Surfando no hype: como usar as trends a favor dos negócios
Saiba identificar quando o viral é uma boa aposta – ou se pode arriscar a imagem e o futuro da marca.
e você frequentou a internet e as docerias brasileiras nos últimos meses, certamente soube da guloseima que, da noite para o dia, virou febre nacional: o morango do amor. Essa adaptação da tradicional maçã do amor – agora feita de morango, brigadeiro branco e açúcar caramelizado – tem autoria imprecisa, mas, segundo informações do iFood, já existia pelo menos desde 2024, quando mais de 10.300 pedidos do produto foram registrados na plataforma de delivery. O boom mesmo veio em julho deste ano, quando vídeos da receita começaram a viralizar nas redes sociais e impulsionaram seu consumo: somente no iFood, foram 275 mil compras do quebra-dente açucarado ao longo desse mês.
Na boca do povo, em mais de um sentido, o morango do amor não foi capitalizado apenas pelas confeitarias. Celebridades e influenciadores gravaram vídeos experimentando o doce, marcas de outros segmentos associaram a novidade aos seus produtos e até perfis de órgãos governamentais fizeram publicações inspiradas no fenômeno viral. Todos queriam uma fatia do bolo.
E com razão: dialogar com o assunto do momento é estratégia básica para qualquer pessoa que está em busca de visibilidade, engajamento e, por que não?, lucro. “Para se destacar no mercado, é preciso estar atento ao que ele demanda”, diz Daiane Ribeiro, gestora de projetos do Sebrae São Paulo. “O empreendedor precisa entregar o que o cliente quer consumir, e as redes sociais são um mecanismo mais ágil e barato para acessar essa clientela.”
Contudo, investir no hype pode ser um movimento arriscado, dada a sua efemeridade. Segundo o Google Trends, as buscas pelo morango do amor atingiram seu pico entre 20 e 26 de julho. Duas semanas depois, o interesse das pessoas já havia caído pela metade e continuou a diminuir com o passar dos dias. Hoje, a popularidade do doce no buscador está tão baixa quanto antes de sua viralização.
Quem se afobou e saiu correndo para investir todo o seu orçamento do ano no produto pode ter tomado a rota da falência. Ao mesmo tempo… quem pensa demais perde o timing e oportunidades de ouro.
Como, então, equilibrar prudência e agilidade quando se trata de virais? É o que veremos a seguir. Mas, primeiro, alguns conceitos.
Bê-A-Bá do consumo
Hypes, trends, modismos… São muitos os nomes utilizados para descrever o que está em voga. A professora e pesquisadora do Mestrado em Comportamento do Consumidor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Roberta Campos, classifica esses fenômenos de consumo em três níveis: onda (hype, trend), moda e tendência. O primeiro diz respeito ao que é passageiro, chega e desaparece em um piscar de olhos. “É o que viraliza nas redes sociais, mas não muda a forma como vivemos e conduzimos nossas rotinas”, explica. O morango do amor é, portanto, um tipo de onda.
E ainda que seja da natureza das ondas ser fugaz, não é possível ignorar que elas estão cada vez mais curtas. Para Josmar Andrade, professor do Bacharelado em Marketing da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, a constante busca pelo novo tem causado a redução no tempo de vida das trends.
“Estamos vivendo em uma sociedade muito aquecida pela experimentação de curtíssimo prazo, com tecnologias de produção cada vez mais ágeis em atender a essa necessidade. E no meio do caminho há um empreendedor tentando acompanhar o enxame e obter algum tipo de vantagem nesses movimentos. Isso não vai mudar. Pelo contrário, vai aumentar mais e mais”, ele prevê.
Já a moda – e aqui não estamos falando estritamente de roupas – é mais duradoura e tem um maior poder de transformação. Um exemplo é a moda wellness, em que a busca pelo saudável se torna um estilo de vida. E, por fim, temos a tendência, que está associada a mudanças profundas e de maior permanência. Aqui podemos citar o cocooning (“encasulamento”, em tradução livre).
O termo foi cunhado pela consultora de marketing Faith Popcorn em 1981 para descrever como, em uma tentativa de se proteger de um mundo imprevisível e exaustivo, as pessoas estavam cada vez mais isoladas no conforto e segurança de suas próprias casas. Na época, Faith embasou suas previsões, entre outras coisas, no crescimento de restaurantes que ofereciam serviços de comida para viagem e das vendas de videocassetes. Quatro décadas e uma pandemia depois, o sucesso das plataformas de streaming, delivery e e-commerce provam que ela não errou.
“Normalmente, o pequeno empreendedor não tem recursos para fazer uma pesquisa sofisticada de tendências e antecipar mudanças estruturais. Então a onda é a oportunidade que ele tem para pular na conversa e tornar sua marca conhecida”, diz Roberta. Daí a importância de um monitoramento constante das redes sociais.
Receita de sucesso
No ramo da gastronomia há 16 anos, a chef confeiteira Nicole Santos se diz atenta ao Instagram, mas reconhece que poderia estar ainda mais ligada ao que acontece online. Ela só ficou sabendo que o morango do amor era hit, por exemplo, porque amigos a avisaram que o doce era viral no TikTok e a incentivaram a entrar na onda. A princípio, Nicole hesitou, incerta se as vendas compensariam todo o esforço. Decidiu então abrir uma caixinha de perguntas no perfil de seu ateliê para medir o interesse dos seguidores… e se surpreendeu: os clientes clamavam pela novidade.
