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Um guia para trainees de primeira viagem

Tais programas pagam muito bem, obrigado, e podem ser um trampolim para o início da carreira. Mas a concorrência demanda dedicação. Saiba como se preparar.

Por Gabriela Teixeira 15 jan 2026, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 22h14
Colagem de um homem e uma mulher trabalhando.
 (Brenna Oriá/Você S/A)
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a Europa medieval, a fim de proteger seus interesses, mercadores, artesãos e outros trabalhadores estabeleceram organizações conhecidas como guildas. Essas associações controlavam a oferta e o padrão de qualidade dos produtos, ao mesmo tempo em que regulamentavam os ofícios, definindo honorários, jornadas de trabalho e as qualificações necessárias para o exercício das atividades.

As guildas possuíam uma estrutura hierárquica bem definida, dividida entre aprendizes, oficiais e mestres. Na base da pirâmide, os aprendizes eram adolescentes que, para se profissionalizar, passavam anos estudando e trabalhando sob a tutela de um mestre, mas sem receber salários. Após um período de cerca de sete anos, os melhores aprendizes eram promovidos a oficiais (ou jornaleiros), trabalhadores remunerados e autorizados a viajar e a oferecer seus serviços a outros artesãos, de modo a aprender diferentes técnicas. Finalmente, para chegar ao topo da hierarquia, os oficiais produziam uma obra-prima para avaliação dos outros membros da guilda. O sucesso desse projeto determinava o destino do oficial: sem a aprovação de seus superiores, nenhum artesão podia se tornar mestre ou ter sua própria oficina.

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Essa rigidez estrutural, somada, entre outras coisas, às tentativas de manutenção do monopólio comercial e à rejeição de inovações tecnológicas, levou ao gradual colapso do sistema de guildas. Mas, guardadas as devidas proporções, seu modelo de desenvolvimento interno, focado na preparação de futuras lideranças, parece ter deixado herdeiros contemporâneos: os programas de trainee.

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Caminho longo, porta estreita

Entre os anos 2000 e 2022, o número de pessoas com ensino superior completo no Brasil saltou de 6,8% para 18,4%, segundo dados do último Censo Demográfico do IBGE. E os programas de trainee são um ótimo caminho para recém-graduados adentrarem o mercado de trabalho.

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Os atrativos começam já na remuneração. De acordo com o Guia Salarial de Trainee no Brasil 2025, divulgado pela Companhia de Estágios, empresa especialista em processos seletivos de entrada, os programas ofereciam uma média salarial de R$ 7.376, quase cinco vezes o valor do salário mínimo. No setor de tecnologia, que concentrou o maior número de iniciativas analisadas pela Companhia, os pagamentos chegavam à casa dos R$ 9 mil.

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Não à toa, a concorrência é pesada: alguns programas recebem cerca de 50 mil inscrições, segundo Paula Esteves, CEO da Cia de Talentos, consultoria de educação para carreira. “Considerando a quantidade de pessoas que se formam na universidade, temos um número bem restrito de vagas. O trainee é uma das portas de entrada para as organizações, mas uma porta muito seleta, com um nível de exigência muito maior do que o de um estágio”, diz. [Veja as diferenças entre as duas modalidades de trabalho em uma tabela ao fim desta matéria.]

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“A empresa investe em remuneração, benefícios e oportunidades diferenciadas porque ela espera que o trainee performe de maneira diferenciada”, prossegue Paula. A ideia é que, ao final do programa, os talentos selecionados exerçam funções de impacto dentro da organização: analista pleno ou sênior, coordenador, gerente… As possibilidades são muitas e dependem do desenho do programa. Com tanta responsabilidade, não é de se estranhar o rigor dos processos seletivos, que podem se estender por meses, envolvem múltiplas etapas eliminatórias e demandam uma preparação intensa e antecipada.

O primeiro passo, recomenda Paula, é fazer uma autoavaliação. Muito antes de preencher o formulário de inscrição, você deve ponderar se possui tempo e energia para dedicar aos processos. No plural mesmo, porque conquistar a aprovação logo na primeira tentativa é coisa rara. Depois, entenda quais são suas competências, fortalezas e o que ainda precisa desenvolver. Para identificar pontos fortes e fracos, vale, inclusive, conversar com amigos, professores e familiares.

Feita a análise introspectiva, é hora de mapear quais instituições combinam com seu perfil. Para isso, é necessário estudar as empresas, entender seus serviços, produtos e, claro, requisitos. Alguns programas, por exemplo, exigem disponibilidade para viagens. Outros pedem experiência prévia ou um segundo idioma. Leia (e releia) com atenção a ficha de candidatura e reflita com calma sobre como apresentar suas habilidades nas respostas. E não se esqueça de revisar o que escrever. Parece uma dica óbvia, mas muitas pessoas são reprovadas por erros de digitação.

