É assim que o empreendedorismo é incentivado pelas Melhores Empresas

Entenda o que é intraempreendedorismo, prática que encoraja os funcionários a ter ideias que podem transformar produtos e serviços das empresas

Não é fácil ser empreendedor no Brasil. O número de empresas que fecham logo no primeiro ano de existência é alarmante — e essa é uma estatística negativa que quase todo mundo conhece.

Segundo o Sebrae, 27% dos novos negócios não prosperam já nos primeiros 12 meses. Mas uma vertente do empreendedorismo tem ganhado destaque: o intraempreendedorismo, a possibilidade de um funcionário desenvolver ideias dentro da empresa em que trabalha.

Esse modelo traz vantagens para os dois lados. Do ponto de vista das organizações, há o fomento à inovação dentro de casa — e isso é ótimo, pois as companhias não precisam se preocupar em contratar consultorias ­externas para criar novidades.

Do ponto de vista dos funcionários, existem a expansão do leque de habilidades, o aumento da interação com colegas e áreas e o fato de poder inovar em um ambiente protegido — se o produto não der certo, o empregado não corre o risco de falir. “A cultura organizacional está mudando e o senso de dono é cada vez mais requisitado”, diz Caio Bianchi, coordenador do Digital Business Lab e professor de pós-graduação na ESPM.

O tema está se tornando tão importante que a Fundação Dom Cabral (FDC) lançou, em 2018, o Centro do Intraempreendedorismo. O objetivo é ajudar companhias a implementar o conceito. Para isso, a instituição sugere três passos: palestras para os funcionários; inscrições voluntárias para formar um grupo de intraempreendedores; e workshops e mentorias para desenvolver os projetos.

Com o apoio da FDC, 200 pessoas já participaram do programa e 36 projetos de sete empresas foram acelerados. “O intraempreendedorismo transforma todos em agentes de inovação. Isso acelera os processos de uma companhia, que fica apta a entender o que o cliente e o mercado estão esperando dela”, explica Heiko Spitzeck, gerente do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral e responsável pelo Centro.

Entre as 150 Melhores Empresas de 2019, essa prática está cada vez mais comum. A seguir, VOCÊ S/A destaca quatro cases de companhias que inovam dentro de casa . Isso demonstra que a inovação está muito mais perto do que parece. É só deixar os funcionários se envolver no negócio.

Case #1: Grupo Boticário • Laboratório de testes

O DNA inovador faz parte do grupo boticário. Prova disso é que a empresa tem convênio com 311 organizações, entre universidades, startups e outras companhias, para desenvolver ideias de negócios. Mas os funcionários não ficam fora desse bonde: eles são estimulados a criar produtos e a melhorar processos.

“Nosso maior capital são os empregados, por isso temos de oferecer ferramentas para que eles tragam melhorias. Ninguém conhece melhor o negócio do que quem está todo dia lidando com o público”, diz Emilia Ferraz, gerente de Educação e Cultura do Grupo Boticário.

Todos os anos, a companhia investe 4% da receita anual em inovação e em pesquisas. Uma das principais apostas foi a criação, em 2017, do BotiLabs. Construído na sede de São José dos Pinhais (PR), o local funciona como incubadora e aceleradora de ideias propostas pelos empregados, independentemente do cargo ou da área.

“Mais do que criar um espaço físico, queremos fomentar a ideia de que todos podem e devem ajudar a inovar”, diz Emilia. No laboratório, uma equipe avalia as sugestões. as mais viáveis são testadas e, se derem certo, lançadas.

Um dos exemplos de ideia que nasceu no laboratório — que também é um coworking e recebe startups, aceleradoras, fornecedores, agentes de inovação e universidade — é o Boticário Lab, um novo conceito de loja de produtos de beleza, localizado em Curitiba. Nesse modelo, os consumidores podem acessar, em primeira mão, as tecnologias do mercado do bem-estar, como espelho interativo que ensina técnicas de maquiagem e totem de realidade aumentada que mostra a origem e os componentes dos produtos.

Outro passo importante foi a criação do estúdio interno de design e prototipagem de embalagens equipado com impressoras 3D, cujo objetivo é otimizar o tempo e os recursos no desenvolvimento de novos pacotes e dar autonomia para os times internos pensarem nas soluções.

