Estas empresas descobriram como respeitar a diversidade religiosa

Com o avanço de políticas sobre diversidade, empresas começam a discutir como incluir diferentes credos no ambiente corporativo

Até dezembro de 2017, o escritório da Gol Linhas Aéreas, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, tinha uma capela cristã, ornamentada com imagens de santos, terços, bancos de madeira com genuflexório (objeto para ajoelhar), crucifixo e Bíblias. Herança da companhia aérea Varig, ela fazia parte do cenário corporativo, mas não abrangia a diversidade religiosa correspondente aos 14 922 funcionários da Gol.

Quando a virada para o ano de 2018 trouxe a mudança de propósito da organização, o RH realizou um censo para conhecer melhor o extenso público interno. Entre as questões, resolveram incluir uma pergunta específica: “Qual é sua religião?” O resultado foi uma surpresa: mais de 70 crenças distintas foram assinaladas, incluindo religiões de matrizes africanas, cristãs, espíritas e outras.

O diretor de Gente e Cultura da Gol, Jean Nogueira, explica que depois desse resultado a reforma da capela era uma necessidade que convergia para o novo objetivo da empresa. “Quando definimos como propósito ser a primeira companhia para todos — clientes, investidores e funcionários —, o espaço teve de ser repensado. Como ser a primeira para todos se não contemplarmos as diversas religiões?”, diz.

Embora não houvesse missas no local e os funcionários pudessem realizar suas orações individualmente e quando quisessem, a Gol entendeu que o ambiente de um templo cristão poderia repelir pessoas de outros credos. Foi assim que nasceu o Centro de Liberdade Religiosa, um lugar ecumênico sem nenhuma referência a religiões específicas.

O uso continuou livre, mas todos os adornos cristãos foram doados a uma igreja próxima, os bancos com genuflexório foram trocados por caixotes reformados e no piso foram instalados carpetes reciclados de aeronaves. O projeto foi rea­lizado pelo centro de manutenção da empresa e inaugurado em janeiro de 2018. “Essa obra foi planejada dentro de nosso conceito de diversidade e inclusão, que é ‘feito para todos e com todos juntos’, num processo de bastante aprendizado e crescimento”, afirma Jean.

Trabalho é lugar de religião?

Nos últimos anos, com o avanço de políticas de diversidade no mundo corporativo, tornou-se comum a existência de comitês de discus­são e ações sobre questões de gêne­ro, etnia, orientação sexual e PCDs nas empresas.

Agora, aos poucos, as companhias começam a entender a importância de incluir os diferentes credos nesse movimento. Segundo David ­Miller, diretor do grupo de estudos Fé e Trabalho da Universidade Princeton e autor do livro God at Work: the History and Promise of the Faith at Work Movement (“Deus no trabalho: a história e a promessa da fé no movimento trabalhista”, numa tradução livre), publicado em 2007, a maioria das pessoas que são atraí­das pela ideia de espiritualidade no ambiente corporativo deseja uma vida integrada, em que não precise separar a fé de sua atividade pro­fis­­sional.

“Trabalhadores de todos os níveis, sejam eles funcionários de cargos de entrada ou executivos seniores, não se contentam mais em deixar sua alma no estacionamento. Hoje, os profissionais querem significado e propósito moral em seu trabalho”, escreve em seu livro. Para o autor, essa questão complementa um desejo de que o emprego seja mais do que um meio de “colocar pão na mesa e pagar o aluguel”.

A população do Brasil é majoritariamente cristã, de acordo com o último censo demográfico, realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a pesquisa, 65% dos brasileiros declararam-se católicos e 22% protestantes.

Porém, embora minoritários, existem 1 milhão de testemunhas de Jeová, 500 000 seguidores de matrizes africanas, como candomblé e umbanda, 250 000 budistas e 100 000 judeus, além de 15,3 milhões de pessoas sem religião nenhuma. A espiritua­lidade é muito heterogênea em nosso país e a tentativa de ajustar essa pluralidade ao ambiente profissional, para David, de Princeton, representará uma mudança tão profunda no mundo corporativo quanto a pressão por outros direitos, como igualdade de salários entre homens e mulheres e fim do preconceito racial, por exemplo.

O professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em comunicação Daniel Galindo completa: “Todo e qualquer lugar é um espaço de expressão da fé e das ideias, inclusive o trabalho”. Segundo ele, por ser uma organização de cunho social, as empresas precisam considerar a dimensão espiritual dos empregados, fomentando um ambiente mais consciente e compartilhado. Para alguns, pode ser uma prece durante o almoço, se voltar para Meca nos horários sagrados ou respeitar o dia de descanso aos sábados.

Sem modismo 

Embora o debate sobre a inclusão de questões religiosas esteja avançando no mundo corporativo, especialistas afirmam que para essas iniciativas darem resultado é preciso criar ações estruturadas. E um dos primeiros pontos que devem ser definidos é a base do programa: ele será focado em espiritualidade ou em religiosidade? Elas são questões erroneamente confundidas.

“A espiritualidade é inerente ao ser humano. É sobre estar conectado a uma divindade, algo maior do que nós mesmos. Já a religião diz respeito a crenças, leis e ritos institucionalizados”, afirma Daniel. Em um ambiente diversificado, o especialista defende que abordar a espiritualidade é o caminho mais sensato. “A aceitação das práticas de todos, sem questionar as vivências individuais, é o princípio de um espaço plural”, afirma.

Escritório da EDP, em São Paulo: Fernanda Pires (em pé), diretora de RH; Vania Barbosa, líder de RH; Lino Pedroni e Rafael Prado (à dir.), respectivamente líder e padrinho do grupo Culturas e Espiritualidade, que dissemina a cultura de tolerância e liberdade religiosa | Foto: Germano Lüders

Escritório da EDP, em São Paulo: Fernanda Pires (em pé), diretora de RH; Vania Barbosa, líder de RH; Lino Pedroni e Rafael Prado (à dir.), respectivamente líder e padrinho do grupo Culturas e Espiritualidade, que dissemina a cultura de tolerância e liberdade religiosa | Foto: Germano Lüders (/)

Liliane Rocha, fundadora da consultoria de diversidade Gestão Kairós, aponta que outros questionamentos também devem ser levados em consideração. “Como a diversidade está sendo tratada? Já possuo outros programas sobre o tema? São questões que ajudam a ter uma percepção do todo e de como deve ser a abordagem”, afirma.

É comum que a temática da espiritualidade seja levantada depois que outros aspectos da diversidade já tenham sido trabalhados. Porém, também pode acontecer de o trabalho começar de uma tacada só, como ocorreu com a EDP.

No final de 2018, a concessionária de energia começou um programa de diversidade que trabalha seis dimensões: idade, gênero, etnia, deficiência física, orientação sexual e espiritualidade. A iniciativa surgiu com a expansão da empresa, que possui mais de 3 000 empregados de todos os estados brasileiros e também de outras 11 nacionalidades.

“A riqueza cultural que vem da união de nossos funcionários é muito grande. Cuidar dessa multiplicidade é trabalhar a diversidade”, diz Fernanda Pires, diretora de recursos humanos da EDP.

Cada dimensão tem um time que desenvolve o tema na companhia. O de Espiritualidade é o que conta com mais membros: 124. Todos aderiram voluntariamente ao grupo. Fora o núcleo fixo e que todo comitê precisa ter, que inclui o líder, um vice-líder, um representante de comunicação e outro de recursos humanos, o restante dos participantes é voluntário.

Os encontros são realizados pelo menos uma vez por mês, e a agenda é flexível para que o máximo de pessoas consiga participar. No caso do grupo de Espiritualidade, as reuniões têm como foco explorar as diferentes religiões e seus aspectos mais relevantes, com o cuidado de não centralizar em nenhuma delas. Por meio da ação já foram realizados eventos com convidados como o escritor e ambientalista de origem indígena tapuia Kaká Werá.

Embora a adesão seja grande, há desafios em trabalhar o assunto. “Sobre temas como gênero e orientação sexual já existem muitos conteúdos e especialistas que podem ajudar; porém, sobre espiritualidade, não. Tem sido um processo de sensibilização para a companhia e para os funcionários”, afirma Fernanda, RH da EDP.