Colagem de uma mulher estudando.
A média salarial de um trainee é de R$ 7.376, quase cinco vezes o valor do salário mínimo. (Brenna Oriá/Você S/A)

Deu match

Na sequência das inscrições, vem uma etapa de testes. Nela, as empresas avaliam aspectos técnicos e comportamentais dos candidatos, como raciocínio lógico, conhecimentos em idiomas, soft skills e fit cultural. É a primeira das peneiras e filtra quem avança para as fases de dinâmica e painel de negócios.

A psicóloga Paola Visani já levava na bagagem alguns anos de experiência clínica quando seus interesses se inclinaram para o mundo corporativo. Além de impulsionar a carreira e participar de projetos de impacto, ela também desejava atuar em uma organização que tivesse valores culturais alinhados aos seus. Foi com essas prioridades em mente que, em 2013, Paola se tornou trainee do Itaú Unibanco e lá se consolidou como superintendente de Recursos Humanos.

Hoje, ela é responsável pelas ações de atração e seleção dos novos talentos do banco. E reforça o quanto é primordial que o candidato conheça e esteja em sintonia com a empresa: “Estar em uma organização cujos valores se alinham aos seus é muito importante porque você vai vivê-los no dia a dia, vai encontrar pessoas que tomam decisões e que trabalham com base nesses valores”. A escolha deve ser uma via de mão dupla.

Faça a lição de casa

Para o terror dos tímidos, as dinâmicas de grupo e os painéis de negócios são quase onipresentes nos processos seletivos para cargos de trainee. Em ambas, os inscritos devem solucionar desafios relacionados ao cotidiano das empresas. Uma das principais diferenças está no nível de dificuldade: os painéis costumam trazer problemas mais complexos, que podem ser resolvidos de forma individual ou, como nas dinâmicas, em times. Além disso, nos painéis os candidatos passam pela avaliação do RH e também da diretoria.

Durante essas etapas, são analisadas a capacidade de liderança, a tomada de decisões e o trabalho em equipe. E não tem para onde fugir: só é aprovado quem participa. Se falar em público não é seu forte, a dica aqui é manter a calma e focar em se expressar com assertividade. “Não precisa ser quem mais fala, mas ser a pessoa que fala com mais consistência, com foco no cliente e na entrega”, explica Paula, da Cia de Talentos. “É muito importante encontrar o seu momento de fala e se preparar para ele. E como é essa preparação? Novamente estudando a organização, o que ela faz e quais soluções você teria para esses serviços. Entenda também o que está rolando no mundo e pode ser concatenado à empresa.”

Cuidado ainda com respostas prontas e supostas fórmulas mágicas. Ela alerta que cada processo tem suas particularidades e não adianta seguir o mesmo roteiro sempre, mesmo que ele tenha funcionado antes. “É visível quando a pessoa fica mais preocupada em seguir regras do que em mostrar quem é.”

Autenticidade sempre

Na etapa final, os candidatos ficam cara a cara com os gestores. É o momento de confirmar às lideranças suas motivações para fazer parte da empresa e o quanto está pronto para viver essa jornada. A entrevista pode recapitular temas que já foram abordados em fases anteriores: disponibilidade para trabalhar em outras localidades, domínio do inglês, conhecimentos sobre a área de atuação… “São perguntas que você pode buscar na internet, não para treinar respostas prontas, mas para saber como responder”, orienta Paula.

Enquanto se prepara para a conversa, vale a pena dar uma última olhada no site e nas redes sociais da organização para refrescar a memória sobre o negócio. Em caso de dúvidas, não hesite em fazer perguntas inteligentes durante a entrevista. E saiba que assumir a própria timidez pode ser um bom jeito de quebrar o gelo. “Não tem problema nenhum começar dizendo ‘Olha, sou uma pessoa tímida, mas estou muito feliz de estar aqui. Estou me esforçando para dar o meu melhor’. Não precisa ter medo. São seres humanos do outro lado”, diz a CEO.

“Os executivos estão ali para conhecer melhor o candidato e entender como ele vai contribuir para o futuro [da companhia]”, explica Paola Visani, superintendente de RH do Itaú. Ainda que seja uma etapa estressante, tente manter a calma e ser autêntico, ela aconselha. “Leve a conversa como se fosse um bate-papo. Fique atento ao tempo, fale de forma clara.” Desse modo, você conseguirá transmitir sua essência e diferencial, o que é de extrema relevância na reta final.

