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Dólar a R$ 5,60 pode ser o anúncio de um inverno econômico chegando

Investidores até podem colocar uma parte da crise na conta do exterior, mas o caos que derrubou o Ibov de volta aos 110 mil pontos é coisa nossa

Por Tássia Kastner Atualizado em 26 fev 2021, 20h02 - Publicado em 26 fev 2021, 19h52

Não faz nem dois meses que o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, lutou para manter o emprego depois de anunciar que queria fechar agências. Nesta sexta-feira (26), o mercado financeiro ficou sabendo que o executivo colocou o cargo à disposição do presidente Jair Bolsonaro. Não é que tivesse faltando alguma coisa para o mercado financeiro saber que nada vai bem no Brasil, mas, depois disso, degringolou geral.

O dólar fechou de novo em R$ 5,60, o que não ocorria desde novembro do ano passado. O Ibovespa derreteu e chegou a perder os 110 mil pontos, para terminar em 110.035 pontos, um tombo de 4,37% em fevereiro. A situação por aqui é tão periclitante que cresceram as apostas de que o Banco Central vá subir a Selic na reunião da próxima semana. E não adianta colocar a culpa na turbulência externa, isso é coisa nossa.

A saída de Brandão foi só mais uma evidência de como, em uma semana, ruiu o verniz que restava de “governo liberal” na gestão Bolsonaro. Desde a quinta passada, o único assunto era a intervenção do governo na economia, com a troca de comando na Petrobras e o incômodo de Bolsonaro com a alta no preço dos combustíveis. Reportagem da revista Veja desta semana mostrou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, ficou uma fera com a demissão de Roberto Castello Branco da petroleira e a indicação de um general para o lugar. Ter que achar um novo presidente para o BB não ajuda.

Enquanto isso, a Câmara passou a sexta-feira trabalhando, algo bastante inusitado para uma casa que costuma marcar votações apenas de terça a quinta. Mas não era para destravar a PEC Emergencial, aquela que o mercado financeiro coloca as fichas para liberar a nova rodada de auxílio emergencial sem causar um colapso nas contas públicas. Arthur Lira, presidente da Câmara, tentou passar uma PEC que tornava praticamente impossível prender políticos. Prioridades. Mas ele foi derrotado e precisou tirar o texto da pauta.

Enquanto isso, quem colapsa é o sistema de saúde. O país mata mais de 1.500 pessoas por dia de covid, UTIs estão lotadas em hospitais públicos e privados. De norte a sul, há fila de espera para ser atendido em postos de saúde e outra, ainda mais desesperadora, para ser internado.

Ainda assim, Jair Bolsonaro defende “vida normal” e prega contra o uso de máscaras, a única ferramenta que existe para diminuir o risco de contaminação de quem precisa sair de casa. Nesta sexta, ele disse que as pessoas “não aguentam mais ficar em casa” e “querem trabalhar”. Provocou governadores e prefeitos, dizendo que o auxílio emergencial (aquele que está travado no Congresso) deveria ser pago por governantes que decidirem fechar parte do comércio para conter a pandemia. 

Tem alguns políticos que concordam. No Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite mandou fechar o comércio não essencial enquanto o estado beira o colapso no sistema de saúde. Incomodado, o prefeito de Porto Alegre sugeriu que as pessoas contribuam com as suas vidas para salvar a economia do município.

O ponto é que mortos não consomem, pessoas doentes não vão pro bar e quem tem medo de ficar doente e não ter hospital não sai de casa para comprar “uma coisinha”. O agravamento da pandemia, com medidas mais duras de isolamento ou não, só contrata uma situação mais difícil para a economia no ano 2 da pandemia. Nesta sexta, completou-se um ano da confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil.

“Ah, mas lá fora a coisa também piorou.” Piorou mesmo, mas por uma notícia boa, olha que ironia. É que lá a vacinação nos Estados Unidos e no Reio Unido está avançando, e agora economistas se preocupam com o risco de reflação (uma alta da inflação causada pela recuperação da atividade econômica após uma crise). Com o avanço da imunização, as pessoas poderiam voltar a consumir e isso seria o gatilho para a alta de preços. Bem, com isso o Brasil não precisa se preocupar — ficamos só com a inflação causada, em parte, pela disparada do dólar. Nós explicamos no Fechamento de Mercado de quinta porque o mercado lá fora azedou. Se eles estiverem certos, a notícia é ainda pior para o Brasil. 

Por enquanto, o componente internacional da alta do dólar é apenas um sinal de “aversão a risco” de investidores, que correm para colocar dinheiro em caixa. Mas se de fato a inflação subir por lá, os juros americanos também sobem para controlá-la. Aí o nosso Banco Central precisa subir a Selic. Hoje o juro americano é zero e a Selic é 2%. O que torna o Brasil mais ou menos atrativo para um investidor estrangeiro é essa diferença de taxa. Se o Fed (o banco central dos EUA) eleva a Selic deles, a diferença cai e ainda mais gente tira dólares do Brasil. Cai a oferta de dólares, ele sobe mais um pouco, nós temos mais inflação. Aí o único remédio é subir os juros aqui também.

O combo de caos fiscal, inflação, intervenção política e turbulência externa fez o Itaú revisar nesta sexta a projeção para a Selic ao fim deste ano. Ela iria a 5%, patamar que até outro dia os economistas do banco esperavam apenas para o fim de 2022.

Qual é o problema disso? Nossa economia segue anêmica, juros altos deixam o dinheiro mais caro e dificultam qualquer investimento capaz de dar um gás na retomada. Não sobrou nenhuma notícia que possa ser considerada positiva para deixar o mercado financeiro de pé. Estamos só entrando em março, mas o inverno econômico está chegando.

MAIORES ALTAS

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Eneva 2,27%

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Qualicorp -0,03%

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MAIORES QUEDAS

BRF -7,16%

ViaVarejo -6,02%

SulAmérica -5,03%

CSN -5,16%

CVC -4,95%

Bolsas americanas

S&P 500 3.811 (-0,47%)

Nasdaq 13.192 (+0,56)

Dow Jones 30.932 (-1,50%)

Petróleo

WTI: US$ 61,58 (-3,07%)

Brent: US$ 66,13 (-1,12%)

Minério de Ferro

+0,88%, a US$ 175,78 no porto de Qingdao.

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