Laboratório de prototipagem de embalagem no Grupo Boticário – fábrica de São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba.

Laboratório de prototipagem de embalagem no Grupo Boticário – fábrica de São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. (Foto: Guilherme Pupo/VOCÊ S/A)


Case #2: Bradesco • De dentro para fora

Em 1960, o Bradesco foi a primeira empresa privada na América Latina a comprar um computador. Era um modelo IBM 1401, com 4 K de memória. Depois de quase 60 anos, o banco fala em ser totalmente digital e a Bia, sua assistente pessoal virtual, faz sucesso entre os clientes.

Os funcionários tiveram um papel fundamental para que essa estrada fosse percorrida, segundo Walkiria Schirrmeister Marchetti, diretora executiva do Bradesco. “No começo da última década identificamos uma mudança brusca no comportamento dos consumidores e passamos a dar ainda mais atenção à inovação”, diz.

De acordo com a executiva, nos últimos anos a instituição construiu um ecossistema para fazer com que a inovação se tornasse realidade — e que os empregados do banco fizessem parte dela. “Durante esse caminho percebemos que a inovação só seria um processo sustentável se transformássemos nossa cultura. O primeiro passo foi compreender as aptidões e necessidades de nossos colaboradores. A mudança veio de dentro para fora”, diz.

Para desenvolver a equipe em habilidades essenciais para a era da transformação digital, como agilidade no processo de decisão, comunicação assertiva e senso de dono, a universidade corporativa do Bradesco teve um papel importante. Foi por meio dela que os times puderam ter acesso a treinamentos, palestras e vivências que ajudaram a deixá-los seguros e estimulados a pensar diferente e se tornar agentes de mudança.

“Foram longos anos até que houvesse a preparação da equipe e a formação do conceito inovador, o Inovabra”, explica Walkiria. Segundo a executiva, esse processo de construção fez com que a inovação se transformasse em um pilar sólido, que faz parte do dia a dia. “Não chegamos e dissemos que a partir de amanhã todos teriam de dar novas ideias. Primeiro entendemos as dificuldades e demos subsídios para que fossem superadas”, diz.

Além dos clássicos programas de sugestões para melhorias em atendimento e produtos, o banco realiza maratonas de inovação incluindo agentes internos e externos. Também mantém o Lab, um espaço colaborativo criado para acelerar o desenvolvimento de inovações da instituição juntamente com parceiros de tecnologia.

O local de 1 700 metros quadrados fica na sede do Bradesco, em Osasco, e é aberto para todos os funcionários. Para Walkiria, os programas só surtem efeito com mudanças práticas na vida dos empregados que ali estão.

Um exemplo é a melhoria do espaço de trabalho na matriz, com a inauguração de um espaço de convivência com cabeleireiro, farmácia e outros serviços. “Além disso, redesenhamos o layout de 85 000 metros quadrados dos escritórios para que as pessoas possam trabalhar em células e de forma mais ágil. A inovação precisa ser real dentro de casa”, afirma.

Walkiria Schirrmeister Marchetti, diretora executiva do Bradesco: o novo layout do escritório estimula a agilidade | Foto: Germano Lüders

Walkiria Schirrmeister Marchetti, diretora executiva do Bradesco: o novo layout do escritório estimula a agilidade | Foto: Germano Lüders (/)


Case #3: Volvo • Criação conjunta

A unidade brasileira da Volvo foi responsável pelo desenvolvimento do primeiro caminhão autônomo comercialmente viável do mundo, que já atua no plantio de cana-de-açúcar no interior de São Paulo. Segundo Carlos Ogliari, vice-presidente de RH e de assuntos corporativos do Grupo Volvo América Latina, isso só foi possível porque a empresa não teme as mudanças que surgem com a inovação.

“Os progressos da Indústria 4.0 nos levam a intensificar a presença da inteligência artificial no chão de fábrica, com uma interação mais forte entre homens e máquinas. Por aqui esse convívio tem sido harmônico e produz excelentes resultados”, diz. Para acelerar a inovação e transformar os funcionários em cocriadores, a multinacional inaugurou, em fevereiro de 2019, o StartLab na fábrica de Curitiba (PR), que testa, desenvolve e aplica iniciativas voltadas para a Indústria 4.0.