Colagem de uma mulher estudando.
Alguns programas de trainee recebem cerca de 50 mil inscrições. A concorrência é dura, por isso, especialistas defendem que manter a autenticidade no processo é fundamental. (Brenna Oriá/Você S/A)

Aproveite a jornada…

Acredite: mesmo depois de tantas etapas, a admissão não é a linha de chegada. Na verdade, ela é o ponto de partida de uma nova fase. No Itaú, durante o processo de onboarding, os trainees conhecem mais a fundo a estrutura e a cultura organizacional, e também são apresentados às lideranças de suas respectivas trilhas e aos mentores que os acompanharão ao longo de suas trajetórias. Em seguida,
iniciam-se as rotações, que acontecem no primeiro ano do programa.

“A intenção das rotações é que os trainees consigam ter uma visão mais holística da trilha que escolheram, conhecendo as áreas de uma forma bastante transversal e contribuindo com atividades ou projetos relevantes naquele momento”, explica Paola. Já nos últimos seis meses, os jovens são alocados nas chamadas áreas especialistas, para vivenciar desafios mais específicos. Durante todo esse tempo, eles passam ainda por treinamentos comportamentais e técnicos, conversas com executivos de diferentes áreas do banco e mentorias individualizadas que contribuem com seu desenvolvimento. Ao fim do período de 18 meses, as pessoas que mais se destacarem têm a chance de participar de um segundo programa e dar continuidade à capacitação rumo aos cargos de liderança.

Para aproveitar da melhor forma todas as oportunidades oferecidas, Paula diz que o segredo é viver tudo intensamente: esteja lá por inteiro, conheça as pessoas e os desafios de cada área, aprenda o máximo possível para entregar os melhores resultados. Ela explica que um programa de trainee pode ser como a universidade. “Existem pessoas que entram e passam de ano. E existem aquelas que participam da empresa júnior, fazem amigos, criam projetos. [Para essas pessoas] a faculdade é um momento inesquecível porque ela curtiu como
um todo, com todos os benefícios. E assim é um programa de trainee. Muito difícil de entrar, mas muito valoroso, desde que você tenha curiosidade, abertura e vontade de fazer acontecer.”

… Ou comece de novo

Diante de uma rejeição, não se cobre tanto. Reflita sobre os aprendizados colhidos ao longo da experiência. Discuta seu desempenho com outros participantes e, se a empresa oferecer um feedback do processo, analise quais são seus pontos fortes e quais precisa aperfeiçoar para as próximas candidaturas. Respire fundo e tente outra vez.

Afinal, o que realmente move um início de carreira é a curiosidade para fazer mais uma pergunta, a coragem de tentar de novo, a paciência de aprender no seu ritmo. Cada processo seletivo, aprovado ou não, te deixa um pouco mais preparado para o próximo degrau. Então, siga estudando, com conexões abertas, olhos atentos e, principalmente, confiança no seu próprio tempo. Porque toda boa jornada começa antes da aprovação: quando você decide não desistir de si mesmo.

Estágio ou trainee: quais as diferenças?

Estágio

Trainee

Público-alvo

Estudantes regularmente matriculados em cursos do ensino médio, técnico, superior ou da educação especial e dos anos finais do ensino fundamental

Universitários na reta final da graduação ou formados há, no máximo, dois ou três anos

Objetivos do programa

Visa à aplicação prática dos conhecimentos acadêmicos e aprendizado da atividade profissional 

Promove o desenvolvimento acelerado da carreira e de competências necessárias à liderança de uma organização

Regulamentação

É regido pela Lei nº 11.788, popularmente conhecida como “Lei do Estágio”, e não configura vínculo empregatício

Está regulamentado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com vínculo efetivo

Carga horária

Máxima de 6 horas diárias e 30 semanais

Pode variar entre 40 a 44 horas semanais, em jornadas de até 8 horas diárias

Remuneração e benefícios

No caso de estágio não obrigatório, é imprescindível o pagamento de bolsa e auxílio-transporte. A concessão de demais benefícios fica a critério do empregador

Salários acima da média, com pacote de benefícios estabelecidos pela CLT (13º salário, férias remuneradas,  FGTS e muito mais)

Duração máxima

Com exceção de estagiários PCDs, o estágio não pode ultrapassar o período de dois anos

Tem extensão variável, costumando durar entre 12 e 24 meses

Esta é a matéria de capa da edição número 318 (janeiro) da Você S/A. Clique aqui e confira outros conteúdos da revista.

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