sejam discriminatórias ou invasivas

Esta reportagem foi publicada na edição 69 de VOCÊ RH.

A companhia de mudanças americana U-Haul anunciou a suspensão da contratação de usuá-rios de nicotina – seja ela em forma de cigarros, vapings, adesivos ou gomas de mascar. Com uma equipe de 30.000 trabalhadores por todo o país, a empresa é um dos maiores empregadores dos Estados Unidos que adotaram uma prática antitabagista desse porte.

A restrição, que começou em fevereiro de 2020, se aplica aos novos contratados, dentro dos 21 estados norte-americanos que permitem a iniciativa legalmente – os funcionários efetivos mantêm seu emprego. E a U-Haul não é a única a fazer isso no país. Em 2008, a Cleveland Clinic, rede de hospitais, começou a aplicar testes químicos em todos os candidatos a emprego: aqueles que apresentam traços de nicotina detectados pelos exames não são contratados.

Na terra da liberdade individual, essas práticas acenderam o alerta: quais são os limites da ética médica e trabalhista ao descartar os fumantes? A discussão é longa, mas uma das justificativas das empregadoras é a preocupação financeira. Uma pesquisa da Universidade de Ohio mostra que usuários de nicotina podem custar mais de 5.000 dólares anualmente para suas empregadoras. Entram na conta despesas com plano de saúde e absentismo, além de perdas financeiras por causa das pausas no expediente (mais recorrentes entre os fumantes do que entre os abstêmios).

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E o Brasil?

Assim como nos Estados Unidos, contratar fumantes também tem um custo para as empresas brasileiras. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e do Ministério da Saúde, divulgados em 2017, o Brasil tem prejuízo anual de 56,9 bilhões de reais com o tabagismo – 39,4 bilhões de reais são gastos com despesas médicas; e 17,5 bilhões, com custos indiretos ligados à perda de produtividade dos trabalhadores por incapacitação ou à morte prematura por doenças relacionadas.

Mas, diferentemente das normativas dos estados norte-americanos, em nossa lei, desconsiderar um fumante no processo seletivo é considerado discriminatório e sujeito a ações judiciais, segundo Pricila de Moura Lozano, advogada trabalhista da Gameiro Advogados. “A exclusão de candidatos por serem fumantes está sujeita a encargos judiciais, sim, desde que se prove que o motivo do corte foi esse”, diz. Jaqueline Scholz, médica assessora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, salienta que é um problema ético fazer exames para a identificação de nicotina e condenável discriminar o profissional por ser fumante. “O tabagismo é uma doença como qualquer outra. Não contratar um fumante é o mesmo que não contratar um hipertenso”, afirma.

Mesmo que não sejam pedidos exames prévios, o vício em cigarro pode, sim, impedir um candidato de entrar numa empresa. “Existe uma lógica de contratação em cada companhia, um perfil profissional que está relacionado ao cargo ocupado e à cultura da empregadora. Diante disso, o tabagismo pode ser um limitador”, diz Katia Ackermann, diretora executiva da Produtive, consultoria de carreira. Mas a especialista aponta que, para algumas funções, é difícil contratar fumantes por causa das atividades exercidas. “No ambiente industrial, por exemplo, há cargos que ficam em confinamento por horas, sem poder se ausentar da posição. Um profissional fumante nesse posto estaria sujeito a abstinência e ansiedade por não poder fumar. Considerar tais questões também é uma obrigação na hora da contratação.”

A cabine do avião e os aeroportos são locais em que fumar é impossível ou muito difícil. Por isso, a Gol criou, no ano passado, o programa Vida sem Tabaco. A companhia aérea realizou uma pesquisa interna com seus 16.000 funcionários pelo país e encontrou 503 fumantes, também perceberam que eles estavam perdendo quase uma hora do dia entre deslocar-se para a área em que é permitido fumar, tragar o cigarro e voltar ao posto de trabalho. Com o mapeamento feito, a empresa convidou os tabagistas a participar do projeto, que conta com acompanhamento psicológico, nutricional e médico – tudo virtual.

“Optamos por fazer online para que funcionários de todo o país pudessem participar”, diz Mário Mello Martins, médico do trabalho e gerente de gente e cultura da Gol. A primeira turma teve apenas 28 integrantes, mas 23 já conseguiram parar de fumar. “Empresas que contribuem para a saúde de seus funcionários estão trazendo ganhos para o negócio”, afirma o médico.

Restrições mais rígidas

Desde que entrou em vigor em 2014, a Lei Antifumo proibiu que pessoas fumem em ambientes fechados públicos e privados – o que acabou com os famosos “fumódromos” dentro dos andares corporativos. Como não há indicação de que as companhias precisem criar espaços dedicados ao cigarro, cada empregador escolhe se os fumantes terão ou não local próprio para suas pausas.

“Com a lei antifumo, muitos trabalhadores tiveram que se adaptar a não fumar em locais fechados e outros tantos optaram por parar definitivamente, devido à limitação imposta”, diz Jaqueline. Talvez essa seja uma das explicações de por que o número de fumantes caiu 9% dentro das companhias, de acordo com levantamento feito pela RHMED, empresa de saúde e segurança no trabalho, com base nos resultados de 92.000 exames ocupacionais do Brasil entre janeiro de 2016 e junho de 2018.

