O etarismo persiste porque é estrutural. Saiba como combatê-lo.
Deixar de incluir profissionais mais velhos em programas de formação e associar inovação com juventude é um desperdício de experiência e de potencial.
Houve uma época em que muitas empresas tinham uma regra implícita: ao chegar aos 60 anos, o funcionário era convidado a se aposentar. A justificativa era sempre a mesma: “você já cumpriu seu ciclo, é hora de dar lugar às gerações mais novas”. Conheço lideranças que entraram em depressão depois da aposentadoria forçada. Para elas, a mensagem era de que não serviam mais para trabalhar.
Essa prática pode ter perdido força, mas o raciocínio que a sustentava ainda permanece em muitas organizações – nas piadas sutis, nas promoções que nunca chegam, nas vagas que pedem um “perfil jovem”.
O etarismo continua sendo um dos preconceitos mais aceitos (e menos discutidos) dentro das organizações. Uma pesquisa da Universidade de Michigan mostrou que 82% das pessoas com mais de 50 anos relatam vivenciá-lo diariamente – e dois terços já sofreram discriminação no trabalho.
O problema vai além de comportamentos individuais. Ele é estrutural: está nos algoritmos de recrutamento que descartam pessoas por idade, nos programas de formação que não contemplam talentos seniores e nas lideranças que associam inovação à juventude. O resultado é um desperdício de experiência e de potencial.
Outro mito a ser quebrado é o de que pessoas mais velhas não aprendem mais. Na verdade, a diferença está em como elas são estimuladas. Qualquer pessoa pode aprender qualquer coisa, desde que tenha curiosidade, contexto e incentivo. Quando o cérebro é exposto a novos desafios, ele se adapta.
E o aprendizado não é um caminho unilateral. O encontro entre gerações é o que mais amplia repertórios e reduz preconceitos. Em um modelo de mentoria mútua, a pessoa com mais idade compartilha vivência e visão estratégica, enquanto a mais jovem traz repertório digital e novas formas de pensar.
Empresas que querem se preparar para o futuro precisam rever estruturas e discursos. O Age AWARE Audit, método criado por Matthew Lifschultz, propõe um diagnóstico prático para organizações que desejam combater o etarismo em cinco frentes de ação:
- Acessibilidade (Acessibility): criar produtos, espaços e políticas que contemplem todas as idades.
- Ambiente de trabalho (Workplace): revisar processos seletivos e de promoção para eliminar vieses etários.
- Adaptabilidade (Adaptability): ajustar estratégias à nova demografia.
- Representação (Representation): garantir a diversidade etária nas comunicações e na liderança.
- Engajamento (Engagement): incluir pessoas mais velhas na construção das decisões e inovações.
A diversidade etária não é apenas uma frente de justiça ou reparação, mas uma questão de sustentabilidade do mercado de trabalho. Talvez o maior desafio hoje não seja o envelhecimento em si, mas a resistência em atualizar a mentalidade e abrir espaço para trocas. A passagem do tempo é inevitável, mas a exclusão é uma escolha.





