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Clara Cecchini

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Palestrante e consultora, especialista em aprendizagem organizacional e desenvolvimento de habilidades humanas.

Os cursos que você faz podem atrapalhar o desenvolvimento das suas brain skills

O mercado de autodesenvolvimento está te enganando? Descubra como "receitas prontas" e excesso de conteúdo sabotam seu cérebro

Por Clara Cecchini 9 abr 2026, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 22h14
Um cérebro de vidro colorido iluminado sobre um fundo de cubos que são como interruptores iluminados
 (Jonathan Kitchen/Getty Images)
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“Vivemos uma transformação acelerada” é o maior clichê para o início de qualquer texto. E, como a maioria dos clichês, tem uma dose grande de verdade combinada a um componente de generalidade perigoso, que tende a nos acomodar em uma camada superficial de entendimento.

Uma das consequências dessa transformação é que passamos a viver em um tempo em que vários tempos convivem. O novo e o velho disputam espaço simultaneamente, e isso cria uma armadilha: soluções desenhadas para um mundo que já ficou para trás conseguem se disfarçar de inovação.

Dedico boa parte do meu tempo a desenhar experiências de aprendizagem que apoiem as pessoas a desenvolver o pensamento. Eu já fazia isso há pelo menos 10 anos, e agora com o relatório do Fórum Econômico Mundial de janeiro de 2026, ganhei um reforço de peso, com a ideia de capital cerebral e habilidades cerebrais – as brain skills.

Brain skills são as capacidades cognitivas de ordem superior: pensamento analítico, resolução de problemas complexos, metacognição, flexibilidade mental diante da incerteza. Não são soft skills com outro nome. São habilidades que dependem de um cérebro sendo constantemente desafiado, não apenas abastecido de informação. Segundo o relatório, elas têm um impacto desproporcionalmente grande no nosso desempenho e são negligenciadas tanto nos processos da educação básica quanto da educação de adultos.

Qualquer tema pode ser trabalhado dessa perspectiva, mas isso não é fácil. Exige muito mais de quem planeja e de quem dá a aula, pois, mais do que transmitir conteúdo, é necessário incentivar o questionamento, a dúvida, a criação de respostas e o acolhimento daquele elemento de contexto que geralmente complica a previsibilidade do andamento de uma sala de aula. “Muito legal, mas na minha realidade é diferente”, alguns dizem. Sempre é, mas é justamente esse o núcleo do aprendizado. É diferente? Vamos discutir e construir?

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Mas hoje não estou aqui para falar com educadores. Estou aqui para falar com você, que investe tempo e dinheiro no seu autodesenvolvimento sem saber que algumas dessas experiências podem não apenas deixar de desenvolver as habilidades mais importantes, como ativamente ameaçá-las.

Primeiro ponto: o mesmo relatório do Fórum Econômico Mundial faz uma distinção categórica. Há uma diferença real entre usar o cérebro para seguir uma receita conhecida e usá-lo para inventar uma nova receita sob pressão. O primeiro passo para conseguir inventar receitas novas é não depender apenas de receitas prontas. Portanto, as ofertas educativas que prometem os “3 passos para…”, o “método definitivo” e a “receita infalível”, dão uma sensação imediata de alívio e de estar fazendo alguma coisa.  Mas, na verdade, reforçam um modelo mental do qual precisamos nos desapegar. É como aquelas fotos de “antes e depois” no Instagram para ficar em forma, que vendem a dieta mas não consideram histórico, contexto, genética e um monte de outros fatores que influenciam o resultado.

Segundo ponto: abordagens centradas exclusivamente em conteúdo. Há uma grande confusão entre “falar sobre a coisa” e “fazer a coisa”. Não adianta saber sobre pensamento analítico, seus tipos, seus autores, se a pessoa não souber colocá-lo em prática – primeiro em uma situação simulada, depois na vida real. É urgente que a aprendizagem vá além da sensibilização e da informação. Claro que o aprendiz adulto tem autonomia e deve exercê-la para criar pontes entre o aprendizado e o contexto. Mas os cursos precisam favorecer isso em seu desenho, e não criar uma sobrecarga de conteúdo em que a pessoa sai se sentindo “burra”, desinformada, “já estou para trás mesmo, melhor desistir”.

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Terceiro ponto, e ele permeia os demais: a falta total de atrito. Experiências que quase parecem a pausa para a série na TV dificilmente vão entregar aprendizado significativo. Um bom processo de aprendizagem não evita o desconforto, o usa. Coloca a pessoa diante de problemas sem soluções imediatas, pede defesa de ponto de vista, leva a questionar o óbvio. Trata a metacognição – consciência e regulação do próprio pensamento – como parte central.

E por que digo que tudo isso não apenas não ajuda, como também atrapalha? A obsessão por volume e velocidade ignora o custo cognitivo de acumular sem processar. Fazer curso atrás de curso, sem pausas para reflexão, sem espaço para a incerteza trabalhar, não consolida nada. O cérebro precisa oscilar entre atenção focada e um estado mais difuso, mais associativo, para que as conexões aconteçam de verdade. É nesse espaço que o pensamento se desenvolve – não na escuta do conteúdo e da receita, e sim com a incumbência de fazer todas as conexões ao retornar solitariamente ao contexto.

No conjunto disso tudo, está o aprendiz que busca genuinamente o autodesenvolvimento, mas encontra um mercado que é uma máquina de vender respostas. Só que isso é solução de outra época. As brain skills só crescem onde a resposta ainda não está pronta.

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Quer fazer um teste rápido? Depois da sua última aula, você se sentiu mais ou menos capaz de aprender? Mais ou menos energizado para aprender? Mais ou menos capaz de transformar seu contexto? Se menos – ou se nada disso mudou – é um sinal de que precisa buscar algo diferente.

 

“Soft skills” é um rótulo ultrapassado. Agora, você precisa de “brain skills”

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