Oferta Relâmpago: Assine por apenas 7,99
Imagem Blog

Cris Kerr

Por VOCÊ S/A Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
CEO da consultoria CKZ Diversidade, professora da Fundação Dom Cabral e idealizadora do Super Fórum Diversidade & Inclusão.

Mês da Mulher: que imagem vem à mente ao pensar na pessoa mais competente?

Entenda por que as empresas ainda enxergam autoridade com rosto masculino, mesmo quando os fatos dizem o contrário.

Por Cris Kerr, colunista da Você S/A 8 mar 2026, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 22h14
Silhueta azul de mulher em pé no meio de uma multidão monocromática de homens.
 (master1305/Getty Images)
Continua após publicidade

Durante um treinamento com pessoas executivas, ouvi uma afirmação que ainda revela muito sobre nossas crenças mais profundas: “Mas os homens não são mais fortes do que as mulheres?”.

Perguntei: “Você se refere à força física?”. A resposta veio sem hesitação: “Física e intelectual. Afinal, nós escolhemos as áreas mais difíceis”.

A sala ficou em silêncio. Não era provocação. Era convicção.

Antes de descartar essa fala como ultrapassada, vale um exercício simples, um enigma amplamente citado em estudos sobre viés inconsciente. 

Pai e filho sofrem um grave acidente. O pai morre no local. O filho é levado ao hospital. Ao chegar ao centro cirúrgico, a pessoa mais competente da equipe olha para o menino e diz: “Não posso operá-lo. Ele é meu filho”.

Quem é essa pessoa? Avô? Padrasto? Um segundo pai?

Continua após a publicidade

A maioria das pessoas projeta automaticamente uma figura masculina. Poucos respondem de imediato: é a mãe.

O ponto desconfortável para qualquer liderança é: o obstáculo não está na capacidade feminina, está na nossa lente.

Quando ouvimos “a pessoa mais competente da equipe”, nossa mente tende a projetar autoridade, genialidade técnica e poder decisório no masculino. Não porque avaliamos desempenho. Não porque analisamos dados. Mas porque fomos culturalmente treinados a associar liderança e excelência ao homem.

Se essa associação surge em um simples enigma, o que dizer das decisões reais nas organizações?

Continua após a publicidade

Quem consideramos naturalmente preparado para liderar áreas estratégicas? Quem recebe os projetos mais visíveis? Quem é percebido como tendo “postura executiva”? Quem precisa provar mais – e por quanto tempo?

O viés inconsciente não grita. Ele sussurra. E, justamente por isso, influencia promoções, sucessões e oportunidades críticas sem que percebamos.

Ao longo de mais de 18 anos de consultoria, ouvi repetidas vezes uma frase aparentemente neutra: “Se tiver uma mulher tão competente quanto um homem, eu contrato”.

Mas essa fala revela um viés estrutural: ela pressupõe que a competência masculina é o padrão e que a feminina precisa ser comparável para merecer espaço. Um viés sutil, mas profundamente enraizado.

Continua após a publicidade

Preconceito que permeia a cultura ocidental

E esse viés não surgiu no ambiente corporativo. É produto de séculos de cultura e história. O psicanalista Jorge Forbes, em seu artigo “Que vem e que passa”, relembra declarações históricas que naturalizaram a inferiorização feminina.

Aristóteles: “A mulher é por natureza inferior ao homem; deve, pois, obedecer…”.

Voltaire: “Uma mulher amavelmente estúpida é uma bênção do céu”.

Hegel: “Sua mente não é adequada às ciências mais elevadas”.

Continua após a publicidade

Oscar Wilde: “Todas as mulheres acabam sendo como suas mães: essa é a tragédia”.

Esses homens moldaram religião, filosofia, literatura e pensamento ocidental. Suas palavras atravessaram gerações e foram incorporadas, muitas vezes sem questionamento, à formação cultural de sociedades inteiras.

A consequência? Um modelo mental que associa autoridade, razão e inteligência ao masculino; e emoção, fragilidade e beleza ao feminino.

Não fomos nós que criamos séculos de pensamento que inferiorizaram mulheres. Mas somos responsáveis por decidir se continuaremos reproduzindo-os.

Continua após a publicidade

Quase todas as pessoas foram educadas em uma cultura que supervalorizou o masculino e diminuiu o feminino. Reconhecer isso não é culpa, é maturidade.

A verdadeira transformação começa quando deixamos de perguntar se mulheres são tão competentes quanto homens, e passamos a questionar: que talentos estamos desperdiçando por causa de um viés que nem sabíamos que existia? Quanto mais tempo vamos esperar para alcançar a equidade de gênero?

Neste 8 de março, enquanto celebramos o Dia Internacional da Mulher, a pergunta é: o que você está fazendo para reduzir a lacuna de gênero em sua organização? O que está fazendo pelas suas filhas, irmãs, sobrinhas, esposas… e colaboradoras?

Porque competência não tem gênero, mas decisão, oportunidade e liderança, sim.

Mulheres ganham 21% menos que homens, indica relatório

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

10 grandes marcas em uma única assinatura digital