Dia da Consciência Negra: a sociedade está mesmo se tornando inclusiva?

O aumento de negros e de outros grupos minorizados entre os eleitos nas eleições municipais demonstram preocupação da sociedade com a inclusão aumentou

Não falamos de outra coisa. Parece que nestas últimas eleições o povo brasileiro entendeu um pouco mais sobre a importância de a proporcionalidade, a representatividade e a humanidade, presentes em cada um de nós, estarem em todos os lugares, inclusive nos postos de tomada de decisão do legislativo e executivo nas cidades brasileiras.

Em São Paulo – considerada a maior metrópole do país com 11,89 milhões de habitantes, segundo o IBGE – por exemplo, passamos de dez vereadores negros para 11 vereadores negros; de 11 vereadoras mulheres para 13 vereadoras. E de nenhuma mulher negra na Câmara para quatro mulheres negras. Sendo que uma delas, Erika Hilton, é mulher, preta, trans e foi a sexta vereadora mais votada na cidade. É a primeira mulher transgênero a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo.  Carolina Iara, travesti, intersexo e soropositiva também foi eleita na capital paulista.

Segundo a agência de jornalismo Alma Preta “negros serão 44% dos vereadores nas câmaras municipais de diversas cidades em 2021”. Em todos os municípios do Brasil, este fenômeno se repetiu. Vimos a presença de mulheres, de negros, de LGBTQIAP+, entre outros grupos minorizados, aumentar. A dúvida que não quer calar é: será que esse resultado nas eleições é um reflexo do aumento do debate no campo empresarial?

As batalhas de 2020

Sabemos que ao longo deste ano as empresas se posicionaram com força na luta antirracista e pró-equidade racial. A valorização da diversidade e a inclusão estão na pauta das grandes corporações brasileiras. Vimos a repercussão que teve o programa de trainees do Magazine Luiza, com foco para negros e a transparência da empresa ao mencionar publicamente que nos últimos anos havia contratado cerca de 250 trainees, dentre eles somente dez negros e que por isso este ano estava abrindo de dez a 20 vagas exclusivas para essa parcela da população.

Tivemos também a Ambev com o Programa de Estágio Representa focado na população negra e o programa de trainees que atualizou as regras do jogo e equiparou as oportunidades ao tirar a exigência do idioma inglês como critério obrigatório no processo.

Além disso, Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, cedeu por cerca de sete dias o seu perfil do LinkedIn para que eu, uma mulher negra, pudesse falar diretamente de sua página, com um público para lá de seleto sobre igualdade racial, mulheres negras, LGBTQIAP+, negros, empreendedorismo, empregabilidade e muito mais.

Caminho sem volta

Aparentemente, o debate, a conscientização e as ações coordenadas que estão sendo realizados nas empresas, ao somar forças com o mês da Consciência Negra, com a intelectualidade negra que tem atuado com esmero no Brasil e com os acontecimentos recentes geraram um despertar inclusivo na população.

É evidente que, tanto nas empresas como no poder público, há ainda uma sub-representatividade, mas em ambos os casos sabemos que o caminho é sem volta. O ser humano, cidadão e cidadã, é o mesmo que vota, é o mesmo que exerce os mais variados cargos dentro das grandes, médias e pequenas empresas no Brasil. Cada um de nós, ou ao menos alguns de nós, parece estar cada vez mais assumindo para si a responsabilidade de transformar a sociedade de todas as formas possíveis. E você, vamos em frente?

Fundadora e CEO da Gestão Kairós consultoria de Sustentabilidade e Diversidade e autora do livro “Como ser um líder inclusivo”. Criadora do conceito Diversitywashing e reconhecida como 101 Top Global Diversity and Inclusion Leaders no Diversity & Inclusion Excellence Awards 2019 e 2020, na Índia.

 

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