Crise: o que esperar da economia, empregos e investimentos agora

Como ficam economia, empregos, investimentos e planos pessoais diante da pandemia de coronavírus que ameaça o planeta e o futuro

Matéria originalmente publicada na Revista VOCÊ S/A, edição 263, em 08 de abril de 2020. 

“Fique em casa.” Essa foi a recomendação mais repetida nas últimas semanas para boa parte dos habitantes do planeta. Até o fechamento desta reportagem, o novo coronavírus já havia contaminado mais de 786.000 pessoas ao redor do mundo, levando à morte mais de 38.000 delas, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, os números oficiais também apontavam milhares de infectados e centenas de vidas ceifadas pela covid-19.

Para evitar o alastramento da doença, governos tiraram sociedades e economias da tomada, em um cenário de filme de ficção: aulas suspensas, shows cancelados, bares e lojas proibidos de operar. Transportes foram reduzidos, ruas esvaziadas, voos restritos e fronteiras bloqueadas. Países inteiros — como a Índia, com mais de 1,3 bilhão de pessoas — se viram obrigados a entrar em quarentena. E até os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para 2021.

Se nos doentes o novo vírus causa febre, tosse seca e dificuldade para respirar, na economia o estrago também é grande: atividades comerciais desaceleraram e bolsas de valores derreteram. No Brasil, o dólar chegou a bater a marca de 5,20 reais. Por aqui, aliás, a previsão de crescimento do PIB, segundo o próprio governo, não passará de 0,02% em 2020. A expectativa em todo o mundo é de recessão. Roberto Azevêdo, presidente da Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, acredita que o crescimento global deverá ser o menor dos últimos 30 anos.

Diante deste cenário caótico, VOCÊ S/A preparou um guia ajudá-lo a entender de que maneira essa pandemia pode afetar seu bolso.

O QUE ESPERAR DA ECONOMIA?

Com mais de 81.000 pessoas infectadas, a China teve suas atividades seriamente afetadas. Segunda maior economia do mundo, a participação do país no PIB global é de 16%. Isso significa que qualquer desaceleração ali gera um efeito dominó, que impacta o Brasil. Segundo dados da plataforma de análise Economatica, apenas 50% das grandes empresas do país têm caixa para suportar três meses sem faturar. Outro número, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aponta que 70% das indústrias nacionais já tiveram queda no faturamento e 49% pedidos cancelados. “Tudo indica que ou teremos crescimento muito baixo, ou entraremos em recessão.

A China começa a se recuperar, mas até tudo voltar ao normal leva tempo”, diz Rodrigo de Losso, professor titular do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP). E o que acontece até lá? Na opinião de especialistas, por enquanto, não há risco de inflação, tampouco de desabastecimento nas prateleiras de supermercados e farmácias. Isso só deve acontecer se as pessoas entrarem em pânico. “Não há necessidade de fazer estoques em casa. Se todo mundo comprar ao mesmo tempo, aí, sim, poderá faltar”, diz Renan de Pieri, professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-Eaesp).

Outro efeito previsto do surto de coronavírus é a redução do valor da gasolina. Isso porque a procura global por petróleo caiu, derrubando o preço do barril em 56%. Embora a baixa no preço ainda não esteja sendo sentida nas bombas dos postos de combustível, a tendência é sim de queda. Na visão dos pesquisadores, o momento é de apertar os cintos, já que a atual crise sanitária impactará na retomada econômica e na geração de empregos. “Diversos setores terão problemas graves pela diminuição da demanda, e empresas pequenas irão falir. Por isso, medidas governamentais são fundamentais”, diz Renan, da FGV.

ATÉ ONDE VAI O DÓLAR?

Desde o dia 26 de fevereiro, quando o Brasil teve o primeiro caso de contaminação confirmado, o dólar valorizou 17% em relação ao real. No ano, a moeda já acumula alta de 29%. Isso acontece porque, em momentos de incerteza sobre o crescimento da economia e das empresas, a percepção de risco aumenta e os investidores tiram suas aplicações de nações emergentes. O professor Renan explica o fenômeno: “O dinheiro foge de países como o Brasil e corre para os Estados Unidos, pois os títulos do tesouro americano são o investimento mais seguro do mundo. Essa saída diminui a oferta de dólares, e o preço da moeda sobe”.

