Aprender a esquecer: a habilidade de quem segue relevante
Bons profissionais abandonam velhas crenças quando necessário, como as de que o bom trabalho fala por si só e de que carreiras devem ser lineares.
Você precisa aprender mais. Sempre e continuamente.
Quando comecei a atuar como palestrante no mundo corporativo, há mais de uma década, era essa a bandeira que eu carregava. De tão verdadeira, me apaixonei por ela e fiz dela meu modo de vida.
Continuo convicta nesse propósito, mas, diante das mudanças que estamos enfrentando no mundo do trabalho, peguei outra bandeira: a de que precisamos esquecer.
Não estou falando de desaprender, ou seja, abrir espaço na nossa “agenda mental” para conteúdos novos. Estou falando sobre os modelos mentais que organizam como vemos o trabalho, a carreira e a aprendizagem. Eles funcionam em silêncio, moldam a forma como enxergamos o mundo e, muitas vezes, nos impedem de mudar certas práticas.
Também não estou pensando no esquecimento como um gesto passivo, de descuido, apagamento ou abandono. Estou me referindo à coragem de sepultar o que já fez sentido um dia, a ponto de organizar determinados âmbitos da nossa vida, mas hoje não faz mais. Essa coragem é necessária para que o novo possa emergir. Não basta entender o “novo” conceitualmente.
O que precisamos esquecer
A carreira é um campo em que esse processo é flagrante. Todos ouvimos falar sobre carreiras não lineares, mas pouco nos dedicamos a compreender como a expectativa de uma carreira linear determina como atribuímos valor à constância na hora de subir a escada corporativa – parece obrigatório conquistar cargos cada vez mais altos na hierarquia, equipes maiores, escopo mais estratégico.
A carreira não linear não é uma linha mais sinuosa, é outra geometria. Movimentos laterais, pausas, retornos e reinvenções deixam de ser desvio e viram a própria forma do percurso. Sem esquecer o “olhar linear”, o profissional vive essa carreira como se fosse um fracasso.
Também precisamos esquecer a necessidade de falar sobre o que fazemos. O currículo diz muito pouco sobre os aspectos concretos da sua experiência – afinal, cinco anos como gerente de marketing em um contexto, por exemplo, são completamente diferentes do mesmo tempo no mesmo cargo em outro contexto. Esse fenômeno sempre existiu de alguma maneira, mas se intensificou.
O que constrói carreira agora é o que você pensa, o que aprende nas entregas, como enxerga os desafios. Portfólio não é simplesmente uma pasta de projetos, é qualquer evidência pública de como você pensa, decide e produz. Para colocar em prática a teoria de portfólio acima do currículo, é necessário desaprender que o bom trabalho fala por si.
O modelo mais difícil de esquecer, no entanto, está na base dos sistemas educacionais: a visão de que aprendizagem é conteúdo retido. Aprender é conseguir processar o novo, não acessar um estoque de conhecimento acumulado. Aprender é construir sentido para o conhecimento, em determinado contexto.
Isso muda critérios práticos. Diante de um curso, a pergunta deixa de ser “o que vou levar daqui?” e vira “como isso vai mudar meu jeito de pensar?”. Diante de um projeto novo, o importante é pensar como construiremos conhecimento no caminho, não apenas buscar referências que proporcionem a jornada mais curta. Sem essa virada, a busca por respostas continuará vindo antes das novas perguntas.
Algo fundamental a desaprender, tanto na carreira quanto no aprendizado em geral, é que o atrito é inimigo. Aprendemos a apreciar ferramentas que tirem obstáculos do caminho e considerar ineficiente todo processo que demora. Na aprendizagem, essa equação se inverte. O esforço de formular a pergunta, escrever a primeira versão e sustentar a ambiguidade antes da síntese é exatamente o que produz aprendizado significativo. Na carreira, evitar o atrito significa apostar em caminhos previsíveis e perder oportunidades de criar o futuro da profissão.
Falar sobre essas viradas é o passo mais fácil. O difícil é perceber, no cotidiano, quando estamos operando pelos parâmetros antigos enquanto repetimos o “vocabulário do novo”. Defendemos carreira não linear e medimos sucesso por subida. Falamos em portfólio e esperamos ser descobertos. Pregamos a necessidade de aprender a aprender, mas queremos cases que nos garantam sucesso.
A transformação real começa quando essa distância entre o que falamos e o que praticamos deixa de nos proteger. Critério não vem da experiência acumulada, vem da experiência revisitada. E aprender a esquecer é o nome dessa revisão.





