Nestas empresas é permitido se afastar das atividades, e manter o emprego

Companhias criam programa de sabático em que os funcionários se afastam das atividades por um período — e os dois lados ganham com a prática

Você já quis apertar o botão de pause em sua vida profissional? Não largar tudo, mandar chefe e equipe às favas e jogar fora o crachá, mas dar um tempo, se afastar do ambiente de todo dia, recarregar a bateria e voltar às atividades revigorado? Para isso, uma alternativa é o período sabático.

Considerada um luxo por alguns, a prática vem ganhando adesão de empresas — entre elas estão algumas das 150 Melhores deste Guia — que, percebendo os benefícios para o bem-estar do trabalhador e para a saúde dos negócios, aumentam a oferta de programas estruturados de sabático (ou licença não remunerada, como algumas gostam de chamar).

Nesses casos, o salário é suspenso, mas plano de saúde e seguro de vida, por exemplo, são mantidos, justamente para que a pausa seja aproveitada com tranquilidade. Na maioria das vezes, a companhia garante o emprego na volta do profissional, embora não necessariamente no mesmo cargo ou área.

Apesar de ainda ser pouco usual no mundo corporativo, o sabático não é novidade. No universo acadêmico, há mais de um século é tradição que professores e pesquisadores se afastem da universidade para escrever artigos e teses, tocar projetos que demandam tempo ou se reciclar. Em alguns casos continuam a receber salário.

Com o passar dos anos, a prática foi emprestada por empresas. Algumas vezes, como uma solução menos traumática para conter despesas em momentos de crise — uma forma de afastar funcionários por um período, deixando de pagar vencimentos, mas sem demiti-los.

Mesmo sendo benéfico para os dois lados, o sabático ainda não é consenso. De acordo com dados de 2018 da Society for Human Resource Management, que concentra informações sobre práticas e tendências do setor de recursos humanos nos Estados Unidos, apenas 15% das companhias americanas oferecem programas de licença não remunerada aos funcionários.

Momento certo

Sensação de estagnação na carreira, desmotivação por falta de desafios e estresse elevado são sinais de que talvez seja hora de fazer uma pausa. Para Herbert Steinberg, fundador da Mesa Corporate Governance e autor do livro Sabático: um Tempo para Crescer (Editora Gente, esgotado), a decisão de fazer uma pausa na carreira geralmente surge de perguntas como:

  • Estou satisfeito com meu trabalho?
  • Estou deixando de lado projetos e valores pessoais por causa dele?
  • Seria bom ter um tempo para colocar as ideias em ordem?

“Distanciar-se da rotina de trabalho por um período favorece o autoconhecimento e traz novas perspectivas para questões pessoais e profissionais. Dependendo de como o sabático for usado, é uma oportunidade para exercer uma vocação que o ajude a voltar melhor do que saiu”, afirma Hebert.

Mesmo quando há na empresa uma política estruturada de concessão de sabático e até mesmo um incentivo para a prática, convém avaliar o contexto da organização antes de comunicar a intenção de se afastar por um período. Se o momento for de mudanças, demissões ou expansão do negócio, o pedido pode soar inadequado e oferecer riscos — o empregado pode passar a impressão errada de desinteresse e alienação, “perdendo o bonde” de reestruturações significativas.

É importante, ainda, ter clareza de que sabático não são férias nem uma temporada como nômade digital (profissional sem vínculo com o empregador que viaja, mas está sempre trabalhando ou buscando trabalho). “É um projeto que demanda planejamento financeiro e das atividades que pretende realizar para não desperdiçar a oportunidade concedida”, diz Ana ­Maria Rossi, doutora em psicologia e presidente da International Stress Management Association (Isma-BR).

“Como a pessoa tende a ficar com mais tempo disponível, definir objetivos evita que entre em um ciclo de excesso de pensamentos e dúvidas, o que pode prejudicar o equilíbrio emocional e estragar a experiência”, completa Ana Maria.

Ganha-ganha

A decisão das companhias que permitem que funcionários se afastem das atividades temporariamente para descansar, viajar, estudar ou dedicar-se à família (os objetivos mais comuns de quem desfruta um sabático) tem mais a ver com encantar e desenvolver bons profissionais.

Isso porque os trabalhadores estão cada vez menos dispostos a aceitar a carga horária excessiva e os modelos e processos engessados, que ainda reinam em muitas organizações. Para os funcionários mais experientes, a pausa pode fazer grande diferença para evitar a sensação de estagnação que costuma surgir depois de muito tempo na mesma função.

“Com o aumento da longevidade da população, os profissionais tendem a ficar mais tempo no mercado de trabalho. Com isso, é natural que passem por diferentes fases na carreira e precisem de pausas mais frequentes para refletir sobre que rumos tomar e planejar possíveis transições”, afirma Beatriz Maria Braga, coordenadora da linha de gestão de pessoas do mestrado profissional de gestão para a competitividade da Fundação Getulio Vargas.

Mariana Verceze, líder de RH de uma divisão da Basf: ela usou o programa de sabático da multinacional para fazer um MBA em administração em Madri, na Espanha | Foto: Leandro Fonseca

Mariana Verceze, líder de RH de uma divisão da Basf: ela usou o programa de sabático da multinacional para fazer um MBA em administração em Madri, na Espanha | Foto: Leandro Fonseca (/)

Hoje gerente de recursos humanos em uma das divisões da Basf, Mariana Verceze, de 35 anos, era gerente de recrutamento e seleção quando tirou um ano sabático para cursar um MBA em administração em Madri, na Espanha, em agosto de 2018, aproveitando o programa disponibilizado pela multinacional alemã.

