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Novo risco-China: país intervém em empresas tech e derruba bolsas

O tombo começou na Ásia e foi até Nova York. Ibovespa caiu 1,10%. O motivo é um velho conhecido de investidores da Petrobras e outras estatais.

Por Tássia Kastner Atualizado em 27 jul 2021, 18h10 - Publicado em 27 jul 2021, 18h03

Foi ali no final de 2020 quando, de uma hora para outra, corretoras começaram a dizer que investidores brasileiros deveriam ter parte do dinheiro em empresas chinesas. Dois argumentos eram mais fortes: trata-se da segunda maior economia do mundo e do país que se recuperava de forma mais acelerada da pandemia.

Tudo verdade, é bom notar. Só que, enquanto vendiam os argumentos pró-investimento, esqueceram de contar dos riscos que todo investimento tem – algo prudente de se fazer. Nesta semana, o perigo apareceu e, de quebra, afetou até quem não embarcou nas ações chinesas.

A China não é uma democracia. Está sob o comando de um regime comunista que decidiu se incomodar com o crescente poder de empresas de tecnologia do país. Vamos lá: você sabe que Google, Facebook e Amazon conhecem a sua alma, a questão é o que eles podem fazer com isso. Nas big techs chinesas, tipo Alibaba e WeChat, é a mesma coisa. E é justamente isso que o governo de lá teme. 

No episódio de hoje, o regulador do setor de tecnologia anunciou um programa de seis meses para corrigir o que ele considera práticas anticompetitivas e uso indevido de dados pessoais. Não foram citados setores específicos sob escrutínio, segundo reportagem do The Wall Street Journal.

No final de semana, o governo local havia decidido impor regras para a atuação no setor de educação (ed techs), o que já havia derrubado as bolsas chinesas e em Hong Kong no pregão de domingo para a segunda. Só que o mundo ocidental só se preocupou de verdade hoje, quando a Ásia emendou o segundo dia de queda acima de 3% e na esteira desse programa chinês;

Segundo reportagem da agência de notícias Bloomberg, foi porque os americanos com investimentos na Ásia só entraram na liquidação chinesa nesta terça. Convencidos do tamanho do problema, começaram as vendas por lá e, depois que Nova York abriu, passaram a vender papéis de empresas chinesas negociados nos EUA.

O índice Shangai/Shenzhen, o mais importante da China, recuou 3,53% e acumula baixa de 9,53% no mês. O índice de Hong Kong, onde parte das empresas de tecnologia chinesas é listada, cedeu 4,22%. E caso você esteja perguntando, o ETF na B3 que permite investir em ações chinesas desde o final do ano passado, o XINA11, caiu 3,24% hoje. Desde a estreia, o tombo é de 15%.

Intervenção

Você já viu esse filme. Quando o governo brasileiro decide trocar o presidente da Petrobras ou congelar preços dos combustíveis, analistas de mercado e investidores entram em pânico. Mandam vender as ações e voltam a se queixar do tal “risco estatal”. Decisões ancoradas em critérios que não sejam econômicos podem trazer prejuízo aos investidores.

Já quando o governo anuncia privatização, as ações sobem. É o caso da Eletrobras. Essa dinâmica vale também para Banco do Brasil e qualquer outra companhia que tenha a União ou um estado como principal controlador. O Banrisul, banco público do Rio Grande do Sul, sofreu um ajuste de contrato com o governo local que pode comer 8% do lucro da instituição, segundo cálculo da XP.

O lance é que as empresas são negociadas com um desconto em relação a concorrentes privados. A ideia é que investidores só topam comprar se for mais barato, dado que estão correndo mais riscos. Do jogo.

Claro que o governo de qualquer país (daqui, dos EUA ou da China) tem a capacidade de interferir em empresas 100% privadas. Em alguns casos, por exemplo, pode ser para coibir práticas anticompetitivas, em outros, para aumentar a arrecadação. Só que acaba sendo de uma maneira mais sutil, para não afetar tanto o ambiente de negócios e não afugentar investidores.

A China não fez cerimônia. Limitou a atuação das companhias de educação a ponto de analistas questionarem a viabilidade do negócio. O episódio anterior havia sido com a Didi, o Uber chinês. O governo vinha acusando a companhia de coletar dados de usuários indevidamente e tirou o aplicativo das apps stores. Quem tem o app, no entanto, pode continuar usando. O lance é que a intervenção veio na sequência da abertura de capital em Nova York, no final de junho. Desde então, as ações acumulam queda de 40%.

No ano passado, o alvo foi o Ant Group, a fintech do gigante de comércio eletrônico Alibaba. Em novembro, a empresa planejava um IPO com o potencial de arrecadar o recorde de US$ 35 bilhões. Dono do conglomerado, Jack Ma sumiu do noticiário.

Contágio

O impacto sobre as empresas de tecnologia se espalhou pelo mundo, um efeito comum quando investidores estão inseguros. 

Ações da Apple e da Microsoft tombaram hoje, véspera da divulgação dos resultados do segundo trimestre. A maçã, a maior empresa do S&P 500, caiu 1,49%. Amazon, Facebook e Tesla também recuaram. Aí não tem milagre. O índice de tecnologia Nasdaq caiu 1,21%, enquanto o S&P 500 cedeu 0,47%.

Para além do efeito chinês, americanos têm outra justificativa. Amanhã o Fed anuncia sua decisão de política monetária. Escrevendo em português, se sobe ou não a taxa de juros do país, atualmente em zero. Ninguém conta com uma mudança nos juros, mas todos seguem ansiosos por sinalizações de quanto o Fed vai parar de imprimir dinheiro.

E no Brasil

O Ibovespa também sofreu o efeito-China nesta terça. O índice caiu 1,10%, a 124.612 pontos. Das 84 ações do índice, apenas 13 subiram. 

Entre as que se escaparam estão Itaú e Itausa (a holding de investimentos da família). A altinha modesta foi cortesia do aval do Banco Central para a cisão com a corretora XP. A separação foi anunciada no ano passado, apenas três anos após o banco laranja ter comprado 49,9% da corretora. Esse era o último aval necessário para a separação completa. E enquanto o Itaú subiu, a XP (listada na Nasdaq) recuou 3,68%. 

A corretora se posiciona como uma empresa de tecnologia. O divertido (se você vê graça na tragédia, claro) é que agora o Brasil também tem sua história tech para contar, e não só lá fora. Na lista de maiores baixas do dia na B3 figuraram a Locaweb e o banco Inter, duas ações que o investidor local colocou na carteira para ter exposição em tecnologia. Mas aí já sabe, né? É na alegria e na doença.

Até amanhã.

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MAIORES ALTAS

CPFL +1,89%

Itaú  +0,98%

Bradesco +0.79%

Copel +0.66%

Itausa +0,63%

MAIORES QUEDAS

CVC -5,21%

PetroRio -4,27%

Locaweb -3,93%

Banco Inter -3,78%

Braskem -3,73%

Ibovespa: -1,10%, a 124.612,03 pontos

Em Nova York

Dow Jones: -0,24%, a 35.059,64 pontos

S&P 500: -0,47%, a 4.401,70 pontos

Nasdaq: -1,21%, a 14.660,58 pontos

Dólar: +0,06%, a R$ 5,1775

Petróleo

WTI: +0,07%, a US$ 71,96 o barril

Brent: +0,30%, a US$ 74,72

Minério de Ferro

-0,08%, a US$ 202,57 a tonelada no porto de Qingdao

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