Naquela mesma tarde, ela disponibilizou 50 unidades da sobremesa, que esgotaram em menos de dez minutos. Nos dias seguintes, a procura continuou a crescer. “Em um dia produzimos praticamente mil morangos do amor. E eu sabia que se fossem 3 mil também venderíamos.” Essa confiança, porém, não a impediu de se surpreender ao descobrir que foi a loja que mais vendeu o doce no iFood no mês de julho. E a explicação da façanha, acredita Nicole, está em sua agilidade. “Eu pensei muito rápido. Surgiu e eu agarrei. Depois, fiquei o tempo todo focada em otimizar minha produção. Dormia e acordava pensando em morango”, relata.
Daiane Ribeiro, do Sebrae, explica que, identificada a oportunidade, o empreendedor deve fazer uma análise prévia para se certificar de que tem condições de apostar suas fichas. O primeiro passo é observar se há capital de giro. A estrutura operacional consegue suportar a demanda? Os fornecedores responderão rápido? E dá para conciliar a novidade com a operação principal sem correr o risco de quebra? Nicole, por exemplo, precisou contratar mão de obra extra – o que só costuma fazer em datas como a Páscoa – para dar conta da procura pela sobremesa.
Também é crucial avaliar, de preferência com base em dados concretos, se o investimento compensa a probabilidade de lucro ao longo do tempo. “Qualquer condução de negócios é uma combinação de dimensões racionais e emocionais”, afirma Josmar Andrade, da USP. “O empreendedor pode ter um feeling, mas também precisa de pesquisa e observação dos cenários concorrenciais para entender se o que está ali é algo temporário ou não.”
E nada de se acomodar, mesmo cumprindo todos os requisitos, pois, com o passar do tempo, a concorrência e a oferta tendem a aumentar, derrubando os preços e a possibilidade de ganhos. “O empreendedor precisa estabelecer um diferencial para além do hype. Seja no atendimento, na embalagem, na experiência de compra ou até em alguma variação criativa do produto”, orienta Daiane. “Isso é necessário para que o índice de recompra se mantenha. Se não na mesma intensidade, que seja o suficiente para que o empreendedor se mantenha no mercado depois que o hype passar.”
Ao perceber que a versão tradicional do doce já não saía com tanta frequência, Nicole investiu na criação de outros sabores, trazendo um novo fôlego às vendas. “Isso movimentou muito o meu negócio e sustentou o boom por mais tempo. Hoje, ainda vendemos [o morango do amor], mas em menor quantidade”, conta a chef, afirmando que a onda ampliou sua cartela de clientes e reaproximou antigos fregueses – o que possibilitou um aumento geral no total de pedidos.
O hype pode ampliar a cartela de clientes e atrair antigos fregueses.
A fidelização da clientela é, aliás, fundamental para a sobrevivência do empreendimento ao fim do hype. “É mais barato manter do que conquistar um novo cliente. Por isso, é preciso aproveitar o momento da onda para formar uma base de consumidores. E também utilizar o caixa gerado para fortalecer os produtos que já existiam antes do hype, evitando que a empresa entre em um processo de declínio junto com a onda”, alerta Daiane.
Fidelidade à própria essência
Lembra quando você era criança e lhe diziam “Você não é todo mundo”? A máxima também vale para o ambiente de negócios. Ainda que a onda seja uma chance de conquistar visibilidade e novos consumidores, há de se ter um cuidado que antecede os expostos acima: faz sentido participar?
Hoje, o consumo também é influenciado pela afinidade de valores entre a marca e o cliente, explica Dario Vedana, coordenador do Núcleo de Empreendedorismo e Inovação do Centro Universitário Belas Artes. Logo, não adianta entrar em qualquer trend. “Uma marca pode se beneficiar de ondas desde que elas dialoguem com seu público-alvo. Se o hype contradiz a identidade da marca, o ganho de curto prazo destrói o valor a longo prazo”, sinaliza. O hype, diz ele, é uma forma de entrar no jogo, mas para permanecer nele precisa ter um bom modelo de negócios. Quem entende essa diferença não fica refém da moda.
Na dúvida, a professora Roberta Campos sugere que o empreendedor siga os passos abaixo:
Conheça seu público-alvo: Reúna o máximo possível de informações sobre o perfil de quem você quer atrair. Além de facilitar a comunicação, conhecer os consumidores ajudará a entender as trends que são de seu interesse.
Saiba para quem seu cliente olha: Toda difusão de uma novidade é feita por imitação. Quem inspira no território em que você está tentando se estabelecer? Estude essas pessoas profundamente.
Estabeleça uma rotina de monitoramento do que está em alta: Defina plataformas estratégicas, mas não se prenda apenas ao engajamento quantitativo. Antes de montar um post, olhe os comentários para entender a dinâmica que está se estabelecendo em torno do hype. Assim, você não entra desavisado na conversa.
Defina seu monitoramento a partir dos objetivos de negócio: Se almeja visibilidade por si só, busque trends que sejam, simultaneamente, populares e neutras. Quer associar sua marca a um tema? Tenha no radar virais associados ao que deseja transmitir. Agora, se seu foco é a conversão, monitore com mais atenção aquilo que faz sucesso entre seu target.
Como no mar, as ondas de consumo vêm e vão o tempo todo. Talvez o próximo viral esteja se formando neste exato momento, enquanto você lê esta matéria. Antes de entrar na água, olhe ao redor e procure as bandeiras vermelhas. Mesmo o mais exímio dos surfistas precisa saber a hora de ficar na areia. Ou mergulhar de cabeça.





