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Maior inflação para julho desde 2002 pesa no seu bolso e no Ibovespa

IPCA está em 8,99% em 12 meses, e um diretor do BC diz que está difícil prever preços de alimentos e combustíveis. Sinal de juro alto. Ruim para a bolsa, bom para o câmbio: -0,96% no dólar.

Por Juliana Américo, Tássia Kastner 10 ago 2021, 18h52

Ir ao supermercado dá vontade de chorar. Abrir a conta de luz virou tortura. A inflação que já pesa no seu bolso ganhou um número concreto hoje: o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 0,96% em julho de 2021, a maior variação para o mês desde 2002. Em 12 meses, a alta é de 8,99%, fazendo da meta do BC de inflação em 3,75% um ponto distaaaante no retrovisor.

E inflação tem tudo a ver com a queda da bolsa nesta terça-feira. 

Do começo. Não é só que a inflação de julho veio alta. É que os preços tendem a continuar subindo. Em julho, a maior alta foi no grupo habitação (3,10%), onde entra o aumento de 7,88% na conta de luz. Desde junho, a fatura inclui a bandeira vermelha, mecanismo que serve para pagar a energia mais cara, gerada por usinas térmicas, em períodos de seca. 

O problema é que nem a bandeira estava fazendo a conta fechar, dado a falta d’água nos reservatórios das hidrelétricas. Aí ela foi reajustada em julho, pegando na inflação que o IBGE divulgou hoje, mas sofreu um novo aumento em agosto, uma conta que a gente ainda vai precisar pagar.

Não bastando isso, nós tivemos as geadas severas no fim do mês passado, que vão afetar a produção agrícola e deixar a conta do supermercado ainda mais cara. E não vamos nem falar da gasolina, que você sabe que não para de subir.

Só que os fatores externos, que os economistas gostam de chamar de choques, não geram inflação sozinhos. É preciso de matéria-prima para os preços subirem. E a matéria-prima da inflação é dinheiro.

Surpresinha na PEC dos Precatórios

O governo detalhou nesta terça a proposta de parcelamento dos precatórios, aquela que tenta adiar o pagamento de dívidas da União que não poderiam mais ser adiadas. Foi quando o mercado descobriu que o projeto tem um trecho que, na prática, acaba com a “regra de ouro” das contas públicas. 

Essa regra de ouro é um mecanismo legal para impedir que o governo se endivide a rodo para pagar despesas correntes, como aposentadorias e salários de servidores. Hoje, se o governo quiser ficar no vermelho para cobrir essas despesas, ele precisa de uma aprovação do Congresso (inclusive, isso é algo que acontece desde 2019). 

Sem essa aprovação dos deputados e senadores, o governo fica sujeito a crime de responsabilidade fiscal. E depois de Dilma Rousseff, você sabe, todo político ficou com medo. Bem, a PEC pode acabar com esse “inconveniente”. Mas claro, cria outro bem mais grave. Ele alimenta a inflação.

Sem um limite de endividamento, o governo pode aumentar gastos sem limite para fazer obras, pagar Bolsa Família, dar aumentos a servidores. Na prática, estamos falando de impressão de dinheiro sem limites. E não falta incentivo para distribuir benesses, já que estamos às portas de um ano eleitoral – e olha que a conta das medidas eleitoreiras já ultrapassam R$ 62 bilhões, segundo a Folha

A consequência de um aumento de gastos do governo é que passa a circular tanto dinheiro na economia que ele vai perdendo valor. No fim, os seus R$ 100 não pagam mais nem um botijão de gás (ops, não pagam mesmo, já que ele anda custando R$ 120 nas grandes cidades). Se você quiser tirar um tempo para entender a fundo como acontece, recomendamos essa reportagem

O Brasil foi por décadas um exímio criador de inflação. O risco de um descontrole fiscal é tão grande que a legislação brasileira tem uma série de travas para o aumento de gastos, como a regra de ouro. Uma outra trava já estava a perigo: o teto de gastos. É que o objetivo inicial da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos Precatórios era parcelar uma parte dessa dívida (teoricamente imparcelável e inegociável) para abrir um espacinho embaixo do teto de gastos para despesas novas.

Espacinho é eufemismo, claro. O objetivo era tirar R$ 33,5 bilhões, o que permitiria um pagamento adicional aos beneficiários do Bolsa Família. O lance é que dívida não some. Nesse caso, ela passaria a ocupar um teto de gastos no futuro (uma, ops, pedalada). 

Só que, no presente ou no futuro, é uma conta que precisa ser paga. Na prática, equivale a mais dinheiro circulando. E dinheiro circulando é combustível na fogueira da inflação.

O que apaga o fogo

O Banco Central nem sabia desses planos do governo para o teto de gastos e para a regra de ouro quando subiu a Selic para 5,25%, na semana passada. Naquela reunião, o Copom (o comitê de política monetária) também sinalizou que vai continuar apertando os juros com um novo aumento de 1 p.p. na reunião de setembro. A Selic deve terminar o ano em 7,75%, segundo as previsões mais recentes dos economistas. Isso a gente já sabia.

Nesta terça, o BC divulgou a ata da reunião, documento em que fundamenta a decisão de aumento de juros. Não houve grandes novidades: os membros do Copom estão preocupados com os riscos da reabertura do setor de serviços, com o avanço da vacinação, e também com a inércia inflacionária – essa força econômica que faz o dono do mercadinho aumentar os preços antevendo que, na hora de repor o estoque, tudo estará mais caro.