Sabin Medicina Diagnóstica, em Brasília: a pedido de alguns funcionários, a empresa realiza um grupo semanal de orações batizado de Momentos com Deus | Foto: Cristiano Mariz

Sabin Medicina Diagnóstica, em Brasília: a pedido de alguns funcionários, a empresa realiza um grupo semanal de orações batizado de Momentos com Deus | Foto: Cristiano Mariz (/)

Algumas práticas ajudam no amadurecimento da iniciativa e aumentam o engajamento dos empregados, como ter outras ações ligadas a inclusão e convidar pessoas externas ou internas para falar sobre as diferentes religiões. “Isso é crucial, porque conviver e aprender com o diferente é o que fortalece e fomenta o respeito”, afirma Liliane, da Kairós.

Ouvir os funcionários para saber sobre melhorias e pontos positivos, além de realizar parcerias com especialistas em diversidade, também facilita. “Mas não existe uma receita de bolo. Cada empresa possui suas características e deve trabalhar para entender a pluralidade de seu quadro”, ressalta Liliane.

O risco de excluir 

Embora algumas empresas optem por trabalhar a religião sob o pilar da diversidade, outras escolhem abordar o assunto apenas sob o viés cristão. Um exemplo disso é a rede de laboratórios ­Sabin Medicina Diagnóstica, que desde 2001 possui um grupo de oração. A iniciativa começou por meio de uma das trabalhadoras, que teve a ideia de organizar as reuniões e pediu autorização à liderança para colocá-las em prática.

“Foi uma ação dos próprios funcionários, então demos espaço para que existisse”, explica Marly Vidal, diretora administrativa e de pessoas do Sabin. Desde então, às quintas-feiras há encontros batizados de Momentos com Deus, nos quais os empregados leem trechos da Bíblia, fazem louvores e orações cristãs.

Marly explica que se trata de um grupo ecumênico, embora os ri­tuais adotados sejam característicos de religiões católicas e protestantes. Daniel, do Mackenzie, alerta para as consequências de abordar a espiritualidade dessa forma. “Quando práticas de doutrinas específicas são adotadas, pode ocorrer um isolamento. Será muito difícil para pessoas que proferem uma fé diferente participar do encontro”, afirma. 

Em janeiro, os integrantes do grupo realizam o projeto Vida Vitoriosa. Nessa ocasião, eles escrevem em um papel os desejos para o ano que se inicia, em cada aspecto da vida, e depois levam esses pedidos para o encontro, onde fazem uma oração em prol de sua concretização. Marly conta que é muito comum as pessoas buscarem as reuniões quando estão com dificuldades para que, junto com os colegas, façam preces. “Eles levam pedidos pes­soais, mas também compartilham alegrias quando as coisas melhoram”, afirma.

Marly esclarece que até hoje a iniciativa é organizada pelos próprios funcionários — cerca de 60 pessoas — e que a empresa procura respeitar a individualidade de seus mais de 2 000 empregados. “Entendemos que devemos trabalhar o lado espiritual de cada um para alcançar o indivíduo em todos os aspectos. Assim podemos promover o bem-estar de nossos funcionários”, diz.

Embora a religiosidade estimule aspectos que as empresas não são capazes de suprir, é preciso cuidado para que uma crença não se sobreponha a outra. “Ainda que o conceito de espiritualidade seja amplo, ele é o mais adequado ao ambiente corporativo”, afirma João Torres, da consultoria Mais Diversidade.

Para ele, até mesmo quem não acredita na existência de uma divindade, como os ateus, pode colher frutos de momentos voltados para o crescimento espiritual. “Para isso acontecer é importante que as organizações sejam transparentes e esclareçam que os rituais não são exclusivos de uma religião, e sim são momentos para a busca da paz de espírito, para a partilha e para a convivência com o diferente”, completa.

Por fim, os especialistas afirmam que se engana quem acredita que tratar de religião no ambiente de trabalho seja apenas modismo ou uma discussão superficial. “Isso não é coisa de empresa moderninha, é algo de orga­nizações que entenderam que empregam seres humanos distintos e plenos de complexidade”, afirma Daniel, do Mackenzie.

E o respeito à diversidade, como todo mundo já está cansado de ouvir, cria ambientes mais inovadores, equipes mais engajadas e aumenta os lucros das organizações. Fora isso, abraçar os diferentes credos é compreender que temos semelhanças e distinções. Daniel cita o cumprimento sânscrito ­namastê, típico do sul da Ásia, para entender o que é, afinal, espiritua­lidade. “Essa saudação significa ‘o divino em mim reconhece o divino em você’. É esse processo de reconhecimento do outro que devemos fazer, seja no trabalho, seja em qualquer outro local.”

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