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Mais ataques à democracia e um massacre no Ibovespa

A bolsa caiu quase 4% e mergulhou para 113 mil pontos, o dólar teve a maior alta diária em mais de um ano, e os juros foram para a lua. Um estrago que poderá afetar ainda mais o seu bolso.

Por Juliana Américo, Tássia Kastner 8 set 2021, 18h42
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Tem dias que não é preciso uma bola de cristal para saber o que vai acontecer. Era pedra cantada que o protesto bolsonarista de 7 de setembro seria recheado de ataques à democracia, em diversas apresentações. Ainda assim, Bolsonaro se superou. Ofendeu nominalmente ministros do Supremo e disse que deixaria de cumprir decisões da mais alta corte do país, dinamitando mais um pouco da já mirrada confiança de investidores no país.

O resultado é que o Ibovespa derreteu a 113 mil pontos, o dólar avançou a 2,89%, na maior alta diária desde junho do ano passado, e os juros futuros escalaram para acima de 10% ao ano no contrato de cinco anos. Um filme de terror que mostra o impacto de uma crise política sobre a economia – e dá pistas de o quanto ainda pode piorar. Em Nova York, o dia também foi ruim, mas nada comparado ao massacre pelas bandas de cá.

Nesta quarta, o presidente da Câmara, Arthur Lira, o dono da gaveta com pedidos de impeachment contra Bolsonaro, disse não ter visto problemas em um protesto cuja pauta é antidemocrática e até elogiou o que chamou de clima pacífico das manifestações (que pregam a violência contra o Supremo). Hm.

Na outra ponta do triângulo dos Três Poderes da República, o presidente do Supremo, Luiz Fux, condenou os atos e lembrou que ameaças ao Judiciário são crimes de responsabilidade – tentando lembrar que o impeachment existe.

O problema é que a fala de Fux veio depois de Lira ter dado a entender que o clima no país “tá sussa” e que a gaveta continuará fechada. Isso enquanto apoiadores do governo continuam ameaçando a Corte. Pela manhã, manifestantes tentaram invadir a sede do Ministério da Saúde, ao lado do Supremo. À tarde, tentavam furar o bloqueio que impede o acesso ao STF com caminhões.

Quase que fingindo surpresa com mais um degrau subido nessa escalada da crise, o Ibovespa levou um tombo de 3,78%, aos 113.412 pontos – uma perda de 4 mil pontos em um único pregão. A última vez que a bolsa chegou a esse patamar foi em março. Mas é aquela coisa, na segunda pré-protesto, o principal índice de ações da bolsa brasileira havia subido.

Brasília rachada 

A degringolada geral na Faria Lima tem um combo de motivos que vai bem além da democracia. Primeiro: enquanto briga com os Poderes, Bolsonaro congela a agenda de reformas acalentada pelo mercado. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, cancelou todas as sessões desta quarta por considerar que não há ambiente político para a realização das votações. 

Estão nas mãos do Senado a Reforma do Imposto de Renda e a privatização dos Correios. Na semana passada, a casa já havia barrado uma medida provisória que criava um programa de emprego que permitia a contratação sem a maioria dos direitos trabalhistas previstos na CLT. 

Tem mais um motivo. O Orçamento apresentado pelo governo para 2022 é uma peça de ficção. Ele diz que o governo pagará quase R$ 90 bilhões em precatórios. Se fizer isso, não sobra para mais nada, e isso é irreal para um ano eleitoral. 

Há algumas semanas o Supremo havia entrado em uma articulação para o parcelamento dessa dívida, sem que isso fosse considerado crime de responsabilidade fiscal. Depois do aumento dos ataques, o incentivo em ajudar o governo diminui bastante.

Nisso, investidores precisam colocar na conta uma piora generalizada nas contas públicas. Não à toa os juros futuros do país dispararam. Se investidores acreditam que vai ficar mais arriscado emprestar para o governo, eles pedem uma taxa maior. E bota maior nisso. O DI para cinco anos subiu a 10%. O contrato de dez anos rompeu os 11%.

Isso não é um problema só para o governo; é para as empresas e para a economia como um todo, também. É que tomar crédito para investir fica mais caro, aí todo mundo pisa no freio. Nisso, a empresa tem menor potencial de lucros, e a ação cai. E com menos investimentos, a economia toda breca. Não há uma sinalização positiva sequer no radar.

Unidas e Localiza

Aí que hoje, das 91 ações do Ibovespa, apenas cinco subiram. Duas delas devem virar, em breve, uma só. Na noite de segunda, a Superintendência do Cade – que é o órgão de defesa da concorrência – deu sinal verde para a fusão entre Localiza e Unidas. 

Juntas, elas poderiam controlar quase 70% do mercado nacional. Aí que o Cade deve impor o que ele chama de “remédios” para minimizar os efeitos da menor concorrência. As medidas não foram divulgadas na íntegra, mas entre elas estão a redução da frota e venda de lojas da Unidas, além do fim da cláusula de não-concorrência com a empresa americana Vanguard (proprietária das marcas Enterprise, National e Alamo). 

Saiu melhor que a encomenda. Segundo o Valor Econômico, o banco Credit Suisse analisou que os remédios são menos severos do que o esperado. Mas esse foi só um primeiro parecer. Agora, a fusão segue para avaliação do Tribunal do Cade, que tem até janeiro de 2022 para tomar uma decisão.

Mas o que importa é que o mercado achou o cade benevolente: os papéis das companhias chegaram a avançar 10% ao longo do dia – uma façanha e tanto em um dia que a bolsa de valores derreteu quase 4%. A Localiza fechou com alta de 8,14% e a Unidas subiu 7,03%.

É isso o que a gente tinha para hoje. Quem sabe amanhã apareça alguma notícia melhor.

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Maiores altas

Localiza: 8,14%

Locamerica (Unidas): 7,03%

Suzano: 1,82%

Qualicorp: 0,98%

Weg: 0,30%

Maiores baixas

Méliuz: -11,08%

Americanas: -9,40%

Eletrobras: -9,13%

Via: -8,64%

Locaweb: -8,40%

Ibovespa: queda de 3,78%, aos 113.412 pontos

Em NY:

S&P 500: queda de 0,13%, aos 4.514 pontos

Nasdaq: queda de 0,57%, aos 15.286 pontos

Dow Jones: queda de 0,20%, aos 35.030 pontos

Dólar: alta de 2,89%, a R$ 5,3261

Petróleo

Brent: alta de 2,17%, a US$ 72,60

WTI: alta 1,39%, a US$ 69,30

Minério de ferro: queda de 4,19%, US$ 132,19 no porto de Qingdao (China)

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