A surpresa, porém, foi a fala do diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra. À tarde, em um evento do Goldman Sachs, ele afirmou que o BC já estava preocupado com o cenário fiscal e que, agora, isso incluirá a PEC dos Precatórios. Serra também disse que não é possível sinalizar sobre a inflação de combustíveis e alimentos em 12 meses, segundo o Broadcast e o Bom Dia Mercado. Quer dizer, não tem notícia boa MESMO.

Tem dois jeitos de a inflação se acalmar. Um é o governo reduzir gastos, mas não dá para contar com isso, ainda mais agora. Aí o jeito que o BC tem de cumprir a sua meta é subir juros com convicção. A convicção, até agora, era ter subido a Selic em  1 p.p, algo que não acontecia numa única reunião desde 2003. Pode ser que, refazendo as contas, isso ainda seja pouco. O Credit Suisse já falava em Selic a 8,25% ao fim do ano.

Só que juro alto torna o investimento em ações uma brincadeira menos divertida. A ideia é sempre buscar o maior retorno possível sob o menor risco. O menor risco que existe é emprestar dinheiro para o governo e receber a Selic. Se ela vai a 7% ou 8%, a empresa tem que entregar pelo menos isso em lucro ao acionista para valer a pena. Na média, o rendimento com dividendos fica em 4% ao ano – ou seja, já não anda compensando.

E isso ajuda a explicar a queda do Ibovespa nesta terça – e porque os 130 mil pontos viraram apenas uma doce lembrança. O índice caiu 0,66%, aos 122.202 pontos. O volume de negócios ficou em R$ 26 bilhões, abaixo da média diária do ano, de R$ 34 bi. Isso é um sinal de que investidores estão menos animados a fazer negócios em um cenário incerto. E bota incerto nisso.

Crise dos tanques

Brasília acordou com um clima de tensão no ar. Isso porque o governo organizou um desfile militar com veículos blindados da Marinha justamente no dia em que o Congresso votaria a proposta de volta do voto impresso. Isso sem falar nos ataques reiterados aos ocupantes do prédio em frente ao Planalto, o STF. 

A votação da PEC do voto impresso na Câmara dos Deputados ficou para depois do fechamento do mercado – começou às 18h.

O desfile militar foi rápido – durou uns 10 minutos – mas foi interpretado desde o início como uma tentativa de intimidação e demonstração de força do presidente Jair Bolsonaro. No fim, virou meme. Mas talvez estejamos todos rindo de nervoso.

Dólar

Quem ignorou essa bagunça em Brasília, pelo menos hoje, foi o dólar. É que a mera possibilidade de aumento na taxa de juros atrai dinheiro de fora que busca coisas mais atrativas que os rendimentos minguados dos títulos americanos. A Selic deles, não custa lembrar, está em zero e não deve subir neste ano. 

A nossa moeda, que ontem chegou a beirar os R$ 5,30 no pior momento do dia, caiu quase 1%. Fechou a R$ 5,1967. Mas não custa lembrar, economistas calculam que, considerando apenas a economia, o câmbio deveria estar abaixo de R$ 5. Ou seja, juro não faz milagre quando se tem crise política, né, Brasília?

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Lá fora

E hoje não deu nem para contar com os EUA. Por lá, o Senado americano aprovou o pacote de infraestrutura de US$ 1,2 trilhão do presidente Joe Biden, isso depois de meses de negociação. 

O texto ainda precisa passar pela Câmara, mas a proposta é de que metade do dinheiro será destinado para novos gastos, sendo US$ 110 bilhões para o reparo de rodovias, pontes e viadutos e US$ 66 bilhões para ampliar e melhorar ferrovias e trens.

Já US$ 55 bilhões serão investidos no fornecimento de água, com projetos para substituir todos os encanamentos de chumbo, e US$ 65 bilhões irão para modernizar a malha energética do país. Outros US$ 47 bilhões irão para respostas a queimadas, secas, tempestades e outros eventos climáticos que deverão se tornar mais frequentes nos próximos anos. 

A legislação também inclui US$ 7,5 bilhões para a construção de uma rede nacional de postos para a recarga de automóveis elétricos. E o projeto ainda prevê melhoria de aeroportos, limpeza de nascentes e expansão do acesso à internet. 

O lance é que o mercado não sabe se aposta que isso vai ajudar a economia americana, agora que mais gente teme uma desaceleração causada pela variante delta do coronavírus, ou se vai só alimentar a inflação, que por lá anda em 5,4%

Deu para notar a confusão em Wall Street: o Nasdaq fechou com queda de 0,49%, aos 14.788 pontos. Já o S&P 500 ficou no positivo: alta de 0,10%, aos 4.436 pontos. 

E se você achava que amanhã poderia ser um dia mais tranquilo, melhor pensar duas vezes: Lira colocou a reforma do Imposto de Renda na pauta, outro assunto que tira o sono dos investidores desde que foi apresentado. Resta saber como descansar. 

Maiores altas

PetroRio: 6,71%

Embraer: 3,00%

Gerdau: 2,55%

Usiminas: 2,32%

Metalúrgica Gerdau: 1,40%

Maiores baixas

Iguatemi: -3,56%

Eneva: -3,18%

Lojas Americanas: -2,88%

Locamerica: -2,50%

Ambev: -2,51%

Ibovespa: queda de 0,66%, aos 122.202 pontos

Em NY:

S&P 500: alta de 0,10%, aos 4.436 pontos

Nasdaq: queda de 0,49%, aos 14.788 pontos

Dow Jones: alta de 0,46%, aos 35.264 pontos

Dólar: queda de 0,96%, a R$ 5,1967

Petróleo

Brent: alta de 2,30%, a US$ 70,63

WTI: alta de 2,72%, a US$ 68,29

Minério de ferro: queda de 5,84%, US$ 162,44 no porto de Qingdao (China)

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