Por aqui, a escalada tem consequências graves: pressiona o preço dos importados e de produtos que dependem de matérias-primas de fora, como remédios, fertilizantes, insumos da indústria petroquímica e automobilística, componentes eletrônicos e até mesmo o trigo usado no pãozinho. E dá para ganhar algum dinheiro com a alta do dólar? Se você comprou a moeda a menos de 4 reais, agora talvez seja a hora de vender para obter lucro. “Estamos em um momento de alta volatilidade e incerteza, então é difícil fazer qualquer previsão. Mas acredito que a cotação não vá subir muito mais do que isso”, afirma Rodrigo, da USP.

DEVO CANCELAR VIAGENS E OUTRAS PROGRAMAÇÕES?

De acordo com o diretor executivo do Procon, Fernando Capez, o Código de Defesa do Consumidor garante o direito das pessoas de não viajar neste momento, pois há risco para a saúde e a segurança. “É possível remarcar ou cancelar e ter o dinheiro devolvido, sem que haja retenção do valor pago ou cobrança de taxa ou multa”, afirma. Foi o que aconteceu com a especialista em web analytics ­Roberta Ito, de 30 anos, que trabalha no escritório do Greenpeace em São Paulo e tinha uma viagem marcada para Amsterdã no dia 14 de março, onde faria treinamento na sede da ONG. No primeiro momento, a companhia aérea até tentou cobrar taxa de cancelamento. “Mas acabou voltando atrás após alegarmos o risco de viajar neste momento”, diz.

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Já o engenheiro de produção Fernando Betarelli, de 40 anos, que viajaria para Cancún com a esposa em julho, ainda está na luta pelo cancelamento do passeio. “Paguei a viagem à vista. O resort aceitou numa boa, mas ainda estou tentando cancelar as passagens aéreas. Em último caso, remarcarei para janeiro.”

Fernando Capez, do Procon, explica que estão ocorrendo cancelamentos em massa. Por isso, a entidade tem feito acordos coletivos com companhias aéreas e agências de turismo. “É melhor negociar, mesmo abrindo mão de alguma coisa, em prol de uma solução mais rápida. Se levar a questão para o Judiciário, pode demorar muito.” Segundo ele, no caso de eventos, shows e espetáculos já comprados, o princípio é o mesmo. Alunos de escolas particulares devem aguardar a reposição das aulas e, no caso de cursos de curta duração e academias, o consumidor tem o direito de suspender o pagamento. “Nossa orientação, no entanto, é tentar reagendar o serviço contratado, substituir por outro equivalente ou transformar em créditos para ser consumidos na mesma empresa.”

MEU EMPREGO ESTÁ AMEAÇADO?

Junto com o balde de água fria na economia vem o temor das demissões. Mas o advogado trabalhista Júlio Cesar de Almeida, do Viseu Advogados, diz que essa não é sempre a primeira opção. As indústrias costumam recorrer primeiramente às férias coletivas, à queima de bancos de horas e até mesmo à dispensa com compensação futura. “Evitam-se as demissões, que custam caro”, afirma. Outras opções são a antecipação de feriados ou das férias regulares dos trabalhadores. Dependendo da duração da crise, outra alternativa prevista em lei é a redução da jornada de trabalho, juntamente com a do salário, se houver negociação com o sindicato e acordo coletivo. “Os setores mais afetados serão os de turismo, aviação, varejo, comércio, indústrias que dependem de insumos importados e eletrônicos, devido à dependência da China”, diz o professor Renan, da FGV.