As restrições acabam dificultando a vontade de satisfazer o vício. “As pessoas precisam encontrar espaços onde é possível fumar numa sociedade que está criando cada vez mais regras para o cigarro não estar presente. É um movimento que não parte apenas das empresas”, diz Katia, da Produtive. Mas, para a médica Jaqueline, a segregação não é a melhor forma de as companhias lidarem com o assunto. “É uma medida incompleta. Você impõe à pessoa a abstinência e ao isolamento sem nenhum apoio para que ela se cure. É importante dar alternativas.”

Até dezembro de 2019, na unidade Forged Technologies, que produz componentes automotivos e faz parte do conglomerado alemão Thyssenkrupp, era permitido fumar em áreas específicas localizadas em espaços da área externa. Porém, em janeiro deste ano as duas fábricas da unidade, em Campo Limpo Paulista (SP) e Santa Luzia (MG), declararam-se ambientes livres de tabaco. “Tiramos todos os fumódromos que existiam na empresa, e os funcionários que mantêm o hábito de fumar devem passar pelo portão até a área externa”, explica José Carlos Cappuccelli, CEO da unidade Forged Technologies.

A medida foi tomada depois de dois anos da implantação do programa Pare, iniciativa focada na recuperação do vício em nicotina. “Oferecemos a oportunidade e todos os meios disponíveis para que nossos funcionários façam uma transição saudável e menos traumática de recuperação do vício”, diz o executivo. Tudo começou em 2018 quando, ao aplicarem uma pesquisa interna para os 2.500 empregados, mapearam 150 fumantes.

Em seguida, a multinacional ofereceu palestras com um especialista cardiologista para falar sobre os riscos à saúde e o processo de cura. Só depois da conscientização, criou grupos de tratamento nos quais os 115 participantes passaram por acompanhamento médico, psicológico e nutricional. A empresa ainda custeia 70% dos valores de medicamentos aos pacientes que precisam. “Cada um define o seu dia D – aquele em que vai deixar de fumar. Comemoramos as conquistas nas reuniões de grupo e, no final do processo, há a entrega de um certificado e uma cerimônia em que os familiares são convidados”, diz José Carlos. Foi assim que 70 funcionários se tornaram ex-fumantes. Os demais continuam em acompanhamento para atingir o mesmo objetivo.

Mas e aqueles que não desejam parar de fumar? Uma pesquisa da consultoria Gallup, feita em 2017 com 1.021 respondentes, descobriu que 56% dos fumantes americanos sentem que são discriminados por seu hábito de usar nicotina, seja na vida pública, seja no emprego. Para o CEO, nenhum direito foi vedado com o programa, pois a empresa não proíbe que os funcionários saiam para fumar no ambiente externo e também não exclui candidatos na hora de contratar. “Informamos aos profissionais sobre nossa posição em relação ao fumo. Entendemos que é mais uma escolha deles do que nossa manter o interesse pela vaga”, diz Camila Macedo, gerente de RH da Thyssenkrupp.

Sem segundas intenções

Mesmo visando a saúde, essas medidas podem ser consideradas invasivas e fora do escopo das empresas, visto que fumar é uma questão individual. Mas Katia, da Produtive, pondera: “Seguindo por essa linha, programas de alimentação saudável, ergonomia e bem-estar também não estão no escopo da empresa, mas esses são elogiados”. Para a especialista, o contexto da saúde do funcionário compete, sim, às empresas. Ainda mais porque o tratamento para o fumo pode ajudar a lidar com sentimentos como ansiedade e estresse.

O importante é a maneira como a companhia endereça a temática. Lançar um programa antitabagismo com enfoque nos custos corporativos com a saúde dos fumantes ou nas perdas de produtividade pode gerar um efeito contrário e afastar os funcionários, em vez de engajá-los. “Eles sabem que fumar faz mal e o quanto prejudica diferentes momentos da vida. Se a empresa começa falando de resultados para o negócio, fica nítido que o dinheiro é mais importante do que o indivíduo. Isso é um erro”, explica Katia.

O cenário ideal, segundo a médica Jaqueline, é aquele em que a companhia cumpre com a lei antifumo, mas concede a alternativa aos dependentes de nicotina. “Quando a empresa dá a opção, a mensagem que passa é: ‘Você quer se tratar? Oferecemos essa possibilidade a você’.” Às vezes, tudo o que falta ao fumante é o apoio para se livrar do vício.

Fechando o cerco: políticas antitabagistas ao redor do mundo

Estados Unidos
Companhia de mudanças americana U-haul anunciou a suspensão da contratação de usuários de nicotina – como consumidores de cigarro, vapings, adesivos ou gomas de mascar – para seu quadro de funcionários.

Espanha
Tribunal espanhol permitiu que a empresa Galp Energia Espanha desconte do salário dos funcionários as paradas para cigarro. Foi instituído que eles marquem ponto em cada pausa e justifiquem o motivo.

Japão
Piala Inc., empresa de marketing japonesa, concedeu aos funcionários não fumantes seis dias extras de férias para compensar o tempo que trabalham a mais, comparado às pausas de fumantes.

Reino Unido
Na inglesa KCJ Training & Employment Solutions os não fumantes são recompensados com quatro dias a mais de férias anualmente.

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