O StartLab desenvolveu projetos como realidade virtual na manufatura, impressora 3D na produção e drones para uso interno. “O espaço é livre e qualquer empregado que queira testar suas ideias pode usá-lo”, diz Carlos. Mais de 500 ideias já passaram por lá. “O reconhecimento às melhores propostas é uma forma de estimular a participação nas iniciativas da empresa”, diz o executivo de RH.

Um dado que ajuda a medir a vontade dos funcionários em inovar é o Programa i9, que busca melhorias de processos e produtos, o que pode envolver desde grandes mudanças até pequenas alterações. a companhia estimula uma “caça ao tesouro”, na qual os funcionários percorrem a fábrica em busca de soluções.

“Mais de 30 000 ideias são registradas anualmente”, diz Carlos. elas são avaliadas e, todo ano, a fábrica faz uma exposição com as ideias que se destacaram.

Carlos Ogliari, VP de RH e de assuntos corporativos da Volvo: os funcionários percorrem a fábrica em busca de soluções | Foto: Guilherme Pupo

Carlos Ogliari, VP de RH e de assuntos corporativos da Volvo: os funcionários percorrem a fábrica em busca de soluções | Foto: Guilherme Pupo (/)


Case #4: CNH Industrial • Exportadora de conhecimento

Um relatório do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) mostra que a CNH Industrial foi a única empresa privada do Brasil, entre as sete maiores depositantes de patentes, que fez pedidos de registros de novas ideias no ano passado. Somente em 2018, a companhia  solicitou 63 patentes, um aumento de 30% em relação ao ano anterior. E grande parte dessas ideias veio de dentro de casa.

Algumas delas, inclusive, já foram implementadas em outros locais da companhia ao redor do mundo. Deixamos de ser uma subsidiária que só tropicaliza produtos e hoje exportamos nossos conhecimentos para a matriz e outros países. Isso com a ajuda dos empregados que protagonizam as ideias”, diz Sergio Soares, diretor de desenvolvimento de produto e engenharia agrícola da CNH Industrial para a América do Sul.

O aumento do número de patentes tem a ver com uma mudança profunda na mentalidade da organização. “Há cinco anos começamos um processo de transformação da cultura com foco em inovação e participação ativa dos trabalhadores”, explica Sergio. “A ideia é mostrar que inovação não está somente ligada a uma questão tecnológica”, diz.

Mais do que desenvolver equipamentos de construção, agrícolas, veículos comerciais, equipamentos marítimos e motores, a CNH Industrial quer promover o senso de protagonismo em seus mais de 7 000 funcionários. Por isso, o intraempreendedorismo está na agenda do RH.

Telma Cracco, vice-presidente de recursos humanos da CNH Industrial para a América do Sul, afirma que ouvir as ideias dos empregados ajuda a aumentar o engajamento e melhora o desempenho dos negócios. “Fazemos testes, damos reconhecimento e comunicamos o uso na prática. Essa é a forma de incentivar que mais pessoas participem do processo”, diz.

Entre os programas da companhia há o Go!, que recebe ideias de profissionais de todos os níveis hierárquicos. Quem participa concorre a moedas que dão direito a comprar vários produtos e serviços em uma rede credenciada com mais de 14 000 estabelecimentos no Brasil.

As 20 melhores sugestões implementadas recebem uma premiação adicional e são reconhecidas em uma cerimônia especial que conta com a presença de membros da alta direção. Além disso, há o Startup Challenge, um desafio criado para incentivar e identificar, entre os funcionários, ideias e projetos inovadores que estejam alinhados com as linhas de negócios da CNH Industrial e que se relacionem com um dos quatro pilares da empresa: conectividade, indústria 4.0, cadeia de valor e engenharia e novos Materiais.

Não há um dia que o assunto fique fora da  pauta. “Inovação é mais a atitude do que usar ferramentas e digitalizar processos. Os funcionários precisam ser protagonistas e entender que essas iniciativas são voltadas para eles”, diz Sergio.

Telma Cracco, VP de RH, e Sergio Soares, diretor de desenvolvimento de produto e engenharia agrícola da CNH Industrial: a inovação está no dia a dia da empresa | Foto: Guilherme Pupo

Telma Cracco, VP de RH, e Sergio Soares, diretor de desenvolvimento de produto e engenharia agrícola da CNH Industrial: a inovação está no dia a dia da empresa | Foto: Guilherme Pupo (/)

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