Ela estava havia três anos na posição e queria expandir sua atuação e seus conhecimentos, ainda que fosse preciso mudar de emprego. “No meio do curso, conversei com meu chefe sobre outras possibilidades na companhia, pois não gostaria de retornar para fazer a mesma coisa. Cheguei a considerar propostas de outras empresas, mas acabei voltando para a Basf pela oportunidade que ela me deu em um cargo mais alto, o que foi uma demonstração de reconhecimento de meu trabalho”, afirma Mariana.

“No final do MBA, eu via meus colegas de turma estrangeiros preocupados e se movimentando para conseguir uma recolocação no mercado ao retornar para seu país. Ter as portas da empresa abertas me deu tranquilidade para aproveitar a experiência até o fim.”

Na Basf, o sabático, que pode durar de três meses a um ano, é uma das 12 modalidades de trabalho flexível oferecidas dentro do programa Equilibre, que surgiu em 2015 da demanda dos funcionários por iniciativas que ajudassem a conciliar vida pessoal e profissional. Home office, expediente em horários alternativos e meio período, entre outras, também são categorias do projeto.

Quarenta empregados já usaram o sabático, sendo que os mais jovens (de 25 a 35 anos) saem para investir em viagens e educação, enquanto os mais maduros (acima de 40) o utilizam para questões de saúde e de cunho familiar, como acompanhar um parente durante um tratamento médico. Apenas nessa última situação, aliás, há garantia de retorno ao mesmo cargo, de acordo com a empresa.

Bem-estar é tendência

Liberar os profissionais para períodos sabáticos também tem a ver com saúde física e mental. As organizações estão começando a perceber que não dá para ignorar o efeito nocivo das demandas do mundo corporativo para o bem-estar. Mesmo assim, no Brasil, menos de 10% das empresas têm políticas estruturadas para tratar de problemas de saúde mental, de acordo com uma pesquisa de 2018 da Isma-BR sobre síndrome de burnout.

Reconhecida recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença causada pelo esgotamento físico e mental devido ao trabalho, o burnout pode ser o efeito cumulativo de uma rotina muito voltada para a entrega profissional e com pouco tempo para descansar e dar atenção a si mesmo.

Tirar um período sabático, portanto, muitas vezes é uma medida preventiva de saúde. Mas não deve ser encarada só como descanso. “Em situações de exaustão, não basta dar um tempo no trabalho. É preciso usar o afastamento para repensar e ajustar o estilo de vida, de modo a equilibrar vida pessoal e profissional para evitar prejuízos à saúde”, diz Ana Maria Rossi.

Há, ainda, quem escolha pausar a rotina para dedicar mais tempo à família, dar um gás em um projeto pessoal ou viajar, seja para aprimorar um idioma ou uma habilidade específica, seja para mergulhar em outras culturas e aumentar o repertório.

Angelo Fábio Santos Oliveira, de 40 anos, aproveitou o lançamento do programa de sabático não remunerado na Continental Pneus, onde trabalha como analista fiscal sênior, para estudar inglês no Canadá durante três meses, um projeto antigo que esperava uma oportunidade para concretizar.

“Foi a melhor coisa que fiz. Além de descansar, realizei o sonho de conhecer outras culturas e voltei fortalecido, porque vi que sou capaz de me virar em situações que antes me traziam insegurança”, diz. “Ter o apoio da empresa e poder contar com o emprego na volta foi fundamental para tirar o projeto do pensamento”, afirma.

Na Continental, podem pretender ao programa de sabático funcionários com pelo menos um ano de casa e avaliação de desempenho positiva. Desde que foi lançado, no início de 2018, nove empregados já participaram — cinco homens e quatro mulheres de 25 a 35 anos.

A pausa pode durar de um a 12 meses e, nesse intervalo, a pessoa não recebe salário, mas mantém o seguro de vida e os planos de saúde e odontológico, por exemplo. “É uma forma de investimento no profissional. Acreditamos que, realizado na vida pessoal, ele consegue estar inteiro e entregar melhores resultados no trabalho”, afirma Marcelo Arouca, business partner sênior de RH para a área administrativa da Continental Pneus.

Quem fica no lugar

Perder o trabalhador para outro projeto ou emprego no meio do processo é uma possibilidade que deve ficar no radar das companhias. Das empresas consultadas para esta reportagem, nenhuma tem mecanismos para assegurar o retorno do empregado. Elas contam com a maturidade e o comprometimento do profissional. Se acontecer de não retornar, a expe­riência valerá para realizar ajustes nas normas do programa e refinar os critérios de elegibilidade.

Outra questão para o empregador é como garantir que a ausência do funcionário não impacte no andamento dos processos e nos resultados da área que ele integra. Daí a regra de planejar a saída com antecedência de seis meses, em média. Na Continental Pneus, por exemplo, a política de sabático não contempla funções técnicas consideradas chave, como algumas de manutenção e produção, por ser difícil encontrar substitutos e demandar treinamento.

Dependendo da duração da licença, um terceirizado pode ser contratado ou a equipe absorver as tarefas do colega afastado. Na Basf, o programa está disponível para todos, independentemente de cargo e área. “Se a saída for bem esquematizada, será possível fazer adaptações no dia a dia da empresa.

Prazos curtos são mais fáceis de administrar; já períodos mais longos exigem planejamento minucioso para que a ausência não sobrecarregue os que ficam e o retorno seja o mais natural possível para as duas partes”, diz Luciana Amaro, vice-presidente de RH da Basf para a América do Sul. O importante é ser bom para os dois lados.


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