Ele afirma também que os trabalhadores informais, 41% da mão de obra no país, sofrerão mais por não ter garantias legais. “Quem atua com aplicativos de transporte, comércio de rua e pequenos negócios será muito afetado. Acredito que o BNDES deva injetar dinheiro na economia, comprando ações ou participações em empresas, e disponibilizando crédito mais barato. Para os trabalhadores informais, que não podem ficar parados, o governo deve apostar em um programa de renda básica.” Outra consequência da atual crise sanitária, dessa vez menos apocalíptica, é a disseminação do teletrabalho. “Depois dessa pandemia, o home office deve ganhar espaço e ser adotado por mais empresas, que vão perceber suas vantagens”, diz Renan. Embora a reforma trabalhista tenha regulamentado a modalidade, é importante firmar um aditivo ao contrato se esse se tornar o modelo de trabalho definitivo.

O contrato precisa estabelecer as novas condições, como jornada, fornecimento de materiais, ajuda de custo com internet e tudo o que for pertinente. Outro ponto importante é que, durante o período atual, o empregador permanecerá responsável pelo cumprimento das regras de segurança e saúde do trabalho. “Conforme a CLT, a empresa deve instruir os empregados sobre as precauções para evitar doenças e acidentes de trabalho, e o empregado tem de assinar um termo de responsabilidade comprometendo-se a seguir essas orientações”, afirma Júlio Cesar. Para quem contrai covid-19, a lei assegura que as ausências decorrentes do isolamento, desde que atestadas por um médico, são faltas justificadas e a organização deve arcar com a licença remunerada nos primeiros 15 dias. Depois disso, se necessário, o trabalhador recebe auxílio-doença do INSS.

COMO DEVO CONDUZIR MEUS INVESTIMENTOS?

Primeiro, tenha muita calma nesta hora. Economistas reforçam que, nos momentos de crise, é essencial evitar decisões precipitadas para não perder dinheiro. Os mais conservadores possuem alternativas de renda fixa, como fundos DI e Tesouro Selic, do Tesouro Direto. Apesar de o rendimento ser baixo com a taxa de juros a 3,75% ao ano, essas opções são seguras e têm liquidez caso o investidor precise se desfazer delas numa emergência. Para quem tem mais recursos e tolera riscos, Rafael Panonko, analista chefe da Toro Investimentos, recomenda um portfólio diversificado, alocando recursos em fundos cambiais e de renda variável por meio de fundos multimercados, imobiliários ou ações. Mesmo assim, tenha cautela. “É melhor ir comprando ações que estejam baratas aos poucos para fazer um preço médio, porque ainda não sabemos se a bolsa vai cair mais”, diz o especialista.

O Ibovespa, índice formado pela média das ações mais negociadas na bolsa de valores brasileira, já caiu 42% em 2020. O tombo arranhou a valorização do ano anterior, de 32%. O administrador de empresas Adilson Zampirolli, de 55 anos, enxerga esse tipo de situação como oportunidade. “Antes da crise, eu tinha cerca de 40% do meu dinheiro investido em renda variável, e o restante em renda fixa e no Tesouro Direto. Com a recente desvalorização, perdi mais de 30% do que estava na renda variável e, em vez de sair da bolsa, mexi em recursos da renda fixa e comprei mais ações, porque os preços caíram e surgiram ótimas ofertas.” Ao contrário do que possa parecer, Adilson não é imprudente. Primeiro, porque o montante que ele investe em ações representa apenas 5% de seu patrimônio total. Segundo, porque ele acompanha o mercado financeiro e sabe que comprar ações só dá retornos futuros.

“O valor aplicado é para a construção de patrimônio, coisa que você não vai conseguir na renda fixa. Já passamos por várias crises e vimos que, no longo prazo, a tendência da bolsa é de crescimento e recuperação”, explica Rafael, da Toro Investimentos, que indica títulos da Magalu, Petrobras, Itaúsa, Via Varejo e dos setores de energia elétrica, bancos e educação. Já aplicações como ouro e dólar valorizaram muito nas últimas semanas, pois são o porto seguro nos momentos de crise. Por isso, não é hora de comprar, porque o preço está nas alturas. Aqueles que têm uma parte do dinheiro aplicada em fundos multimercados ou em ações e estão apreensivos devem respirar fundo. O melhor é aguardar alguns meses até que os fundos ou as ações se recuperem.

Ilustração: Victor Beuren

Ilustração: Victor Beuren (/)


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