Levantamento mostra que maioria das startups do Brasil não é diversa

Embora 53% não empreguem negros e 94% não tenham PCDs, 88% acreditam que suas empresas apoiam a inclusão. Veja mais dados

As startups brasileiras ainda precisam fazer muito para se tornar ambientes diversos. É isso o que revela o Mapeamento de Comunidades 2020 feito pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups) com base em dados de mais de 5.000 empresas do país entre os meses de maio e setembro deste ano e divulgado com exclusividade por VOCÊ RH.

De acordo com o levantamento, 59% dos fundadores de startups são homens e 26% das companhias não possuem nenhuma mulher nas equipes. A maioria (64%) dos profissionais de startups se declaram brancos; os pardos são 23%; os negros  6%; os amarelos 2% e os indígenas 0,5%.

A falta de inclusão também se revela na composição dos times: 53% das startups não emprega negros e 94% não contrataram pessoas com deficiência. Além disso, a comunidade LGBT+ também está pouco representada: 92,3% dos profissionais do setor se declaram heterossexuais.

Os dados são representativos das desigualdades do Brasil, como explica José Muritiba, diretor executivo da Associação Brasileira de Startups, em entrevista para VOCÊ RH.

Quais são os motivos que levam as startups a terem uma diversidade tão baixa?

Infelizmente, a área de tecnologia ainda reflete muito as desigualdades sociais que enfrentamos enquanto sociedade, um reflexo estrutural que vem do racismo, do preconceito e da desigualdade social e todas as consequências que isso gera – como  acesso à educação, oportunidades de desenvolvimento e oportunidades que são desiguais para parte da população. Vivemos em uma sociedade patriarcal que por muito tempo colocou as mulheres em papel de submissão e a afastou do mundo do trabalho. Assim, a falta de exemplos e os preconceitos desestimularam a entrada de mais mulheres em espaços ligados a tecnologia e alta gestão por muito tempo. No Brasil, a questão racial também é socioeconômica o que desequilibra a equação de igualdade, sem contar os preconceitos sobre gênero e orientação sexual.

Este é o cenário social, mas não devemos aceitar isso como justificativa. E é por isso, que nós, enquanto organização, temos uma preocupação constante para reverter esse cenário, nos apoiando na educação e conscientização dessas discussões para criar um ambiente equilibrado e acessível. Temos visto essa tomada de consciência nos últimos anos, mas ainda é um trabalho constante para obter resultados cada vez melhores e principalmente para avançar – não queremos só ter diversidade no ambiente de trabalho, mas também é  preciso que essa diversidade esteja presente em cargos de liderança, em posição de tomada de decisões e assim por diante.

A pesquisa revela um dado interessante: embora não tenham times diversos, 88% acreditam que suas startups apoiam a diversidade. Isso não é uma contradição ? 

Sim, é exatamente uma contradição. E é uma realidade que comprovamos com a pesquisa: as discussões sobre diversidade estão presentes mais do que nunca socialmente, e não é diferente no ambiente das startups. Em pleno 2020, não apoiar a diversidade parece inimaginável para uma marca que quer se posicionar no mercado, se comunicar com o jovem e as tendências.

Porém, existe uma diferença óbvia entre discurso pró diversidade e políticas institucionais que as coloquem em prática. Isso porque é uma tarefa que exige conscientização e mudanças internas: desde processos seletivos, cultura de time, espaços de debate. Não é só querer ser mais diverso, é necessário implementar ações que estimulem a diversidade.  Que bom que o conceito está difundido, vemos que o primeiro passo foi dado. Mas o caminho está só começando. Daqui a adiante, o objetivo é entender o que impede a prática:  e ajudar os esforços para que startups encontrem os caminhos.

 Quais são as maneiras de aumentar a diversidade nessas empresas? O caso Nubank pode ensinar algo? 

Seja para o ambiente de startups ou qualquer segmento do mercado de trabalho é preciso uma mudança de mentalidade social. Nós precisamos reconhecer privilégios e enxergar a desigualdade de oportunidades que existe estruturalmente no Brasil. Muito se fala no discurso de igualdade, mas igualdade parte da ideia de que devemos tratar todos iguais, porém não somos iguais, então a palavra acaba com o sentido de pluralidade e de diversidade. A igualdade persiste em uma padronização, e não é assim que fazemos acontecer. Devemos, por isso, buscar pela diversidade, a equidade, a valorização e a equiparação da mesma.

Para isso, é preciso quebrar a falácia da meritocracia e na prática apoiar iniciativas e movimentos de fomento. Já temos exemplos no ambiente de startups como Programaria (formação de mulheres na tecnologia), Woman Will (treinamento de liderança feminina), BlackRocks (aceleradora de startups para negros), Camaleao (plataforma de contratação LGBTI+), para assim quebrar a bolha de preconceitos e tornar o ecossistema de startups mais diverso e inclusivo.

Os dados do mapeamento que acabamos de divulgar são outro passo importante, porque expõem a realidade e permitem traçar estratégias que transformem esta realidade, especialmente quando temos exemplos recentes como o caso no Nubank. Ele nos mostra que o trabalho de conscientização precisa continuar existindo, que é preciso aprofundar as discussões e atingir os tomadores de decisões e cargos de liderança, para promover mudanças.

 

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